Desta vez Lula precisa ao menos ouvir Lara Resende André Lara Resende

Desta vez Lula precisa ao menos ouvir Lara Resende

Não sei se André será ministro. Sei que suas ideias merecem entrar na conversa. Da primeira vez, esperei uma abertura que não veio. Tomara que, desta vez, Lula vá além da reunião.

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  • Lula marcará reunião com André Lara Resende, ex‑banqueiro e coautor do Plano Real.
  • A conversa surge após críticas do presidente aos juros e ao Banco Central.
  • Lara Resende tem formação liberal e conhece profundamente o mercado financeiro.
  • O encontro levanta especulações sobre possível nomeação na Fazenda e abertura a novas políticas econômicas.

Quando vi a notícia de que Lula vai conversar com André Lara Resende, senti uma esperança conhecida. Foi a mesma que tive quando ele integrou a equipe de transição para o terceiro governo Lula. Naquele momento, achei que o presidente pudesse dar uma virada na política econômica. Que trouxesse algum frescor, novas ideias, ao menos para o debate. Mas nem isso nós vimos.

Lula reclamou dos juros, criticou o Banco Central, mas seu terceiro governo continuou preso à lógica que atravessa administrações desde Fernando Henrique Cardoso. Mudaram as regras fiscais, passaram os ministros, e continuamos às voltas com o mesmo problema: uma economia asfixiada pelo custo do dinheiro.

Sei que a taxa básica é definida pelo Copom. Mas o governo precisa ter uma proposta para enfrentar esse problema. A meta de inflação, por exemplo, é definida pelo CMN, o conselho no etário onde o presidente tem duas cadeiras. Reclamar dos juros não pode ser toda a política de um presidente que tem no desenvolvimento uma de suas principais promessas.

Por isso, as especulações sobre Lara Resende na Fazenda despertam minha atenção. Mais do que saber se ele será ministro, quero saber se Lula está disposto a ouvi-lo. Da outra vez, sua presença na transição não se traduziu na abertura que se esperava.

André é um economista requintado. De formação liberal, ex-banqueiro e um dos pais do Plano Real, conhece por dentro o mercado financeiro. É também filho de Otto Lara Resende, o que, confesso, acrescenta uma simpatia ao personagem. Mas o que me interessa é sua disposição para estudar, rever convicções e trazer ao Brasil discussões que avançam pelo mundo.

Essa disposição lhe custou caro entre seus pares. Muitos passaram a tratá-lo como alguém que já não merecia ser ouvido. Foi uma espécie de cancelamento intelectual. Um economista respeitado enquanto ajudava a formular o consenso passou a ser desqualificado quando começou a questioná-lo.

Eu prefiro ouvir o que ele tem a dizer.

Seus livros ajudam a entender esse caminho. Em Juros, moeda e ortodoxia, André revisita a teoria monetária e suas consequências. Em Consenso e contrassenso, questiona a busca do equilíbrio fiscal a qualquer custo. Em Camisa de força ideológica, aprofunda a discussão sobre as convicções que orientam a política econômica e sobre quanto de ideologia existe naquilo que nos apresentam como uma verdade puramente técnica.

Não é preciso concordar com tudo para reconhecer o valor dessas perguntas. Sobretudo num país que convive há tanto tempo com juros extraordinariamente altos e parece ter desistido de procurar outra saída.

E há uma caricatura que precisa ser desfeita: Lara Resende não está propondo uma licença para o governo gastar sem critério.

“O Estado não pode gastar irresponsavelmente”, ele me disse na entrevista ao MyNews que acompanha esta coluna.

 

Ao tratar das despesas de funcionamento da máquina pública, foi igualmente direto: “Só pode gastar o que arrecada”. Seu argumento é que a sociedade precisa conhecer e cobrar o custo de manter o Estado. Esse gasto exige disciplina, controle e eficiência.

Já os investimentos precisam de outro critério. Devem ser avaliados pelo retorno que podem produzir, pelo aumento da produtividade e pelo benefício à sociedade.

O saneamento ajuda a entender. A obra custa hoje, mas seus resultados aparecem durante décadas: menos doenças, menos internações, melhores condições de vida e de trabalho. Como avaliar essa despesa sem colocar esses ganhos na conta?

Na nossa conversa, André defendeu uma “agência de investimentos públicos independente”. Um órgão técnico capaz de avaliar projetos, olhar seu retorno social e trabalhar com um horizonte que ultrapasse os quatro anos de um governo. A agência e o Banco Central, explicou, precisariam atuar de forma integrada, considerando as condições da economia para acelerar ou desacelerar esses investimentos.

Ele também chamou a atenção para um erro bastante brasileiro: achar que destinar dinheiro resolve, por si só, um problema. Não basta colocar recursos na educação sem saber como melhorar o ensino. Nem financiar infraestrutura sem avaliar a utilidade das obras.

“Você precisa de um Estado inteligente”, resumiu em outro momento da entrevista.

É uma discussão muito mais interessante do que a disputa entre os rótulos de “gastador” e “responsável”, que tantas vezes encerra o debate antes mesmo de ele começar. Responsabilidade também é saber escolher onde investir e cobrar o resultado de cada escolha.

Nós conversamos com André Lara Resende algumas vezes no MyNews. Sempre encontrei um economista disposto a explicar suas ideias e a enfrentar perguntas. A entrevista que acompanha esta coluna é uma oportunidade para ouvi-lo com mais calma e entender o que ele de fato propõe.

É o que espero que Lula faça agora.

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