Foto: National Geographic
A insistência em um modelo de desenvolvimento urbano obsoleto aprofunda o abismo social e destrói o espaço público na maior metrópole do país
A cidade de São Paulo enfrenta o agravamento de uma contradição histórica que compromete a qualidade de vida coletiva. O modelo de desenvolvimento urbano vigente insiste em padrões ultrapassados e produz um fosso social contínuo. “Nosso grande problema é a desigualdade. É o desequilíbrio praticado insistentemente e estruturalmente”, alerta o arquiteto e urbanista Valter Caldana. Para o especialista, a insistência nesse padrão obsoleto fragmenta a convivência em bolhas isoladas. A falta de equilíbrio territorial transforma o cotidiano em um cenário permanente de agressividade e exclusão.
A ruptura entre o interesse privado e a responsabilidade coletiva materializa-se na degradação da infraestrutura diária. As calçadas revelam o abismo da acessibilidade na capital paulista devido a leis anacrônicas. A legislação transfere ao proprietário do imóvel a responsabilidade pelo passeio público, impedindo uma rede uniforme. “Essa ideia de que o espaço público é o que sobra precisa ser superada. Prevalece o pacto de que ‘do lote para dentro tudo, e do lote para fora o que der'”, pontua Caldana. A lógica individualista penaliza o pedestre e escancara o descaso com o coletivo.
A revisão das diretrizes urbanísticas acentuou distorções graves no adensamento e na verticalização da cidade. Instrumentos criados para combater disparidades acabaram desviados para favorecer a especulação financeira. Lojas no térreo e Habitações de Interesse Social (HIS) viraram moeda de troca comercial. “A fachada ativa e o apartamento popular foram entendidos como um cheque especial para o mercado fazer mais unidades, e não como o equipamento em si”, critica o urbanista. A liberação de prédios altos em miolos de bairro gerou forte reação popular e judicialização.
A superação do colapso urbano exige a construção imediata de um novo pacto social, econômico e cultural. A gestão pública e o mercado precisam compreender que a cidade é o espaço primordial do conflito e do encontro. “Não se mora bem dentro do próprio condomínio sem poder sair na rua. Numa cidade onde muitos moram mal, todo mundo mora mal”, enfatiza Walter Caldana. Preservar o patrimônio histórico e manter a Lei Cidade Limpa intocável são passos decisivos para garantir uma metrópole funcional, humana e menos desigual.