Horacio Cartes
Ueno Bank
Tido pelos paraguaios como o homem mais poderoso do País, fez de Santiago Peña presidente. Nesta semana, retirou seu apoio ao afilhado político, que caiu em pouco mais de um dia
Magnata do tabaco, dono de banco, de jornais e do Club Libertad, presidente do país entre 2013 e 2018 e hoje chefe do Partido Colorado, Cartes passou décadas acusado de quase tudo. Evasão de divisas, narcotráfico, lavagem de dinheiro com o doleiro Dario Messer, suborno de parlamentares. Nenhuma acusação o tirou do jogo. A Lava Jato mandou prendê-lo e o processo acabou encerrado. Washington o declarou “significativamente corrupto” e depois retirou as sanções.
Há duas semanas, ele soltou a mão de Santiago Peña, seu ex-ministro da Fazenda e afilhado político. Em pouco mais de um dia, Peña renunciou, foi destituído por 44 a 0 no Senado e acabou em prisão domiciliar. O politólogo Alfredo Boccia resumiu dizendo que Peña é uma invenção de Cartes. No comércio, no Uber e nas praças de Assunção, ninguém precisa que expliquem quem manda no país.
Na quinta-feira, 5 de novembro de 2026, o presidente Santiago Peña renunciou poucas horas depois de a bancada colorada anunciar que votaria pelo seu impeachment. O gatilho foi o colapso do Ueno Bank, que deixou quase três milhões de clientes sem acesso às suas economias. Peña havia sido acionista da Ueno Holding até 2025 e nomeou um ex-dirigente da Financiera Ueno para presidir o Banco Central.
O pedido de julgamento político, apresentado por 35 deputados da oposição e dissidentes colorados, precisava de dois terços e não tinha os votos. Passou a ter quando Cartes retirou o apoio ao seu antigo afilhado. A Câmara aprovou a acusação por 78 a 0 mesmo depois da renúncia, para impedir que Peña virasse senador vitalício com foro. No dia 6, o Senado o destituiu por 44 a 0, por mau desempenho de funções. Peña está em prisão domiciliar enquanto o Ministério Público investiga o caso Ueno.
O vice Pedro Alliana assumiu e governa até 15 de agosto de 2028. O pedido de impeachment contra ele foi rejeitado (48 a 30), com os votos do bloco cartista. Para analistas paraguaios, isso deixa Cartes com ascendência sobre o novo presidente e no centro da sucessão de 2028.
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Horacio Manuel Cartes Jara nasceu em Assunção em 5 de julho de 1956. Estudou nos Estados Unidos e começou nos negócios da família, na empresa do pai, Ramón Telmo Cartes Lind.
Construiu um conglomerado de cerca de 25 empresas, com tabaco (a Tabacalera del Este, Tabesa, carro-chefe do grupo e uma das maiores contribuintes do fisco paraguaio), bebidas, frigorífico, banco, rede de supermercados, centros médicos e um dos três principais grupos de mídia do país. Preside o Club Libertad desde 2001 e teve cargo na Associação Paraguaia de Futebol.
É um outsider que comprou a entrada no partido. Até o fim dos anos 2000 não tinha filiação partidária nem título de eleitor. Filiou-se ao Partido Colorado e fundou em 2009 o movimento Honor Colorado, que dizia combater o rumo “esquerdista-liberal filo-chavista” do governo Lugo.
Passou parte de 2026 afastado por problemas de saúde não detalhados publicamente. Em maio, ao voltar, disse que muitos queriam vê-lo morto e que estava vivo.
• 2013 Eleito presidente com 45,91% contra 36,84% de Efraín Alegre (PLRA). Devolveu o Partido Colorado ao poder depois do intervalo de Fernando Lugo (2008 a 2012, deposto em julgamento político). O partido havia governado sem interrupção desde 1947, incluindo os 35 anos da ditadura Stroessner.
• 2013 a 2018 Governo pró-mercado, com apoio empresarial e financeiro. Em 2015 tirou Santiago Peña, então com 36 anos, da diretoria do Banco Central para o Ministério da Fazenda. Em 2016 levou Peña, que vinha do Partido Liberal, a se filiar ao Colorado.
• 2017 A tentativa de emenda constitucional para permitir sua reeleição provocou protestos violentos em Assunção, com parte do Congresso incendiada. O projeto naufragou.
• 2018 Peña perdeu a primária colorada para Mario Abdo Benítez. Cartes deixou a Presidência e ficou como senador vitalício, cargo com voz e sem voto. Tentou assumir como senador ativo e foi barrado.
• 2022 e 2023 Venceu a eleição interna para presidir o Partido Colorado e, em abril de 2023, elegeu Peña presidente. A fórmula ficou conhecida como Cartes no partido e Peña no governo.
• Junho de 2026 Honor Colorado venceu em 240 dos 263 distritos nas internas municipais. Peña anunciou Cartes como candidato à reeleição na presidência do partido.
• Setembro de 2026 Cartes tirou Alliana da chapa para 2028 e lançou Juan Carlos Baruja. Governadores, deputados e senadores migraram para o lado de Peña e Alliana, no que a imprensa passou a chamar de peñismo.
• 18 de outubro de 2026 Cartes anunciou que Honor Colorado não apresentaria candidatos nas internas de 2027. Na leitura do colunista Benjamín Livieres, foi o fato político mais importante do ciclo.
• 5 e 6 de novembro de 2026 Retirou o apoio a Peña e selou sua queda.
Anos 1980. Foi preso em 1986 e em 1989 por fraude cambial e evasão de divisas.
Ano 2000. Autoridades paraguaias encontraram em uma fazenda dele um pequeno avião com registro brasileiro carregado de cocaína e maconha. Ele negou qualquer relação com a aeronave e nunca foi formalmente acusado. Em 2013, a então presidente do próprio Partido Colorado, Lilian Samaniego, chegou a insinuar vínculos com o narcotráfico.
WikiLeaks. Telegramas diplomáticos americanos divulgados em 2011 indicavam que ele havia sido alvo de investigação por narcotráfico e lavagem de dinheiro.
Lava Jato e Dario Messer: Em novembro de 2019, a Justiça Federal do Rio, na Operação Patrón, ordenou sua prisão preventiva e o nome foi para a lista de alertas da Interpol. A acusação era ter ajudado o “doleiro dos doleiros” a se esconder no Paraguai e ter posto US$ 500 mil à disposição dele. Na agenda de Messer, Cartes aparecia como “Rei” e era tratado como “hermano del alma”. Lúcio Funaro confirmou a sociedade entre os dois. A ordem de prisão foi revogada e, em 2021, o TRF2 encerrou o processo contra ele. A defesa, conduzida por Pedro Ovelar, apresenta isso como absolvição e explora o afastamento posterior do juiz Marcelo Bretas pelo CNJ. Messer, por sua vez, foi condenado a 13 anos na Operação Marakata, pena confirmada em segunda instância.
As investigações locais por lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito avançaram pouco, e a promotoria arquivou o caso em 2025.
Estados Unidos. Em julho de 2022, o Departamento de Estado o declarou “significativamente corrupto” e vetou a entrada dele e dos filhos no país. Em janeiro de 2023, o Tesouro (OFAC) congelou seus bens e os de quatro empresas, citando “corrupção desenfrenada”, suborno de parlamentares e supostos vínculos com o Hezbollah. Depois a Tabesa também entrou na lista. O advogado de Cartes admitiu que as sanções foram um golpe muito forte para o grupo, que passou por transferências de ações e reorganizações societárias. Em outubro de 2025, já no governo Trump, a OFAC levantou as sanções. A embaixada americana disse que elas já não eram compatíveis com a política externa dos EUA. Cartes recuperou o visto e foi à final da Copa do Mundo em Nova Jersey, em julho de 2026.
Cartes sempre negou todas as acusações e diz ser vítima de perseguição política.