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Da era da pós-verdade, nascem os “discordadores”

Quando o assunto é ciência ou algo mais pragmático, é ainda mais gritante a prática dos “discordadores”
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Você já conversou com alguém, quem quer que seja, pessoal ou virtualmente, e sentiu que a pessoa estava mais ansiosa, para fazer a réplica, do que prestando atenção no conteúdo da sua fala? Quem nunca né? Há muito se fala sobre as pessoas que escutam, mas não ouvem, ou as que ouvem, mas não escutam.

Em 2016, o dicionário Oxford escolheu sua palavra do ano, Post-truth, que conhecemos por aqui, em terras tupiniquins, como pós-verdade. Na ocasião dedicou a escolha da palavra a Trump e ao Brexit. Tal “homenagem”corrobora com o significado do termo, afinal, vivemos tempos em que não importa o debate de ideias, não importam os fatos, não importa a verdade, mas ganhar a discussão. Coloquialmente, importa o clamor e o amor com que se “acha”, não o que se sabe.

Acontece que desta era da pós-verdade, derivou-se também um grupo de pessoas, que sempre estiveram por aí, mas foram refinando sua prática ao serem bombardeadas por fake News, em sua maioria recebidas por grupos de Whatsapp. Pessoas que em uma discussão, quando ainda se têm o privilégio de conseguir discutir com alguém, não estão dispostas a ouvir a outra parte, mas unicamente em discordar. A estes chamo não muito carinhosamente de “discordadores”, com o perdão do neologismo.

Não importa o que você diga, seja fato ou uma opinião pessoal, das mais pessoais, como um simples gosto por música ou artista, eles ouvirão com o único intuito de discordar. Você dirá, “gosto de rosa”, e provavelmente ouvirá dos “discordadores” um sonoro “discordo”, ou alguma relativização do que foi dito.

Quando o assunto é ciência ou algo mais pragmático, é ainda mais gritante a prática dos “discordadores”. Pois ao apontar estudos, usar dados na conversa, eles buscarão algo para discordar, pelo simples fato de discordar, você irá pedir argumentos, dados, e será em vão, irão tentar discordar até mesmo da ciência.

Você dirá que o procedimento X é um procedimento médico extremamente invasivo e que há poucas chances de que alguém se recupere sem sequelas deste, e os “discordadores” irão se apegar ao primo, da tia, da vizinha que sequer sabemos se existe, para dizer que conhecem uma pessoa que teve recuperação de 100%, tentando assim invalidar um raciocínio pautado na ciência, mas ao fazer isso, os “discordadores” estão ignorando que ciência não é sobre certeza, é sobre falseabilidade.

Pode-se pensar que os “discordadores” são apenas pessoas que não possuem capacidade de interpretação, essa deficiência que assola a população brasileira, mas não se engane, eles estão por aí, cheios de munição enviada pelo Zap, cheio de primos da tia, do vizinho do porteiro, da cabeleireira do motorista do ônibus que vão para o trabalho. E não estão dispostos a ouvir, ler, discutir, dialogar, mas estão sempre dispostos a discordar pelo simples fato de discordar.


Quem é Douglas Geraldo da Silva?

Douglas Geraldo da Silva é bacharel em Administração de empresas e estudante de psicologia.

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