Horácio Cartes, o dono do tabuleiro paraguaio Horacio Cartes Ueno Bank

Horácio Cartes, o dono do tabuleiro paraguaio

Tido pelos paraguaios como o homem mais poderoso do País, fez de Santiago Peña presidente. Nesta semana, retirou seu apoio ao afilhado político, que caiu em pouco mais de um dia

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  • Em 5 de novembro de 2026, o presidente Santiago Peña renunciou após a bancada do Partido Colorado anunciar apoio ao seu impeachment.
  • A Câmara aprovou a acusação contra Peña por 78 a 0, mesmo após a renúncia, para impedir que se tornasse senador vitalício com foro.
  • Peña está em prisão domiciliar enquanto o Ministério Público investiga seu envolvimento com a Ueno Holding, empresa na qual foi acionista até 2025.
  • Horácio Cartes, ex‑presidente (2013‑2018) e líder do Partido Colorado, é magnata do tabaco, bancos, mídia e outros setores, e é apontado como influente na queda de Peña.

Magnata do tabaco, dono de banco, de jornais e do Club Libertad, presidente do país entre 2013 e 2018 e hoje chefe do Partido Colorado, Cartes passou décadas acusado de quase tudo. Evasão de divisas, narcotráfico, lavagem de dinheiro com o doleiro Dario Messer, suborno de parlamentares. Nenhuma acusação o tirou do jogo. A Lava Jato mandou prendê-lo e o processo acabou encerrado. Washington o declarou “significativamente corrupto” e depois retirou as sanções.

Há duas semanas, ele soltou a mão de Santiago Peña, seu ex-ministro da Fazenda e afilhado político. Em pouco mais de um dia, Peña renunciou, foi destituído por 44 a 0 no Senado e acabou em prisão domiciliar. O politólogo Alfredo Boccia resumiu dizendo que Peña é uma invenção de Cartes. No comércio, no Uber e nas praças de Assunção, ninguém precisa que expliquem quem manda no país.

 

A queda de Peña

Na quinta-feira, 5 de novembro de 2026, o presidente Santiago Peña renunciou poucas horas depois de a bancada colorada anunciar que votaria pelo seu impeachment. O gatilho foi o colapso do Ueno Bank, que deixou quase três milhões de clientes sem acesso às suas economias. Peña havia sido acionista da Ueno Holding até 2025 e nomeou um ex-dirigente da Financiera Ueno para presidir o Banco Central.

O pedido de julgamento político, apresentado por 35 deputados da oposição e dissidentes colorados, precisava de dois terços e não tinha os votos. Passou a ter quando Cartes retirou o apoio ao seu antigo afilhado. A Câmara aprovou a acusação por 78 a 0 mesmo depois da renúncia, para impedir que Peña virasse senador vitalício com foro. No dia 6, o Senado o destituiu por 44 a 0, por mau desempenho de funções. Peña está em prisão domiciliar enquanto o Ministério Público investiga o caso Ueno.

O vice Pedro Alliana assumiu e governa até 15 de agosto de 2028. O pedido de impeachment contra ele foi rejeitado (48 a 30), com os votos do bloco cartista. Para analistas paraguaios, isso deixa Cartes com ascendência sobre o novo presidente e no centro da sucessão de 2028.

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Quem é

Horacio Manuel Cartes Jara nasceu em Assunção em 5 de julho de 1956. Estudou nos Estados Unidos e começou nos negócios da família, na empresa do pai, Ramón Telmo Cartes Lind.

Construiu um conglomerado de cerca de 25 empresas, com tabaco (a Tabacalera del Este, Tabesa, carro-chefe do grupo e uma das maiores contribuintes do fisco paraguaio), bebidas, frigorífico, banco, rede de supermercados, centros médicos e um dos três principais grupos de mídia do país. Preside o Club Libertad desde 2001 e teve cargo na Associação Paraguaia de Futebol.

É um outsider que comprou a entrada no partido. Até o fim dos anos 2000 não tinha filiação partidária nem título de eleitor. Filiou-se ao Partido Colorado e fundou em 2009 o movimento Honor Colorado, que dizia combater o rumo “esquerdista-liberal filo-chavista” do governo Lugo.

Passou parte de 2026 afastado por problemas de saúde não detalhados publicamente. Em maio, ao voltar, disse que muitos queriam vê-lo morto e que estava vivo.

 

Trajetória política

• 2013 Eleito presidente com 45,91% contra 36,84% de Efraín Alegre (PLRA). Devolveu o Partido Colorado ao poder depois do intervalo de Fernando Lugo (2008 a 2012, deposto em julgamento político). O partido havia governado sem interrupção desde 1947, incluindo os 35 anos da ditadura Stroessner.

• 2013 a 2018 Governo pró-mercado, com apoio empresarial e financeiro. Em 2015 tirou Santiago Peña, então com 36 anos, da diretoria do Banco Central para o Ministério da Fazenda. Em 2016 levou Peña, que vinha do Partido Liberal, a se filiar ao Colorado.

• 2017 A tentativa de emenda constitucional para permitir sua reeleição provocou protestos violentos em Assunção, com parte do Congresso incendiada. O projeto naufragou.

• 2018 Peña perdeu a primária colorada para Mario Abdo Benítez. Cartes deixou a Presidência e ficou como senador vitalício, cargo com voz e sem voto. Tentou assumir como senador ativo e foi barrado.

• 2022 e 2023 Venceu a eleição interna para presidir o Partido Colorado e, em abril de 2023, elegeu Peña presidente. A fórmula ficou conhecida como Cartes no partido e Peña no governo.

• Junho de 2026 Honor Colorado venceu em 240 dos 263 distritos nas internas municipais. Peña anunciou Cartes como candidato à reeleição na presidência do partido.

• Setembro de 2026 Cartes tirou Alliana da chapa para 2028 e lançou Juan Carlos Baruja. Governadores, deputados e senadores migraram para o lado de Peña e Alliana, no que a imprensa passou a chamar de peñismo.

• 18 de outubro de 2026 Cartes anunciou que Honor Colorado não apresentaria candidatos nas internas de 2027. Na leitura do colunista Benjamín Livieres, foi o fato político mais importante do ciclo.

• 5 e 6 de novembro de 2026 Retirou o apoio a Peña e selou sua queda.

 

As acusações

Anos 1980. Foi preso em 1986 e em 1989 por fraude cambial e evasão de divisas.

Ano 2000. Autoridades paraguaias encontraram em uma fazenda dele um pequeno avião com registro brasileiro carregado de cocaína e maconha. Ele negou qualquer relação com a aeronave e nunca foi formalmente acusado. Em 2013, a então presidente do próprio Partido Colorado, Lilian Samaniego, chegou a insinuar vínculos com o narcotráfico.

WikiLeaks. Telegramas diplomáticos americanos divulgados em 2011 indicavam que ele havia sido alvo de investigação por narcotráfico e lavagem de dinheiro.

Lava Jato e Dario Messer: Em novembro de 2019, a Justiça Federal do Rio, na Operação Patrón, ordenou sua prisão preventiva e o nome foi para a lista de alertas da Interpol. A acusação era ter ajudado o “doleiro dos doleiros” a se esconder no Paraguai e ter posto US$ 500 mil à disposição dele. Na agenda de Messer, Cartes aparecia como “Rei” e era tratado como “hermano del alma”. Lúcio Funaro confirmou a sociedade entre os dois. A ordem de prisão foi revogada e, em 2021, o TRF2 encerrou o processo contra ele. A defesa, conduzida por Pedro Ovelar, apresenta isso como absolvição e explora o afastamento posterior do juiz Marcelo Bretas pelo CNJ. Messer, por sua vez, foi condenado a 13 anos na Operação Marakata, pena confirmada em segunda instância.

As investigações locais por lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito avançaram pouco, e a promotoria arquivou o caso em 2025.

Estados Unidos. Em julho de 2022, o Departamento de Estado o declarou “significativamente corrupto” e vetou a entrada dele e dos filhos no país. Em janeiro de 2023, o Tesouro (OFAC) congelou seus bens e os de quatro empresas, citando “corrupção desenfrenada”, suborno de parlamentares e supostos vínculos com o Hezbollah. Depois a Tabesa também entrou na lista. O advogado de Cartes admitiu que as sanções foram um golpe muito forte para o grupo, que passou por transferências de ações e reorganizações societárias. Em outubro de 2025, já no governo Trump, a OFAC levantou as sanções. A embaixada americana disse que elas já não eram compatíveis com a política externa dos EUA. Cartes recuperou o visto e foi à final da Copa do Mundo em Nova Jersey, em julho de 2026.

Cartes sempre negou todas as acusações e diz ser vítima de perseguição política.

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