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Levantamento realizado pela coluna reúne mais de 270 mil registros de violência doméstica, feminicídio e tentativa de feminicídio em todo o estado, permitindo visualizar a distribuição territorial das ocorrências e subsidiar ações de prevenção e políticas públicas
A complexa dimensão da violência contra a mulher em São Paulo pode ser compreendida pela forma como os casos se distribuem pelo território? E como isso poderá auxiliar autoridades a salvarem vidas?
“Dado público só cumpre o seu papel quando vira história”. Essa frase foi compartilhada pela jornalista de dados, Judite Cypreste, referindo-se à minha iniciativa.
Foi a partir dessas premissas — inclusive da fala da Cypreste — que desenvolvi um mapa interativo com mais de 270 mil registros de violência doméstica, feminicídio e tentativa de feminicídio ocorridos no estado entre maio de 2025 e maio de 2026. A ferramenta reúne informações obtidas por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) e busca oferecer uma leitura territorial inédita desse fenômeno, permitindo que jornalistas, pesquisadores, gestores públicos e profissionais da segurança identifiquem áreas com maior concentração de ocorrências.
A iniciativa nasce após uma série de levantamentos que realizei ao longo do último ano sobre a rede de proteção às mulheres em São Paulo. Entre eles, uma apuração junto ao Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) mostrou que o número de medidas protetivas de urgência concedidas pelo Judiciário aumentou 9,79% entre 2024 e 2025 nas cidades analisadas. O crescimento foi particularmente expressivo em Bragança Paulista, onde houve alta de 48%, e em Guarujá, que registrou avanço de 88,8%.
Em outras localidades, o comportamento foi distinto. Campinas permaneceu com o maior volume absoluto de medidas concedidas, passando de 2.242 para 2.377 deferimentos, crescimento de aproximadamente 6%. Em Atibaia, o aumento foi de 8,2%, enquanto Santos registrou elevação de 12%. Já Americana apresentou retração, com redução de 597 para 368 medidas concedidas, queda de 38%.
Além das medidas protetivas, outros indicadores nacionais reforçam a necessidade de monitoramento. De acordo com o Atlas da Violência 2025, elaborado com base em dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde, os homicídios de mulheres cresceram 2,5% entre 2022 e 2023, movimento que destoou da tendência geral de redução dos homicídios observada no país desde 2018.
O estudo mostra ainda que a taxa nacional alcançou 3,5 homicídios por 100 mil mulheres em 2023. Naquele ano, 37% dos homicídios femininos foram classificados como feminicídio, enquanto 68% das vítimas eram mulheres negras. O levantamento também indica que 35% dos homicídios de mulheres ocorreram dentro da residência da vítima e, especificamente nos casos de feminicídio, esse percentual chegou a 65,8%.
Já o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, com base em registros policiais de 2024, contabilizou 1.492 feminicídios, o maior número da série histórica iniciada em 2015. O perfil das vítimas revela que 63,6% eram negras, 70,5% tinham entre 18 e 44 anos e, em aproximadamente oito de cada dez casos, o autor do crime era companheiro ou ex-companheiro. O levantamento também registrou 3.870 tentativas de feminicídio, aumento de 19% em relação ao período anterior.
Os dados sobre violência sexual também chamam atenção. Foram contabilizadas 87.545 ocorrências de estupro e estupro de vulnerável em 2024, maior volume da série histórica. Segundo o levantamento, 76,8% dos registros correspondem a estupro de vulnerável, 55,6% das vítimas eram mulheres negras e 65% das ocorrências aconteceram dentro de casa.
No estado de São Paulo, os dados oficiais da Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) apontam novo recorde de feminicídios em 2025. Foram 266 ocorrências entre janeiro e dezembro, crescimento de aproximadamente 8% em relação aos 246 casos registrados em 2024. Na capital paulista, também houve aumento, passando de 49 para 60 mortes no mesmo período.
A partir desse cenário, a necessidade de métodos de prevenção e monitoramento da segurança pautaram o que nomeei como Mapa da Violência Contra a Mulher no Estado de São Paulo, que reúne registros de violência doméstica, feminicídio e tentativa de feminicídio ocorridos entre maio de 2025 e maio de 2026. Cada ponto representa um bairro onde houve pelo menos uma ocorrência, permitindo visualizar a concentração espacial dos casos sem expor endereços individuais ou qualquer informação que comprometa a privacidade das vítimas.
O projeto alcançou 92,2% de ocorrências geolocalizadas, abrangendo 24.011 bairros distribuídos pelos 645 municípios paulistas. Nos casos em que não havia coordenadas válidas para o bairro, os registros foram posicionados no centro aproximado do respectivo município, garantindo a representação integral das ocorrências sem identificação de locais específicos.
A metodologia considerou o centro médio dos boletins de ocorrência com coordenadas válidas para posicionar cada bairro. Já a intensidade das cores, bem como o tamanho dos pontos variam, conforme o número de registros, permitindo identificar áreas com maior concentração de casos. Acredito que esse seja o mais ambicioso projeto pessoal de jornalismo de dados, voltado à democratização do acesso à informação pública. De fato, o projeto ainda passará por uma novas inspeções do código e por novas atualizações. Mesmo assim, a cobertura territorial já alcançada permite oferecer uma ferramenta voltada à compreensão da distribuição espacial da violência contra a mulher, subsidiando análises, pesquisas e estratégias de prevenção.
O mapa está disponível para acesso público por meio do endereço www.mapadamulhersp.com.br