Entenda a verdadeira crise no Paraguai
Ueno Bank
A briga entre Cartes e Peña estourou duas semanas antes. Em dois dias o Ueno Bank saiu do ar, e em mais três o presidente estava preso. O rombo sempre existiu, o que mudou foi o racha no partido.
— O que você acha de Santiago Peña, o presidente que foi preso?
Foi nossa primeira pergunta ao motorista do Uber em Assunção.
— Fez coisas boas. Comida nas escolas para as crianças, shows, grandes jogos. Divulgou o país, trouxe negócios com o Brasil.
— Mas fez uma coisa muito ruim também: essa história do Ueno. Um banco quebrado, milhões de pessoas sem acesso ao dinheiro… – argumentamos
Ele corrigiu:
— O erro foi romper com Cartes para lançar Alliana à Presidência em 2028. Cartes queria outro nome.
E resumiu, sem tirar os olhos do trânsito:
— Neste país, só um homem manda.
— Cartes?
— Cartes.
A conversa ajuda a entender o que os balanços do banco, sozinhos, não explicam. A leitura imediata da crise é que um banco quebrou e levou o presidente junto. Mas há outra chave: um rompimento político deixou o banco sem proteção, e sua queda arrastou Peña.
O rombo não nasceu da briga. A briga pode ter aberto o caminho para que ele fosse finalmente enfrentado.
Horacio Cartes, presidente entre 2013 e 2018, magnata do tabaco e do setor bancário, fez de Peña seu sucessor político. Levou o economista ao Ministério da Fazenda e bancou suas campanhas à Presidência.
Pedro Alliana também fazia parte desse projeto. Cartes o escolheu para compor a chapa como vice e chegou a apontá-lo como futuro presidente. A proximidade ia além da política: custeou seu tratamento de Leucemia no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.
Peña tomou posse em 2023 com uma promessa atraente: transformar a imagem do Paraguai, substituir as referências ao contrabando e à falsificação pela vitrine de um país aberto aos negócios.
No caminho, começou a construir uma base própria. O afilhado queria andar sem o padrinho.
Em outubro, a ruptura ficou pública. Cartes retirou o apoio a Alliana e anunciou que sua corrente, a Honor Colorado, não teria candidato nas internas de 2027. Peña e Alliana tentaram organizar um grupo próprio.
Em 26 de outubro, Alliana disse que lealdade não deveria ser confundida com “obediência cega”.
A frase expunha o tamanho da briga. O que veio depois colocou em discussão o preço da desobediência.
O Ueno saiu da condição de financeira para virar banco numa velocidade incomum. Carlos Carvallo presidia a instituição antes de Peña nomeá-lo, em 2023, para comandar o Banco Central do Paraguai, justamente o órgão encarregado de fiscalizar os bancos.
Segundo a imprensa paraguaia, a autorização para a transformação saiu 83 dias depois da posse de Carvallo. Peña também havia sido acionista da Ueno Holding, ligada ao grupo.
O banco cresceu depressa. Absorveu o Visión Banco em 2024, captou US$ 350 milhões no exterior neste ano e chegou a 2,9 milhões de clientes.
A expansão se apoiava em três motores: dinheiro público, serviços pelo celular e uma política agressiva de devolução de parte das compras, o cashback.
Órgãos estatais mantinham centenas de milhões de dólares na instituição. A previdência dos assalariados, o IPS, tinha cerca de US$ 355 milhões aplicados ali. Itaipu e a estatal de energia também estavam expostas.
Na outra ponta, o Ueno atraía clientes com conta gratuita, transferências pelo celular e promoções que prometiam devolver até 45% do valor de determinadas compras.
O programa tinha cinco níveis. Quanto mais pontos, chamados de upys, maior o benefício. Quem ativava o Mastercard Black podia ir diretamente ao topo.
Desconto traz cliente. Mas a pergunta que interessa num banco é outra: de onde vem o dinheiro para sustentar a expansão?
Os sinais de problema já estavam nos documentos da fiscalização. Em junho, a Superintendência de Bancos identificou empréstimos a empresas ligadas ao grupo acima dos limites legais e determinou a venda dessa carteira.
Segundo o jornal Última Hora, os créditos foram vendidos por US$ 74,4 milhões à Vinanzas, empresa do mesmo conglomerado. E quem financiou a compradora? O próprio Ueno.
O problema mudou de gaveta. Continuou dentro de casa.
Peña tratou o assunto como “eminentemente técnico”. As consequências políticas e judiciais que agora se sucedem não vieram naquele momento.
O Brasil conhece bem essa mistura de dinheiro, influência e fiscalização constrangida. Quando o banco tem acesso ao palácio, o sinal de alerta pode levar muito tempo para virar providência.
A pressão ganhou força quando senadores ligados a Cartes passaram a cobrar explicações do Banco Central. Entre eles, Basilio “Bachi” Núñez, presidente do Congresso.
O grupo com poder para sustentar o governo passou a questionar o banco que o governo defendia.
Às vésperas do colapso, Alliana suspendeu sua pré-candidatura até que a situação do Ueno fosse esclarecida.
Naquela semana, o Banco Central determinou a liquidação da instituição. Seu índice de solvência havia caído a menos da metade do mínimo exigido. Aplicativo, cartões e transferências pararam. Quase 3 milhões de clientes ficaram sem acesso habitual ao dinheiro. Entre eles, cerca de 32 mil aposentados que recebiam pelo banco.
A crise avançou sobre o governo. Vieram o pedido de impeachment, a retirada do apoio partidário e o anúncio da renúncia de Peña.
Mas a renúncia não encerrou o processo. Os deputados aprovaram a acusação contra o presidente e pouparam Alliana. Na sexta-feira, o Senado destituiu Peña. O vice assumiu.
O resultado político foi preciso: caiu o presidente, ficou o partido.
O Colorado, que governa o Paraguai desde 1947, com a interrupção do período de Fernando Lugo e de seu sucessor, sacrificou uma peça e preservou o comando do país.
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A velocidade impressiona. Irregularidades discutidas havia meses produziram, em poucos dias, intervenção, prisões e a queda de um presidente.
Logo depois de perder o cargo e os privilégios da função, Peña foi detido por ordem da Promotoria. Carvallo também se entregou às autoridades.
A Justiça decretou a prisão preventiva do ex-presidente. A acusação envolve sua possível participação em decisões sobre a manutenção de recursos públicos e previdenciários no Ueno. A defesa nega que ele tenha interferido nas operações do banco e contesta os motivos da prisão.
Cabe à investigação estabelecer responsabilidades e à Justiça julgar as acusações.
Mas a sequência dos acontecimentos permite uma pergunta política incontornável: por que a reação ganhou essa velocidade justamente depois do rompimento com Cartes?
A fiscalização já havia encontrado problemas. As relações entre os dirigentes do banco e o poder eram conhecidas. Os depósitos públicos estavam lá.
A novidade era o isolamento de Peña.
Isso não prova que Cartes comandou a investigação. Mostra, porém, como a perda de sustentação política coincidiu com o fim da capacidade do governo de conter a crise.
E o dinheiro?
Para quem tem salário, aposentadoria ou economias bloqueados, a disputa entre padrinho e afilhado oferece pouca consolação.
O Paraguai tem um mecanismo semelhante ao FGC brasileiro: o Fondo de Garantía de Depósitos. A cobertura informada para o caso é de até 228,3 milhões de guaranis por depositante. O Banco Central anunciou pagamentos iniciais de até 10 milhões de guaranis.
Mas entre anunciar uma garantia e devolver tranquilidade existe uma distância enorme.
Há contas vencendo, compras adiadas, comerciantes sem receber. Para o aposentado, dinheiro bloqueado não é uma discussão sobre solvência. É o supermercado, o remédio, o aluguel.
O governo que chega promete proteção aos poupadores. Terá de mostrar como e quando ela chegará ao bolso.
A presunção de inocência vale para Peña como para qualquer pessoa. Sua responsabilidade pessoal ainda será julgada.
A responsabilidade política já está em discussão. Um governo promoveu a imagem de um país seguro para os negócios enquanto um banco próximo ao poder crescia, recebia dinheiro público e acumulava questionamentos.
Quando a aliança se desfez, o presidente caiu. O partido continuou no governo. E o homem apontado como o centro do poder permaneceu em seu lugar.
No Uber, a explicação tinha sido bem mais curta.
Presidentes passam. Cartes fica.
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