O peso de ser mulher na política: como o gênero muda a forma de cobrança na vida pública
Representação feminina
Enquanto homens são predominantemente avaliados pela atuação política, mulheres ainda enfrentam críticas direcionadas à aparência, à vida pessoal e a comportamentos que extrapolam o exercício do mandato
A violência política de gênero expõe uma assimetria na forma como homens e mulheres são avaliados quando ocupam ou disputam espaços de poder no Brasil. Enquanto a atuação e as decisões costumam concentrar as críticas dirigidas aos homens, mulheres relatam situações em que a aparência, a vida pessoal, a família e características dissociadas do exercício do mandato, passam a integrar o julgamento sobre sua presença na política.
A avaliação foi sintetizada inicialmente pelo promotor de Justiça de Bragança Paulista, Rogério Filócomo, durante participação no podcast É Sobre Isso, ao afirmar que “a crítica ao homem político é pelo fazer, enquanto pela mulher é pelo ser”, e aprofundada nesta reportagem às camadas psicológicas, institucionais, culturais e comportamentais do brasileiro.
A distinção dialoga com uma discussão antiga sobre a posição ocupada por homens e mulheres na sociedade. A filósofa feminista Simone de Beauvoir, ao tratar da construção social da condição feminina, analisou a mulher a partir da ideia de alteridade em relação ao homem, historicamente tomado como sujeito de referência. Transportada para a realidade política, essa formulação ajuda a compreender, sem ignorar suas limitações conceituais e históricas, a persistência de expectativas distintas sobre homens e mulheres que ingressam na disputa institucional.
Naturalmente, a crítica à atuação de um agente público integra o funcionamento ordinário da vida política. No entanto, o ponto de tensão aparece quando a contestação deixa de se concentrar no desempenho do mandato ou na posição defendida pela parlamentar e passa a atingir sua condição de mulher, sua aparência, sua vida privada ou sua família. É nesse campo que se insere a discussão sobre violência política de gênero, que pode funcionar como mecanismo de intimidação, constrangimento ou exclusão de mulheres dos espaços de decisão.
Em termos de participação feminina na política mundial, estudos realizados em diferentes países indicam que uma maior participação feminina na política pode estar associada a melhores resultados na gestão pública.
A pesquisa publicada em 2018 no Journal of Economic Behavior & Organization, pelos economistas Chandan Jha e Sudipta Sarangi, analisou dados de mais de 125 países e apontou uma relação entre maior participação de mulheres no governo e menores níveis de corrupção.
Segundo os autores, a presença feminina na política pode influenciar a formulação de políticas públicas e a destinação orçamentária, com maior atenção a áreas relacionadas ao bem-estar coletivo.
O direito ao voto feminino foi instituído em 1932 no Brasil e, posteriormente, a legislação eleitoral passou a estabelecer mecanismos para ampliar a presença das mulheres nas disputas eleitorais. Ainda assim, a representação feminina permanece inferior à masculina nas principais instituições políticas.
Nas eleições de 2022, as mulheres conquistaram 17,7% das cadeiras da Câmara dos Deputados, 14,8% das vagas do Senado e 17,9% dos assentos nos parlamentos estaduais, segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Senado Federal. Os índices ficaram abaixo da média mundial registrada para os parlamentos em 2020, de 24,9%, e da média dos demais países americanos, de 31,3%.
A baixa presença nas instituições não significa ausência de participação política. Em 2021, as mulheres representavam 45,7% dos filiados a partidos políticos, de acordo com os dados do “Panorama sobre a Legislação para Mulheres no Brasil entre 1988 e 2022”, organizado pela Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados, junto ao Observatório Nacional da Mulher na Política (ONMP).
Segundo o panorama, historicamente, a representação feminina na Câmara dos Deputados permaneceu restrita. Até a Assembleia Nacional Constituinte, em 1986, as mulheres não haviam ultrapassado a marca de dois dígitos na Casa. Durante o processo de redemocratização, o número de deputadas federais eleitas chegou a 26, aproximadamente o triplo do registrado anteriormente. O crescimento, porém, ocorreu de forma gradual e somente em 2018 as mulheres passaram a ocupar mais de 10% das cadeiras da Câmara.
As mulheres representam 51,1% da população brasileira, segundo o Censo Demográfico de 2025 citado no material. No Congresso Nacional, são 107 mulheres entre as 594 cadeiras das duas Casas, sendo 91 deputadas federais e 16 senadoras.
No Supremo Tribunal Federal (STF), a representação feminina é ainda mais reduzida. Após a saída da ministra Rosa Weber, Cármen Lúcia permanece como a única mulher entre os integrantes da Corte. Em 135 anos de história, o STF contou com 168 ministros homens e apenas 3 mulheres. Além de Weber e Cármen Lúcia, Ellen Gracie Northfleet foi nomeada em 2000 pelo até então presidente Fernando Henrique Cardoso, e se aposentou em 8 de agosto de 2011 aos 63 anos. Ellen foi a primeira mulher a integrar o STF e a primeira a presidir o tribunal no biênio de 2006 e 2008.
Recentemente a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), candidata à reeleição, tornou público recentemente um episódio envolvendo cartazes apócrifos espalhados pelo Recife com referências à morte de seu marido, o empresário Fernando Lucena. Ele morreu em 2022, aos 44 anos, na véspera do primeiro turno das eleições daquele ano, após sofrer um infarto.
Raquel afirmou ter tomado conhecimento das imagens enquanto se deslocava para uma agenda de campanha na Zona da Mata Sul de Pernambuco. Em vídeo publicado nas redes sociais, classificou o episódio como uma manifestação de ódio e pediu respeito à família, aos filhos e à memória do marido.
“Respeite minha família, respeite meus filhos, respeite quem não está mais aqui, respeite minha dor”, afirmou.
Além do caso de Raquel, relatos obtidos por esta reportagem indicam que a violência e a desqualificação podem assumir diferentes formas e atravessar posições ideológicas. Mulheres vinculadas à direita, à esquerda e ao centro relatam situações em que o fato de serem mulheres aparece associado à maneira como são questionadas ou atacadas.
A parlamentar paulista Amanda Vettorazzo (União Brasil), vereadora de São Paulo, também relata episódios de violência relacionados à atividade política.
Sem trajetória política anterior, ela recebeu 40.144 votos nas eleições municipais de 2024 ao lado do Movimento Brasil Livre (MBL), quando já compunha o núcleo nacional da organização.
Segundo Amanda, os colegas do movimento reconhecem que, embora também adotem uma atuação combativa, homens que ocupam posições semelhantes não teriam enfrentado episódios da mesma natureza. A vereadora relata episódios como o vazamento do endereço residencial por um jornalista. Posteriormente Amanda encontrou pichações com ameaças na casa, e afirma que sua mãe chegou a ser amordaçada durante uma invasão ao imóvel. Ela também relata ter sido perseguida por um homem que acabou preso com uma faca
Amanda foi alvo de diversos ataques, especialmente após a apresentação do Projeto de Lei (PL) 26/2025, batizado de “PL anti-Oruam”. A proposta busca impedir a contratação, pelo poder público, de artistas e eventos que façam apologia ao crime organizado ou ao uso de drogas. A repercussão nas redes sociais foi intensa, e Amanda passou a receber ataques, inclusive do próprio rapper.
“Depois do ‘PL anti-Oruam’ eu fui mais ameaçada de morte ainda, e o próprio Oruam falou que eu ‘merecia Jack’”, relatou.
No contexto prisional brasileiro, “jack” é utilizado como gíria pejorativa associada a pessoas acusadas ou condenadas por crimes sexuais. A origem exata da expressão é incerta, mas especialistas acreditam que a etimologia esteja associada ao “Jack, o Estripador”.
“Tem facilidades e dificuldades. O Kim [Kataguiri] é mais duro, eu sou mais tranquila. Tem um lado complicado de segundas intenções, mas eu consigo limitar esses constrangimentos. Eu só consigo enfrentar tudo o que enfrento porque eu não tenho filhos. Eu pensaria duas vezes se tivesse”, finalizou Amanda Vettorazzo.
A aparência como alvo de julgamento
A experiência relatada pela vereadora de Ribeirão Preto Eduarda “Duda” Hidalgo (PT) mostra outro aspecto da questão feminina. A parlamentar iniciou sua atuação política no movimento estudantil, durante o curso de Direito na Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, em 2017. No mesmo período, passou a participar do Cursinho Popular da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto e de movimentos sociais ligados à juventude, aproximando-se posteriormente do Partido dos Trabalhadores.
Duda afirma ter recebido críticas relacionadas à sua condição de mulher, além de ameaças. Um dos episódios ocorreu durante a discussão de um projeto na Câmara Municipal, quando, segundo ela, sua argumentação jurídica foi desconsiderada com uma referência à sua idade e ao fato de ser mulher.
A parlamentar também relata ter recebido ameaças graves e afirma que a violência produz desgaste adicional para mulheres que ocupam cargos políticos.
“Precisamos fazer duas ou três vezes mais do que os homens. A qualquer momento precisamos lidar com algum ataque. Tem um desgaste muito maior das mulheres, pela quantidade de violência que temos que lidar”, afirmou.
Para a psicologia, a diferença está relacionada às expectativas sociais construídas sobre os papéis desempenhados por homens e mulheres. Segundo a psicóloga Thais Zchiechang, doutora em Psicologia Social pela PUC e pesquisadora da participação política feminina, a avaliação sobre uma mulher que ocupa um cargo político frequentemente incorpora elementos que não pertencem diretamente à sua atuação institucional. A aparência, a forma de comportamento e expectativas relacionadas ao papel social feminino podem se sobrepor à análise de sua capacidade ou qualificação.
“Quando a gente fala de uma candidata que é questionada sobre aspectos que não são da sua atuação política, a gente está falando de uma adequação do que se espera que uma mulher faça, do papel social, da capacidade e estrutura dela para estar em determinados locais”, afirmou.
Para a pesquisadora, a ampliação da presença feminina nos espaços de decisão precisa ser acompanhada pela garantia de condições efetivas para que essas mulheres permaneçam neles.
A vereadora de Mogi das Cruzes Maria Luiza Fernandes, conhecida como Malu Fernandes (PL), também relata situações que, segundo sua avaliação, evidenciam tratamento distinto por ser mulher.
Ela afirma que, no início da trajetória política, chegou a ser chamada de “princesinha do prefeito” por adversários, provocação que não seria atribuída se fosse um homem. Em outra ocasião, enquanto presidia uma sessão da Câmara, relata ter determinado que um vereador encerrasse sua fala após uma quebra de decoro. Como ele teria continuado a se manifestar, Malu afirma ter determinado o corte do microfone, e que a reação foi um estopim para ela pensar no seu papel como mulher.
“Ali foi uma clara imagem de desrespeito pela minha posição de mulher. Se fosse um homem à frente da sessão, a postura seria diferente”, disse.
Malu também relaciona à violência política de gênero uma acusação envolvendo seu ex-companheiro. A vereadora é suspeita de ter invadido a residência dele em setembro de 2025 e danificado objetos. Ela nega a acusação e afirma que o episódio representou uma tentativa de retaliação após a Justiça conceder medidas protetivas em seu favor.
Segundo Malu, a acusação foi divulgada publicamente no mesmo período em que ela anunciou a pré-campanha: “Foi uma tentativa de me descredibilizar. Quando fizemos o anúncio da pré-campanha, no mesmo dia, meu ex-namorado anunciou aos canais de imprensa uma acusação totalmente infundada sobre mim, tentando fazer isso para tirar o foco do anúncio da candidatura”.
A caracterização de um episódio específico como violência política de gênero depende das circunstâncias concretas e da apuração correspondente. De maneira geral, o conceito abrange condutas destinadas a impedir, restringir ou dificultar o exercício dos direitos políticos das mulheres em razão de gênero.
Desde 2021, quando entrou em vigor a legislação que criminaliza a violência política contra a mulher, o Grupo de Trabalho criado no Ministério Público Eleitoral (MPE) passou a acompanhar ocorrências relacionadas ao tema. Segundo o MPE, o grupo tomou conhecimento de mais de 320 casos em todo o país.
As condutas podem envolver intimidação, constrangimento, perseguição, ofensa e ameaça contra mulheres cisgênero e transgênero no exercício de seus direitos políticos. A legislação prevê pena de um a quatro anos de prisão, além de multa, com possibilidade de aumento em determinadas circunstâncias.
Dos casos acompanhados pelo grupo de trabalho, aproximadamente 153 ocorreram em ambiente virtual, conforme os dados fornecidos. O conjunto inclui denúncias relacionadas à disseminação de informações falsas, ataques, discursos de ódio e ameaças por redes sociais e correio eletrônico.
A violência política de gênero pode ganhar diversas formas, para além das provocações, comentários ou assédios interpessoais. Ele pode vir institucionalmente. A ativista Vivian Mendes, da Unidade Popular (UP), relata ter sido presa em 6 de dezembro de 2023 durante um protesto na Assembleia Legislativa de São Paulo contra a privatização da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, a Sabesp. No entanto, segundo Vivian, outros manifestantes ficaram feridos e ela permaneceu presa por mais de um dia antes de ser levada à audiência de custódia. A Justiça concedeu liberdade provisória enquanto o inquérito prosseguia.
“Foi uma tentativa de intimidação, e foi uma prisão política”, afirmou. Vivian argumenta que a Polícia Militar agiu de forma exagerada contra os manifestantes naquela ocasião e classifica a prisão como política.
Para o advogado William Pimentel, especialista em organizações criminosas e processo penal, a discussão sobre igualdade na política precisa considerar não apenas a igualdade formal prevista na Constituição, mas também as condições concretas de acesso e permanência nos espaços de poder.
“As pessoas se apegam no aspecto formal da Constituição, que todos somos iguais perante a lei, mas esquecem do aspecto material. Será que, na prática, as pessoas estão em igualdade de condições?”, questionou.
Segundo Pimentel, a ampliação da participação feminina por meio de mecanismos como as cotas eleitorais representa uma tentativa de reduzir assimetrias históricas. Para ele, entretanto, a existência formal de candidaturas femininas não assegura, por si só, que as mulheres tenham estrutura política suficiente para disputar espaços de poder em condições equivalentes.
Sobre a violência política de gênero, o advogado afirma que houve evolução no tratamento jurídico do tema e cita a possibilidade de aplicação de mecanismos previstos na Lei Maria da Penha a determinadas situações relacionadas à violência política de gênero.
A vereadora Mariana Conti (PSOL), a mais votada de Campinas nas eleições municipais de 2024, também relaciona a experiência feminina na política à necessidade de superar obstáculos que não atingem homens da mesma maneira. Ela começou a militância no movimento estudantil da Unicamp e passou a se aproximar de movimentos feministas em 2006. No mesmo período, ingressou no PSOL e foi eleita vereadora pela primeira vez em 2016.
Para Mariana, a mulher que ocupa um espaço político permanece submetida a avaliações relacionadas à aparência e ao comportamento.
“Você ser mulher na política, você não pode se comportar de formas A, B, C, e sempre há comentários sobre a nossa aparência. Como se, pelo fato de sermos mulher, fôssemos avaliadas pela aparência”, afirmou.
O relato se aproxima da experiência descrita por Amanda Vettorazzo, alvo de comentários nas redes sociais que fazem referência à sua aparência, entre eles críticas ao cabelo, maquiagem e ao corpo.
Retomando a avaliação de Thais Zchiechang, a diferença não se limita ao julgamento da aparência. A pesquisadora afirma que mulheres também são mais frequentemente atingidas por ataques de natureza pessoal, familiar e sexual, além de ameaças relacionadas à integridade física.
Ela aponta ainda uma diferença na maneira como familiares são utilizados em ataques políticos. Segundo a psicóloga, homens podem ser alvo de ataques por meio de suas companheiras, enquanto, no caso das mulheres, os ataques dirigidos a familiares tendem a alcançar filhos e outros vínculos relacionados à ideia social de cuidado e proteção.
Um ponto em comum entre todas as entrevistadas ouvidas é o reconhecimento das dificuldades enfrentadas pelas mulheres para ingressar na política. Em contrapartida, algumas divergiram sobre os meios. Amanda, por exemplo, defendeu que homens e mulheres devem atuar conjuntamente em prol de um bem comum, enquanto Vivian Mendes sustentou que a política se alimenta da misoginia, e por isso seria necessário mudar o sistema por meio de uma revolução socialista.