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PortCon

Podemos dizer que vivemos o Português Conservador, ou o PortCon
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Quem leu 1984, do George Orwell, se lembra do Ingsoc, o Socialismo Inglês; um idioma que pretendia reduzir o alcance semântico da língua inglesa para a erradicar o que eles chamam, na história, de pensamento-crime. Ao eliminar palavras e expressões do vocabulário comum, as pessoas só conseguem dizer aquilo que o governo quer que elas digam.

Como bem observou o genial Umberto Eco no obrigatório livro Fascismo Eterno, uma das raízes do autoritarismo é o cerceamento da língua, a mutilação do discurso fazendo-o ser sempre raso, simplório e carregado de emoções primárias. Pessoas que sabem menos palavras articulam menos os seus pensamentos.

No Brasil, é possível dizer que começamos a ver algo parecido. Aqui, em livre adaptação, podemos dizer que vivemos o Português Conservador, ou o PortCon. Assim como o Ingsoc não tem nada do socialismo que diz ter, o PortCon não tem nada do conservadorismo que diz ter. É apenas reacionarismo reumático.

Por aqui, ditos conservadores papagaiam o que lhes é empurrado goela abaixo, babando ódio em seus minutos de ódio contra inimigos fabricados, como a ameaça comunista e, veja você, a Constituição Federal e o STF.

Há nisso uma raiz vazia de lógica e cheia de ressentimento e frustração, como é de hábito do reacionarismo, mas muito profunda e regada por doenças sociais profundas. No recente O Que Vem Depois da Farsa?, do crítico de arte Hal Foster, li algo sobre os apoiadores de Trump que me fez repensar toda essa semiologia bolsonarista, que, é claro, tenta ser um xerox do larajão: “Os críticos de Trump levam tudo o que ele fala de forma literal, mas não a sério; já os seus apoiadores não o levam de forma literal, mas muito a sério. Ou seja: o discurso não importa mais. E talvez por isso seja tão difícil combater essa onda porque a política, querendo ou não, é a arte do consenso e do diálogo e quando as palavras perdem sentido, com o quê se faz política? Com arma? Na porrada? Nos torturantes layouts em baixa resolução das imagens de WhatsApp?

Articulações não importam. Basta decorar alguns aglutinados de sílabas para sentir-se com a razão.

“Vai pra Cuba!”, “Mas e o PT?”, “Esquerdopata!”, “Teu c*!”; essas e outras palavras substituem qualquer argumentação. Basta tirá-las da manga quando o mundo se provar muito maior do que sua concepção reduzida e enviesada. Ao se sentir acuado pela ciência ou pela verdade, basta se valer de um desses termos tudo ficar bem. Se os pronunciar aos berros, como nos minutos de ódio, também do livro 1984 – só que agora com um inimigo líquido, incerto –, você será um herói da nação. Senão um guru.

Diante de tantas mortes, há mais uma a ser evitada: a da nossa língua. E, por consequência, a da nossa política.


Quem é Luiz Felipe Chiaradia

Luiz Felipe Chiaradia é publicitário.

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