LAVA JATO

Eugênio Aragão: Sonderkommando Lava Jato

Os procuradores e o juiz à frente da Operação Lava Jato fizeram um trabalho sujo
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp

No auge de seu sucesso, os atores da famigerada operação Lava Jato se comportaram como se fossem os donos dos destinos do Brasil. Prenderam, ameaçaram, extorquiram, expuseram e execraram a rodo personalidades da economia e da política, em nome do “combate à corrupção”, que, a seu ver, exigiria métodos diferenciados de investigação e persecução, em vista da suposta amplitude do problema por resolver, “chaga nacional” que precisava ser extirpada da vida pública.

O dano colateral tem sido estimado na ordem de centenas de bilhões de reais e, para justificá-lo, apontam para o “sucesso” de recuperação de quatro bilhões em recursos supostamente desviados da Petrobras S.A. Uma conta que não fecha, mas que encanta no contexto de romantizada expiação dos males da política e dos políticos.

Está na hora de fazer o balanço da operação. Com a declaração de suspeição de Sergio Moro, o até então infalível inquisidor-mor da 13ª Vara Federal de Curitiba, desvenda-se, mesmo para os mais desavisados, o iceberg, cuja ponta foi a perseguição sem trégua do ex-presidente Lula.

O iceberg é a destruição de um projeto nacional de consolidação do lugar do Brasil no mundo global. O país vinha experimentando, até 2014, protagonismo inédito nos palcos internacionais, com uma política externa independente e altiva. O regime de exploração do petróleo do pré-sal lançara as bases para investimentos futuros em educação e saúde. Ao mesmo tempo, a preferência por tecnologia nacional na exploração offshore criara oportunidade para a reconstrução de um vasto parque de construção naval. A infraestrutura do país vinha sendo modernizada graças ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A presença ativa do governo brasileiro no debate das grandes questões globais, com consolidação do G20, dos BRICS, da conciliação de interesses com a República Islâmica do Irã e a comunidade internacional no tocante à sua tecnologia de fissão nuclear, o apoio à integração regional e hemisférica, através do Mercosul e da Unasul, tudo isso dava um no o perfil ao Brasil como emergente potência regional.

Evidente que esse crescimento da capacidade de influência política do governo brasileiro mexia com as cartas das potências hegemônicas. Impunha-se, para o governo norte-americano, fazer cessar esse processo. Para isso, espionaram conversas da Presidenta da República, como foi revelado pelo WikiLeaks. Lograram informações estratégicas sobre os negócios e as metas comerciais da Petrobras. E, logo, encontraram agentes dispostos, dentro do país, a colaborar com eles para sabotar a governabilidade e destruir seu desenvolvimento tecnológico.

A Operação Lava Jato foi isso: uma ação de inviabilização do projeto nacional desenvolvimentista brasileiro. De lambuja, trataram de destruir a reputação de atores políticos comprometidos com esse projeto, mormente o ex-presidente Lula, sua liderança maior.

Os operadores da Lava-Jato comportaram-se que nem um Sonderkommando, típico daqueles pobres coitados nos campos de extermínio nazistas encarregados de fazer funcionar a máquina assassina e o desaparecimento de seus vestígios. Ao final, esses prisioneiros incumbidos do trabalho sujo seriam, eles mesmos, liquidados pela mesma máquina que ajudavam fazer funcionar.

Os procuradores e o juiz à frente da Operação Lava Jato fizeram um trabalho sujo, acreditando que seriam sempre honrados por isso e, até, premiados com a administração de vultuosos recursos advindos de multas astronômicas impostas, nos EUA, à Petrobras. Mas, não. Esgotada sua utilidade para a destruição do projeto nacional, foram expostos em suas criminosas transações e, ao final, dispensados como o bagaço de uma laranja chupada.

Ficou a lição para os megalômanos das corporações do Ministério Público e da Justiça: quando atuam afastados da estrita legalidade abrem seu flanco e passam a ser idiotas úteis a interesses espúrios. A mídia não é sua amiga. A mídia, assim como governos estrangeiros, por mais que os encham de encômios momentâneos, têm agenda própria, que não se confunde com o das instituições nacionais. Dispensá-los é até necessário em dado momento, para não se tornarem reféns das aspirações corporativas. E, quando o fazem, esses aliados transitórios se tornam implacáveis e ajudam a cortar as cabeças que afagaram. Hoje, os operadores da Lava Jato são mortos insepultos, mas o Brasil está em destroços e precisará de anos, senão décadas, para recompor o dano que eles infringiram à nação.


Quem é Eugênio Aragão

Eugênio Aragão é advogado e ex-ministro da Justiça da presidente Dilma Rousseff (PT).

Inscreva-se na newsletter
Relacionadas
COMBATE À FOME
Em Paraisópolis, produzimos e distribuímos mais de 300 mil máscaras e 80 mil kits de higiene e criamos 520 leitos
COMBATE À FOME
Sem as ações de instituições como a Redes da Maré, a crise seria ainda mais devastadora para os mais pobres
LAVA JATO
A conversa do juiz com as partes é normal, porém, não é permitido o conluio para a prática de atos processuais
SAÚDE
Telemedicina não é consulta por Skype ou Zoom nem orientação por WhatsApp
SAÚDE
Realidade em países como Portugal, Israel, Estados Unidos, a telessaúde não tinha amparo legal no Brasil antes da pandemia
EFEITO LULA
Lula teimou, nós teimamos, e deu certo. Mas, a justiça só está começando

Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade e Política de Cookies. Ao continuar navegando, você concorda com estas condições.