Daniel Vorcaro. Foto: Banco Master
MASTER
Ele comprou meio Brasil com jatinho e Macallan e descobriu um país que ainda sabe dizer não
Daniel Vorcaro prestou um favor à República. A frase soa indecente e eu a mantenho.
O favor foi involuntário. Nenhuma corregedoria chegou lá. Nenhuma comissão parlamentar chegou lá. Nós, que fazemos jornalismo há décadas, também não chegamos. Foi preciso um banqueiro correr para um jato numa pista de Guarulhos para que o Brasil visse, enfim, de que massa a Justiça e o Parlamento são feitos.
O que apareceu ali é trágico. Ministros trocando mensagens com quem jamais deveriam trocar. Senadores assinando textos escritos pelo interessado. Um Congresso que reuniu assinaturas de sobra para abrir uma CPI e não abriu nenhuma. Gente que sabia, gente que via, gente que preferiu o convite.
Agora vem a parte boa, e é por ela que escrevo.
Vorcaro seduziu. Não venceu.
Ele mandou escrever a emenda que quadruplicaria a garantia do fundo que protege o poupador brasileiro. Uma comissão do Senado derrubou o texto por inconstitucionalidade e inadequação técnica. Faça a conta comigo. O banco vivia inteiramente daquele fundo, ele próprio admitiu isso à Polícia Federal. Multiplicar a garantia por quatro multiplicaria por quatro a máquina que abriu o rombo. Ninguém sabe medir onde isso terminaria.
Ele tentou comprar o regulador. O regulador barrou a venda do banco.
Ele tentou calar a imprensa. A imprensa publicou os jatinhos, os contratos, os resorts, os charutos, os Macallans, as festas, e publicou enquanto tudo acontecia.
A fortuna dobrou muita gente poderosa. Não dobrou o país.
Vorcaro decantou o Brasil. Despejou dinheiro em cima de nós e esperou assentar. No fundo do copo ficou a parte suja, e ela tem nome, cargo e currículo. Gente que se achava em alta conta justamente pelos milhões que arrecadava, que confundia arrecadação com estatura moral, e que agora joga a própria biografia no lixo.
E aqui eu penso em Ariano Suassuna.
Naquela aula que viralizou, ele conta o espanto de ouvir uma mulher rica dividir a humanidade entre quem já foi à Disney e quem não foi. Ariano não se revoltava contra o dinheiro dela. Se revoltava contra a régua. Atrás da régua, disse ele, existe “uma quantidade de ideias frívolas, uma visão superficial do mundo e do ser humano”. E era isso que ele chamava de perigoso.
Perigoso.
Porque o que me assusta nessa história não é o tamanho do roubo. É o preço.
E veja que não estou falando de trocados. Vorcaro pagou caro. Contratos de milhões de reais, mesadas, escritórios, participações societárias, viagens. Ele escalou o preço da corrupção brasileira a um patamar que nós não conhecíamos. Encareceu o mercado.
Mesmo assim foi pouco.
Foi pouco porque do outro lado da mesa não havia um projeto de país, nem uma convicção equivocada, nem sequer o cálculo frio de quem aposta a biografia inteira e sabe o que está apostando. Havia um convite. Havia uma suíte com vista, uma garrafa, um camarote. Havia a vontade de estar dentro.
É esse o achado do caso Master, e ele é pior que o rombo. Não encontramos no fundo do poço uma corrupção sofisticada, movida por gente que acredita em alguma coisa. Encontramos frivolidade. Encontramos homens com a caneta na mão, gente que decide a vida de milhões de brasileiros, comprando para si a régua da mulher rica de Ariano, o mundo repartido entre quem está dentro e quem está fora.
Milhões de brasileiros que acordam cedo. Que trabalham duro. Que querem uma vida melhor e acreditam que vale a pena tentar. O motorista que me ouve das seis da manhã às dez da noite nunca viu um Macallan de perto. Mas ele paga a conta.
A distância entre o que essas pessoas tinham nas mãos e o que aceitaram em troca é a medida exata da nossa tragédia.
Vorcaro será julgado e deve ser. Vai entrar para o panteão dos nossos grandes assaltantes, e não pelo banco que levou. Pela República que quase levou junto.
Mas ele nos deu, de graça, o retrato que faltava. Mostrou quem se vendeu. Mostrou também onde a coisa endureceu. Numa comissão do Senado. Numa mesa de reguladores. Numa redação.
É pouco para comemorar. É mais do que eu achava que tínhamos.