LAVA JATO

Eugênio Aragão: Sonderkommando Lava Jato

Os procuradores e o juiz à frente da Operação Lava Jato fizeram um trabalho sujo
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No auge de seu sucesso, os atores da famigerada operação Lava Jato se comportaram como se fossem os donos dos destinos do Brasil. Prenderam, ameaçaram, extorquiram, expuseram e execraram a rodo personalidades da economia e da política, em nome do “combate à corrupção”, que, a seu ver, exigiria métodos diferenciados de investigação e persecução, em vista da suposta amplitude do problema por resolver, “chaga nacional” que precisava ser extirpada da vida pública.

O dano colateral tem sido estimado na ordem de centenas de bilhões de reais e, para justificá-lo, apontam para o “sucesso” de recuperação de quatro bilhões em recursos supostamente desviados da Petrobras S.A. Uma conta que não fecha, mas que encanta no contexto de romantizada expiação dos males da política e dos políticos.

Está na hora de fazer o balanço da operação. Com a declaração de suspeição de Sergio Moro, o até então infalível inquisidor-mor da 13ª Vara Federal de Curitiba, desvenda-se, mesmo para os mais desavisados, o iceberg, cuja ponta foi a perseguição sem trégua do ex-presidente Lula.

O iceberg é a destruição de um projeto nacional de consolidação do lugar do Brasil no mundo global. O país vinha experimentando, até 2014, protagonismo inédito nos palcos internacionais, com uma política externa independente e altiva. O regime de exploração do petróleo do pré-sal lançara as bases para investimentos futuros em educação e saúde. Ao mesmo tempo, a preferência por tecnologia nacional na exploração offshore criara oportunidade para a reconstrução de um vasto parque de construção naval. A infraestrutura do país vinha sendo modernizada graças ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A presença ativa do governo brasileiro no debate das grandes questões globais, com consolidação do G20, dos BRICS, da conciliação de interesses com a República Islâmica do Irã e a comunidade internacional no tocante à sua tecnologia de fissão nuclear, o apoio à integração regional e hemisférica, através do Mercosul e da Unasul, tudo isso dava um no o perfil ao Brasil como emergente potência regional.

Evidente que esse crescimento da capacidade de influência política do governo brasileiro mexia com as cartas das potências hegemônicas. Impunha-se, para o governo norte-americano, fazer cessar esse processo. Para isso, espionaram conversas da Presidenta da República, como foi revelado pelo WikiLeaks. Lograram informações estratégicas sobre os negócios e as metas comerciais da Petrobras. E, logo, encontraram agentes dispostos, dentro do país, a colaborar com eles para sabotar a governabilidade e destruir seu desenvolvimento tecnológico.

A Operação Lava Jato foi isso: uma ação de inviabilização do projeto nacional desenvolvimentista brasileiro. De lambuja, trataram de destruir a reputação de atores políticos comprometidos com esse projeto, mormente o ex-presidente Lula, sua liderança maior.

Os operadores da Lava-Jato comportaram-se que nem um Sonderkommando, típico daqueles pobres coitados nos campos de extermínio nazistas encarregados de fazer funcionar a máquina assassina e o desaparecimento de seus vestígios. Ao final, esses prisioneiros incumbidos do trabalho sujo seriam, eles mesmos, liquidados pela mesma máquina que ajudavam fazer funcionar.

Os procuradores e o juiz à frente da Operação Lava Jato fizeram um trabalho sujo, acreditando que seriam sempre honrados por isso e, até, premiados com a administração de vultuosos recursos advindos de multas astronômicas impostas, nos EUA, à Petrobras. Mas, não. Esgotada sua utilidade para a destruição do projeto nacional, foram expostos em suas criminosas transações e, ao final, dispensados como o bagaço de uma laranja chupada.

Ficou a lição para os megalômanos das corporações do Ministério Público e da Justiça: quando atuam afastados da estrita legalidade abrem seu flanco e passam a ser idiotas úteis a interesses espúrios. A mídia não é sua amiga. A mídia, assim como governos estrangeiros, por mais que os encham de encômios momentâneos, têm agenda própria, que não se confunde com o das instituições nacionais. Dispensá-los é até necessário em dado momento, para não se tornarem reféns das aspirações corporativas. E, quando o fazem, esses aliados transitórios se tornam implacáveis e ajudam a cortar as cabeças que afagaram. Hoje, os operadores da Lava Jato são mortos insepultos, mas o Brasil está em destroços e precisará de anos, senão décadas, para recompor o dano que eles infringiram à nação.


Quem é Eugênio Aragão

Eugênio Aragão é advogado e ex-ministro da Justiça da presidente Dilma Rousseff (PT).

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