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Longevidade
Tenho mais de 60 e quero trabalho, crédito, saúde e espaço para viver. Atender quem envelhece é tarefa do governo inteiro
Tenho mais de 60 anos. Sou, portanto, uma idosa, segundo a classificação oficial. Mas olho para a minha vida e não consigo identificar qual dos meus problemas seria resolvido pela criação de um Ministério do Idoso. Preciso de saúde, condições para trabalhar, empreender, aprender e circular pela cidade. São necessidades que atravessam todo o Executivo e podem ser atendidas desde já, sem construir mais um dragão para incinerar dinheiro público. A imagem não é casual: atravessei a adolescência e comecei minha vida profissional sob o dragão da inflação, que devorava o salário antes que o mês terminasse. Trabalhei durante a hiperinflação e aprendi cedo o estrago que esse monstro faz. Não me anima alimentar outro.
No Censo de 2022, o Brasil já tinha 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, um contingente 56% maior que o de 2010. Essa população precisa de oportunidades de emprego e de condições para gerar sua própria renda. Quem disse que experiência tem prazo de validade? Há quem queira continuar trabalhando, quem precise complementar a aposentadoria e quem finalmente tenha tempo para abrir um negócio. Um ambiente mais favorável para empreender, com menos burocracia e crédito acessível, faria diferença concreta. O BNDES poderia estruturar linhas específicas para empreendedores com mais de 60 anos, com garantias e prazos adequados. A Receita poderia ser menos implacável. Na educação, precisamos de cursos de atualização e capacitação em novas tecnologias. A transformação digital não pode virar uma catraca que expulsa do mercado quem nasceu antes dela.
Na saúde, a prioridade deveria ser preparar o SUS para um país que envelhece: financiar o atendimento, capacitar profissionais, fortalecer a prevenção e garantir acompanhamento contínuo. Precisamos de uma rede que ajude a preservar autonomia e que também ofereça cuidado a quem depende de outras pessoas. Os planos privados pesam no orçamento justamente quando a renda de muita gente fica mais apertada. E é preciso fiscalizar as barreiras de acesso: a ANS esclarece que ninguém pode ser impedido de contratar um plano por causa da idade ou da condição de saúde. Fazer esse direito valer também é tarefa do Estado. Nenhuma dessas entregas depende de uma nova placa na porta de um ministério.
Recentemente, em Nova York, vi pessoas dançando em plena Times Square, numa tarde de domingo. Havia música, movimento, conversa e convivência entre gerações. Fiquei pensando em como soluções simples podem tornar a vida melhor. Não sei como aquela apresentação foi organizada nem quem eram os músicos. Mas imaginei nossas praças com apresentações que abrissem espaço para artistas iniciantes e aposentados, reunindo gente de todas as idades. Apoiar iniciativas assim pode ser uma maneira simples e relativamente barata de estimular a cultura, ocupar a cidade e combater o isolamento. Há muita política pública possível entre um banco de praça e uma banda tocando e elas poderiam se multiplicar aos domingos por praças pelo país inteiro.
A última coisa de que preciso é que me chamem de idosa para depois me acomodarem num compartimento administrativo. Um Ministério do Idoso me lembra aquelas placas que representam qualquer pessoa com mais de 60 anos curvada sobre uma bengala. Nada de errado com a bengala: há jovens que precisam dela, e quem a utiliza tem direito a toda a acessibilidade necessária. O problema é transformar uma imagem de limitação no retrato de milhões de pessoas tão diferentes. Há quem corra maratonas, quem viaje, quem cuide dos netos, quem sustente a família e quem precise de cuidados permanentes. Uma política séria deve reconhecer essa diversidade e oferecer respostas concretas.
Quero um governo que incorpore o envelhecimento às decisões sobre trabalho, crédito, educação, saúde, cultura, transporte e urbanismo, com orçamento, metas e cobrança de resultados. Que permita continuar participando da vida e ofereça proteção quando ela for necessária. Envelhecer com autonomia depende de oportunidades e cuidados acumulados ao longo de décadas, desde a infância. Se o Estado pretende promover um envelhecimento ativo, precisa começar muito antes de nos entregar uma carteirinha de prioridade. Não é aos 60 que ele vai promover um envelhecimento ativo.