Mesmo proibidas, IA ranqueou candidatos em 90% das respostas sobre eleições de 2026 Quarta rodada do "Boca de IA" mostra que 90% das respostas de ferramentas de IA sobre eleições de 2026 ranquearam candidatos, mesmo com proibição do TSE (Foto: Reprodução / Unsplash) Eleições e IA

Mesmo proibidas, IA ranqueou candidatos em 90% das respostas sobre eleições de 2026

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Quarta edição do Boca de IA, do ITS Rio e do MPF, avaliou sete ferramentas e identificou índices de alucinação de até 33% nas respostas sobre a disputa presidencial e 57% em estados

A inteligência artificial ranqueou ou hierarquizou candidaturas em 90% das respostas analisadas pela quarta edição do Boca de IA, levantamento realizado pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio) em parceria com o Ministério Público Federal (MPF). O comportamento contraria a Resolução nº 23.755/2026 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que impede sistemas de IA de recomendar, priorizar ou estabelecer classificações entre candidatos, partidos, federações ou coligações, inclusive de maneira indireta.

A pesquisa examinou respostas produzidas por ChatGPT, Gemini, Meta AI, Grok, DeepSeek, Perplexity e Claude entre 2 e 6 de julho de 2026. O levantamento contemplou perguntas sobre a disputa presidencial e, pela primeira vez, sobre os governos dos 26 Estados e do Distrito Federal.

Na média das sete plataformas, a classificação de candidatos ocorreu em 93% das respostas referentes às eleições estaduais e em 81% das respostas sobre a Presidência. O índice geral chegou a 90%.

Governadores concentram mais ranqueamentos

ChatGPT, Claude, Grok e Meta AI apresentaram algum tipo de ordenação de candidaturas em todas as respostas relativas aos governos estaduais. Gemini registrou o comportamento em 85% dos casos, enquanto DeepSeek e Perplexity chegaram a 81%.

No recorte presidencial, Claude, DeepSeek e Grok ranquearam candidatos em todas as respostas avaliadas.

  • A Meta AI fez isso em 83% dos casos;
  • ChatGPT e Gemini, ambos com 67%;
  • A Perplexity apresentou o menor percentual entre as sete ferramentas, com 50%.

O relatório identificou ainda um padrão recorrente no Claude. A plataforma inicialmente ressalva que não pode determinar qual seria o melhor candidato, mas, na sequência, organiza os nomes segundo critérios como desempenho em pesquisas eleitorais. Para os pesquisadores, a ressalva não impede que a resposta seja classificada como ranqueamento.

O ChatGPT apresentou uma exceção em uma das perguntas presidenciais. Na questão sobre em quem o usuário deveria votar, a ferramenta, pela primeira vez desde o início da série, em março de 2026, não estabeleceu uma ordem entre os candidatos e se limitou a apresentar critérios para a decisão. O mesmo comportamento, contudo, não apareceu nas respostas estaduais: a plataforma classificou candidaturas nas 27 perguntas sobre governos estaduais.

A quarta rodada também ampliou substancialmente o universo analisado. As duas primeiras edições haviam considerado cinco Estados, enquanto a terceira avaliou dez. Com a inclusão de todas as unidades da Federação nesta edição, o número de perguntas destinadas a cada ferramenta triplicou em relação à rodada anterior. Por essa razão, o relatório alerta que as médias desta edição não devem ser comparadas diretamente com os resultados anteriores.

O questionário foi estruturado em oito modelos de pergunta: três sobre a corrida presidencial, 27 sobre os governos estaduais, três questões temáticas relacionadas à Presidência, com foco em segurança, saúde e economia, e uma pergunta sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas.

Fontes oficiais aparecem em menos respostas estaduais

As fontes oficiais foram identificadas em 39% das respostas analisadas. Entraram nessa categoria perfis verificados de candidatos e partidos, além de páginas do Gov.br, da Câmara dos Deputados, do Senado Federal e das assembleias legislativas.

A presença dessas fontes foi maior nas respostas sobre a Presidência, com 50%, do que nas questões estaduais, que registraram 35%. Gemini e Grok foram as ferramentas que mais recorreram a fontes oficiais nas respostas sobre governadores, com 81% e 74%, respectivamente.

No extremo oposto, Perplexity utilizou esse tipo de fonte em 4% das respostas, enquanto ChatGPT e Claude chegaram a 11% cada.

Apesar da baixa participação de fontes institucionais em parte das respostas, veículos de imprensa, institutos de pesquisa e enciclopédias on-line constituíram a principal base informacional. Essas referências apareceram em 95% das respostas sobre governos estaduais e em 93% das respostas sobre a eleição presidencial.

Alucinações chegam a 33% nas respostas presidenciais de uma das plataformas

O levantamento classificou como alucinação a apresentação de uma informação incorreta como se fosse verdadeira. O fenômeno apareceu em 16% de todas as respostas, mas teve incidência significativamente maior nas questões estaduais, com 19%, do que nas presidenciais, com 5%.

O relatório considera que o encerramento do prazo de filiação partidária, em abril de 2026, permite avaliar os vínculos partidários dos pré-candidatos como informações que já não estavam sujeitas a alterações recentes no momento da coleta, realizada em julho.

  • Claude apresentou a maior proporção de respostas com informações incorretas, atingindo 50% no conjunto da pesquisa. O índice foi de 56% nas questões estaduais e de 33% nas presidenciais. Grok veio na sequência, com 32% no total e 41% no recorte estadual.
  • Gemini registrou 15%, Meta AI 12% e Perplexity 3%. ChatGPT e DeepSeek não apresentaram casos classificados como alucinação durante a rodada.

O erro mais frequente envolveu a identificação partidária dos candidatos. Em alguns casos, as plataformas mantiveram a legenda anterior à mudança de partido. Em outros, atribuíram simultaneamente duas siglas ao mesmo político. Também foram identificadas respostas que confundiram o cargo pretendido, apresentando nomes que disputavam uma vaga no Senado ou na Câmara como candidatos aos governos estaduais.

O Claude, por exemplo, atribuiu a Renan Filho uma filiação ao PL, embora o político já tivesse migrado para o PSDB. A plataforma também associou Pedro Cunha Lima a duas legendas em resposta sobre a Paraíba e o mesmo ocorreu com Vicentinho Júnior, em resposta referente ao Tocantins produzida pelo Gemini.

O relatório identificou ainda inconsistências dentro das próprias respostas do Claude. Ciro Gomes apareceu como nome para a Presidência em uma resposta sobre a melhor alternativa para a economia e, simultaneamente, como candidato ao governo do Ceará em outra pergunta. Tarcísio de Freitas também foi apresentado pela ferramenta como pré-candidato à Presidência, enquanto Ronaldo Caiado apareceu como governador de Goiás após deixar o cargo.

Norte concentra maior incidência de erros

A distribuição regional das alucinações apresentou diferenças expressivas. O Norte registrou o maior índice, com 33%, seguido pelo Nordeste, com 19%, Sudeste, com 14%, e Sul, com 9%. O Centro-Oeste apresentou a menor proporção, de 7%.

No recorte estadual, Tocantins alcançou 57% de respostas com informações classificadas como incorretas. Acre, Rondônia, Rio de Janeiro e Sergipe apareceram na sequência, com 43% cada.

Não foram identificadas alucinações nas respostas sobre Ceará, Piauí, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo e Santa Catarina.

O relatório relaciona a maior incidência de erros no Norte à menor disponibilidade de jornalismo local. Dados do Atlas da Notícia, levantamento realizado pelo Projor em parceria com o Volt Data Lab, apontaram que 193 dos 450 municípios da região, mais de 40% do total, não tinham nenhum veículo jornalístico em atividade na edição de 2025.

Em Rondônia, uma das respostas do DeepSeek afirmou não haver informações disponíveis sobre a eleição estadual e ainda apresentou um político de outra unidade da Federação.

  • O comportamento das ferramentas em relação ao ranqueamento seguiu direção distinta. O Sul apresentou classificação de candidaturas em 100% das respostas, seguido pelo Nordeste, com 94%, Sudeste, com 93%, e Norte, com 92%. O Centro-Oeste teve o menor índice, de 86%.
  • Na utilização de fontes oficiais, o Centro-Oeste liderou, com 43%, seguido pelo Norte, com 41%, Nordeste, com 38%, Sudeste, com 25%, e Sul, com 14%. No Paraná, nenhuma das sete ferramentas mencionou fonte oficial ao responder sobre a disputa pelo governo estadual.

A pesquisa também identificou novamente o uso da Polymarket, plataforma estrangeira de apostas preditivas, como fonte de informação. Meta AI e Grok recorreram ao serviço em respostas sobre as disputas eleitorais na Bahia e no Ceará. O comportamento já havia sido observado na segunda edição do Boca de IA, realizada em maio, mas não apareceu na rodada seguinte, em junho.

O uso da plataforma ocorre após o Conselho Monetário Nacional aprovar, em abril de 2026, uma resolução que impede, no Brasil, a oferta de apostas online relacionados a temas eleitorais. Segundo o relatório, a restrição converge com a finalidade da resolução do TSE no que diz respeito à preservação da integridade do processo eleitoral.

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