Os vídeos de Michelle Bolsonaro e o carisma que não se herda Michelle e Jair Bolsonaro (Foto: Alan Santos/PR)

Os vídeos de Michelle Bolsonaro e o carisma que não se herda

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Em pouco mais de vinte e seis minutos, divididos em dois vídeos publicados na véspera de um jogo da Seleção, Michelle Bolsonaro fez aquilo que nenhum adversário do bolsonarismo havia conseguido: expôs, de dentro, a fragilidade de sua própria sucessão. E mais: acabou dando uma aula de Política aos filhos de Bolsonaro, sem gritar, sem […]

Em pouco mais de vinte e seis minutos, divididos em dois vídeos publicados na véspera de um jogo da Seleção, Michelle Bolsonaro fez aquilo que nenhum adversário do bolsonarismo havia conseguido: expôs, de dentro, a fragilidade de sua própria sucessão. E mais: acabou dando uma aula de Política aos filhos de Bolsonaro, sem gritar, sem estridência. Não é, apenas, briga de família, “lavar roupa suja em público”. Não. É mais profundo que isso.

O cerne da questão é o espólio político e eleitoral de Jair Bolsonaro, inelegível e preso. O Senador Flávio Bolsonaro, seu filho, foi o escolhido pelo pai, todavia, atravessou, nas últimas semanas, sucessivos desgastes. O maior deles, o áudio enviado a Daniel Vorcaro; e, agora, as publicações de Michelle Bolsonaro podem ser colocadas na segunda posição de problemas na pré-candidatura. O pano de fundo da disputa no Ceará, trazida à tona por Michelle, é somente a ambientação de uma movimentação maior. Michelle não apenas se defende do que chama de “punhalada”, de ter sido maltratada por Flávio Bolsonaro e seus irmãos, em verdade, a ex-primeira dama responde ao clã Bolsonaro que não é neófita na política e apresenta suas credenciais. Convém, inclusive, retomar, ainda que, panoramicamente, alguns autores clássicos da Políticap.

Maquiavel, autor de “O Príncipe”, costuma ser invocado de modo apressado para dizer que herdar um reino é frágil. O secretário florentino afirmava o contrário: os principados hereditários, enraizados no costume e na longa linhagem, são os mais fáceis de manter. A fragilidade não está na herança em si — está em herdar um principado que ainda é novo, antes que ele se tenha sedimentado em hábito e tradição. E é esse, exatamente, o caso bolsonarista. O bolsonarismo é um principado novo, fundado por Jair com a virtù e a fortuna de quem conquista. Flávio não o conquistou: recebeu-o de mão em mão, sem o tempo que converte fundação em dinastia e sem as armas próprias que fundaram a coisa. Tem, portanto, a insegurança do príncipe novo — sem virtude comprovada, dependente de autoridade emprestada — sem a estabilidade do herdeiro de um trono antigo. É a pior das posições maquiavélicas.

Max Weber, por sua vez, nos ensinou que o carisma é, por definição, uma qualidade pessoal e extraordinária reconhecida pelos seguidores e que, justamente por isso, ele não se transmite por decreto. O momento decisivo de todo movimento carismático é a sua rotinização, ou seja, o instante em que o líder original sai de cena e a comunidade precisa decidir se o vínculo se converte em instituição ou se dispersa. Weber catalogou as saídas possíveis para essa crise. Entre elas, a designação de um sucessor pelo próprio líder e a transmissão hereditária do carisma. São, não por acaso, as formas mais frágeis: nelas, a autoridade já não brota do reconhecimento, mas da herança. É precisamente aí que Flávio Bolsonaro se encontra. Ungido pelo pai, candidato por designação, ele reúne as duas modalidades mais derivadas de legitimidade carismática — e nenhuma das duas garante que a base reconheça nele a graça que reconhecia no fundador. O carisma do pai não se transfere ao filho pela só vontade do pai. Ele precisa ser, outra vez, reconhecido. E o reconhecimento não se herda.

Michelle, aqui, ocupa o polo oposto dessa equação. Seu vínculo com a base — sobretudo com o eleitorado feminino e evangélico, onde o bolsonarismo é ao mesmo tempo mais deficitário e mais devoto — não passa por Flávio nem depende dele. Como presidente do PL Mulher, ela não é figura periférica do espólio: é um centro autônomo de legitimidade dentro do mesmo movimento. Seu carisma é weberianamente do tipo genuíno, porque repousa num reconhecimento direto, não numa linhagem. Os vídeos expõem, então, a colisão entre uma pretensão herdada (Flávio) e um carisma vivo (Michelle), abrigados sob o mesmo teto partidário.

Os vídeos não ficaram só no terreno das palavras. Há símbolos e estes comunicam uma visão de mundo e elementos ideológicos.  O cenário dos vídeos é uma peça de retórica tão deliberada que a própria autora pediu, logo de início, que reparássemos nos detalhes: “o detalhe faz toda diferença”. Ao fundo, uma parede de diplomas em molduras douradas, que objetiva uma refutação visual exata da frase que ela atribui a Flávio: “você chegou ontem e não entende de política”. Se a palavra do enteado busca  desqualificar, o ambiente a recredencia. Em sua blusa, bordadas, as palavras amor, alegria, paz (seriam os  frutos do Espírito?). Michelle asseverou que foi “apunhalada” enquanto, literalmente, veste mansidão. Acusa e ataca sem perder a graça, sem gritos ou ofensas. Além disso, outros símbolos: uma estrela de Davi, um copo no formato de cálice,  a mão em sinal de libras (amor) e o ambiente doméstico, ao que tudo indica.

Se, de fato, for o ambiente de sua casa, doméstico, pode-se recuperar  Sérgio Buarque de Holanda e Roberto DaMatta. Numa cultura política em que a fronteira entre o privado e o público nunca se constituiu fortemente, a família costuma operar como unidade de poder. E a sucessão vira herança e a herança entre herdeiros vira litígio. O “homem cordial” não distingue o lar do Estado; tampouco o bolsonarismo. Por isso o desentendimento não pôde ser absorvido por nenhuma instância partidária mediadora: foi nitroglicerina pura em vinte e seis minutos de Instagram, transmitido direto à base, no idioma iconográfico exato dessa base, retomando constantemente Deus e os valores cristãos. DaMatta, em suas obras, sempre tratou do dilema brasileiro: a “casa”, espaço dos afetos e da intimidade, das pessoas, convive com a rua, local da impessoalidade, dos indivíduos e da igualdade republicana. Michelle levou  para a rua (para o debate político) um assunto que muitos acreditam deveria ficar no âmbito caseiro e familiar. A escolha foi deliberada e bem pensada.

Qual o significado eleitoral desse episódio? Muitos, de antemão, dizem que Lula é o principal beneficiado, mas essa é a versão mais superficial. Ontem (24/06/26), pouco antes do jogo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, foi anunciada a saída de Jaques Wagner da liderança do governo no Senado (assim como Flávio por suspeitas de envolvimento no caso do Banco Master). Hoje, o tema político das notícias seria Jaques Wagner e Lula, tema já enfraquecido pela vitória do time brasileiro contra a Escócia; todavia, os vídeos de Michelle trazem mais desgaste para Flávio e alívio para Lula, querendo ou não.

Há que se considerar, essencialmente, o movimento realizado por Michelle  numa aula de estratégia política para o clã Bolsonaro: a esposa que cuida do marido, do PL Mulher e que luta contra as injustiças sofridas. A mulher cristã e evangélica que consolida seu capital político próprio para um movimento futuro e que, certamente, pode estar renegociando, por cima, seu preço dentro do movimento bolsonarista.

O que os vídeos revelam, por fim,  e que há de sobreviver ao resultado eleitoral de outubro, é outra coisa: o bolsonarismo descobriu, em público, que carisma não se herda. Jair pode ungir um filho; não pode transferir-lhe a graça que só a base concede. E Michelle, ao responder ao clã sem um grito sequer, não apenas se defendeu — sugeriu que essa graça, no espólio bolsonarista, talvez já não more onde o testamento mandou.