Prática polêmica

Pressão por produtividade extrema leva a uso indevido de remédios e coloca saúde em risco

Dependência física e química e risco maior de doenças cardíacas e vasculares estão entre as consequências
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12 de janeiro de 2021
produtividade acarreta uma série de riscos à saúde
Uso de remédios para aumento de produtividade acarreta uma série de riscos à saúde.
(Foto: Marcos Santos/USP Imagens)

É fato que vivemos em uma sociedade do desempenho: a alta produtividade é a regra. Pipocam por aí autores, youtubers e influencers que ensinam o “segredo” para trabalhar muito e dar conta de mil outras atividades e projetos, tudo isso acordando às cinco horas da manhã. A pressão, tanto a social quanto a imposta pelo próprio ambiente de trabalho, leva muita gente a privações de sono e descanso, que recorrem a substâncias que as ajudam a melhorar o rendimento, seja mental ou físico.

Um dos remédios mais populares para esse fim é o metilfenidato – vendido sob o nome comercial Ritalina, que tem boa indicação na infância e adolescência para crianças com Transtorno de Déficit de Atenção (TDAH).  Segundo a médica neurologista do Instituto de Neurologia de Curitiba (INC), Kristel Back Merida, o fármaco é utilizado desde a década de 1940 e é bem fundamentada na literatura a eficiência na infância e adolescência em pessoas diagnosticadas com o transtorno neurológico, caracterizado sobretudo pela desatenção, hiperatividade e dificuldade na aprendizagem.

Além da Ritalina, pessoas que buscam mais foco e concentração também partem para psicoestimulantes da classe de anfetamínicos. “São medicações que aumentam a disponibilidade de dopamina e noradrenalina e agem na parte frontal do cérebro, ativando mais concentração e a memória. Esse aumento vai se dar em outras áreas como a ínsula e a amígdala, associadas ao sistema de recompensa e prazer. Por isso, quando são usados de maneira indiscriminada e sem indicação correta, a pessoa pode ficar dependente”, explica a neurologista.

Psiquiatra do Sistema Único de Saúde (SUS) e membro da Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela Democracia (AMB), Vera Prates conta que é comum adultos chegarem em seu consultório pedindo receita de Ritalina. “São pessoas com sobrecarga de tarefas, que trabalham durante o dia, estudam à noite, querem dar conta de tudo e não dormir. E elas queixam que não conseguem concentrar. O cérebro tem um limite que não condiz com essa sociedade que exige muito além do que a gente pode dar. De concorrência, de acumular empregos, tudo isso às custas da saúde da pessoa. O tratamento no caso da pessoa cansada é descansar, e não tomar ritalina”, salienta.

Assim como Kristel, a psiquiatra também afirma que há uma boa indicação do remédio na infância se realizado com acompanhamento e psicoterapia associada. “Proporciona uma melhora muito importante. A criança ou adolescente com TDAH que são tratados  terão muitos ganhos e costumam se restabelecer em um curto período de tempo”. Apesar de o DSM-4  prever recentemente que o TDAH também pode acometer adultos, a condição é raríssima, diz Vera. “Geralmente a pessoa tem uma patologia subjacente ou um padrão de vida que gera sintomas. Eu nunca fiz esse diagnóstico em idade adulta”.

O remédio como problema

Foi o que aconteceu com a empresária Paula Valadares Miranda Donato, 34 anos, diagnosticada erroneamente com TDAH já na idade adulta. Na época, o psiquiatra que a acompanhava receitou lisdexanfetamina, vendido comercialmente como Venvanse, geralmente utilizado como segunda escolha depois da Ritalina para o tratamento do transtorno. No início, conta Paula, o medicamento “a tirava da cama” e lhe dava foco e energia. Mas não demoraram a surgir outros sintomas como agitação e irritabilidade extrema. “Eu surtava, chegava até a querer bater nos outros. E custei a provar que o meu problema era o remédio”.

Mesmo com as queixas, o psiquiatra aumentou as doses, e ela chegou a tomar 140mg/dia (quando a dose máxima preconizada é de 70 mg). “Por conta própria fui procurar outos médicos, comecei a fazer terapia e parei. Minha vida melhorou muito, consegui voltar a conviver com o meu pai, o que era impossível antes por causa dos surtos e do nervosismo”, relata. 

Quando se fala do aumento do rendimento físico, os esteróides anabolizantes (derivados sintéticos da testosterona) e os termogênicos, são os mais utilizados. Outra substância da moda é o GH, hormônio de crescimento que diminui consideravelmente na idade adulta, mas vem sendo usado de maneira frequente por pessoas que procuram ganhos sobretudo estéticos com a prática de atividade física.

“Nosso corpo é uma atualização constante de morte e reconstrução celular, eliminadas pelo sistema imunológico. Quando se usa o GH você potencializa essa reconstrução celular, mas a descarga hormonal multiplica muito rápido também as células cancerígenas. Por isso, o uso do  hormônio é uma balança delicada entre ser terapêutico e tornar nocivo”, diz Felipe Kutianski, educador físico e especialista em bioquímica do exercício.

Danos físicos e mentais

Entre as consequências que essas medicações, se usadas indiscriminadamente ou com indicação incorreta podem causar, o principal é a dependência química, justamente pela sensação de bem-estar proporcionada. “É uma medicação segura, então não é esperado que aconteça um dano cerebral. O efeito mais temido é a dependência. A pessoa usa como droga mesmo e busca doses cada vez maiores, o que causa irritabilidade, insônia, perda de apetite e alterações de pressão arterial” , frisa a neurologista Kristel Merida. 

Dependência é um dos riscos que o uso indiscriminado de remédios pode provocar em um pessoa
Dependência é um dos riscos que o uso indiscriminado de remédios pode provocar em um pessoa.
(Foto: USP Imagens)

O psicólogo Leonardo Morelli, um dos profissionais que ajudou a implementar um setor de assistência a pacientes suicidas no serviço de toxicologia do Hospital João XXIII, em Belo Horizonte, conta que é comum esse perfil entrar em uma roda viva com remédios. “A pessoa vai aumentando a dose para ter os mesmos efeitos agradáveis. Mas fica super eufórica e não consegue dormir. Aí toma Rivotril [nome comercial do clonazepam] para conseguir descansar . E entra naquela de um remédio para acordar e outro para dormir”. 

Em 2020, logo após o início da pandemia de coronavírus no Brasil, houve um aumento de 22% na venda do fármaco, segundo o Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma). O volume de mais de 5 milhões de caixas vendidas por mês em média faz do ansiolítico um dos remédios mais populares no país, mesmo com venda controlada. 

A psiquiatra Vera Prates lembra que, nos Estados Unidos, já se fala em uma epidemia no uso de fosfato de codeína, um opiáceo indicado para tratamento de dor. “Um remédio que é muito bom para uma doença passa a ser uma doença com dados físicos e sociais quando há abuso. Na maioria dos casos é muito importante um acompanhamento psicoterápico e mudanças de hábitos de vida. Não podemos medicalizar o que é de ordem social”, completa.

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