Daniel Vorcaro e Jaques Wagner. Foto: Reprodução EBC
Como um leilão de uma rede de mercearias públicas em Salvador se tornou a semente do maior escândalo financeiro da história recente do país
Os cálculos desta reportagem foram produzidos com auxílio de inteligência artificial, a partir de análise do decreto estadual baiano, do edital e do contrato de aquisição da EBAL, cruzados com dados públicos de folha de pagamento estadual (Sefaz-BA, Portal do Servidor BA), remuneração média do funcionalismo (Ipea/Atlas do Estado Brasileiro 2018) e taxas de crédito consignado público (Banco Central do Brasil). As estimativas têm caráter jornalístico e adotam premissas conservadoras. Veja a metodologia completa ao final.
Em 2018, o governo da Bahia tentava, pela terceira vez, se livrar da Empresa Baiana de Alimentos, a EBAL. As duas tentativas anteriores haviam sido inglórias: os leilões foram desertos. Nenhum interessado. Uma rede de 49 mercearias públicas em Salvador, cronicamente deficitária, acumulando passivos, sem fila de compradores.
Na terceira tentativa, em abril de 2018, apareceu um comprador. A NGV Empreendimentos arrematou a EBAL por R$ 15 milhões. O lance foi homologado no dia 28 de abril.
O que mudou entre o segundo e o terceiro leilão? O edital. Desta vez, junto com as lojas, o Estado da Bahia ofereceu algo que não estava no pacote anterior: a exclusividade, por 15 anos, sobre a margem consignável de todos os servidores públicos estaduais, ativos, inativos e pensionistas, por meio do Cartão Credcesta. As mercearias eram o pretexto. O Credcesta era o negócio.
O Cartão Credcesta não é um cartão de supermercado. É uma linha de crédito consignado em folha de pagamento, descontada diretamente do salário do servidor. O Decreto Estadual nº 17.251/2016 já reservava ao programa uma margem exclusiva de 30% da remuneração líquida de cada servidor ou pensionista do Poder Executivo baiano.
O contrato de aquisição da EBAL (Cláusula 4.1, incisos V, VI e VII) foi explícito: o comprador herdaria esse direito de exploração exclusiva por 15 anos, poderia ampliar as funcionalidades do cartão, incluindo saque em dinheiro, correspondendo a 50% da margem, e teria garantida a manutenção dos percentuais de consignação por todo esse período.
Em resumo: quem comprasse a EBAL comprava o direito de cobrar juros consignados de 270 mil servidores públicos baianos durante uma geração e meia.
Às vésperas do leilão, ainda em abril de 2018, o governo baiano editou o Decreto nº 18.353, formalizando e detalhando as regras do Credcesta. A cronologia é relevante: o decreto regulatório veio junto com o leilão, não antes.
A reportagem do MyNews solicitou à inteligência artificial o cálculo da receita potencial do Credcesta ao longo dos 15 anos de exclusividade garantida em contrato, com base nos dados públicos disponíveis.
Premissas adotadas (cenário base conservador):
– 270 mil servidores elegíveis (ativos + inativos + pensionistas do Poder Executivo BA em 2018)
– Remuneração líquida média de R$ 3.800/mês (abaixo da média real estimada)
– 60% de taxa de adesão ao Credcesta
– 70% da margem de 30% efetivamente utilizada
– Spread de 6% ao mês sobre o crédito, conservador para o consignado público, que praticou entre 20% e 35% ao ano no Brasil no período (Banco Central)
Resultado:
Carteira de crédito mensal ~R$ 390 milhões
Receita bruta mensal ~R$ 23 milhões
Receita bruta anual ~R$ 280 milhões
Receita bruta em 15 anos ~R$ 4,2 bilhões
Múltiplo sobre o lance pago ~280×
Payback estimado menos de 1 mês
No cenário otimista (85% de adesão, 85% da margem, spread de 9%/mês), a receita potencial em 15 anos ultrapassa R$ 12 bilhões, só na Bahia.
O negócio custou R$ 15 milhões. Mesmo no cenário mais conservador, paga-se de volta em semanas.
O Credcesta é baiano. Mas o modelo, margem consignável exclusiva de servidores estaduais cedida a privados por decreto, é replicável. O MyNews extrapolou o cálculo para os 27 estados, usando as mesmas premissas do cenário base, ajustadas pelos dados de cada unidade federativa.
O resultado:
Receita potencial do modelo Credcesta replicado nos 27 estados brasileiros, em 15 anos: R$ 18 bilhões.
São Paulo, com mais de 530 mil servidores e remuneração média superior, representaria sozinho quase 30% desse mercado. A região Sudeste concentraria mais da metade do potencial nacional.
A Bahia, com seus 270 mil servidores e renda média abaixo da média nacional, representa apenas uma fração desse universo. Mas foi ela que deu a ideia.
Nota metodológica: Os R$ 18 bilhões são uma extrapolação hipotética. Nenhum outro estado possui programa equivalente ao Credcesta. O exercício serve para dimensionar o potencial de mercado do modelo de negócio que foi montado a partir do leilão baiano, não para afirmar que tal operação existe em escala nacional, embora muitos estados e mesmo municípios tenham replicado. Os cálculos foram produzidos com auxílio de IA, utilizando dados públicos oficiais, e têm caráter jornalístico estimativo. Não incluem custos operacionais, inadimplência ou tributos.
A NGV, que venceu o leilão, cedeu os direitos do Credcesta no mesmo dia da assinatura do contrato, 5 de junho de 2018, para a PKL One Participações S.A.
A PKL passou a operar o cartão. E foi a PKL que conectou o Credcesta à engrenagem maior.
O escândalo que hoje sacode o país tem três nomes no centro: Daniel Vorcaro, banqueiro fundador do Banco Master; Daniel Monteiro, operador jurídico; e Augusto Lima, executivo que transitava entre os dois mundos.
A lógica era simples e devastadora: os créditos consignados gerados pelo Credcesta, dívidas de servidores públicos descontadas em folha, com risco praticamente zero de inadimplência, viraram lastro para Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs). Esses FIDCs foram vendidos a investidores, inclusive a fundos de pensão e entidades públicas, como o BRB (Banco de Brasília) e o Rioprevidência.
O crédito de servidor público baiano, capturado por um leilão de mercearias, foi empacotado, securitizado e vendido pelo Brasil afora como ativo financeiro de baixíssimo risco. Era baixo risco, de fato, para quem comprou o ativo. O risco, como se descobriu depois, era de outra natureza: o risco de que as carteiras não existissem, de que o lastro fosse fictício. O dinheiro era de quem trabalha
Há um detalhe que a linguagem técnica dos FIDCs, dos decretos e dos contratos de cessão de direitos tende a encobrir. O dinheiro que alimentou esse sistema não saiu do ar. Saiu do contracheque.
São os R$ 3.800 de remuneração líquida média de um professor da rede estadual baiana. Da policial militar que faz plantão no interior do estado. Do agente de saúde que visita famílias em Salvador. Do aposentado da administração pública que recebe sua pensão.
É dinheiro do orçamento público, transferido para servidores em troca de serviços essenciais prestados à população, que foi capturado sistematicamente por um mecanismo criado dentro de um leilão e expandido por meio de engenharia financeira sofisticada.
Quando o esquema desmoronou, quem ficou com o prejuízo foi o sistema financeiro, os cotistas dos fundos, e, em última instância, o contribuinte. Os servidores continuaram com o desconto em folha. A farra que R$ 18 bilhões pagam com troco
Enquanto o esquema rodava, Vorcaro gastava.
Em abril de 2024, o banqueiro financiou o “1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias” em Londres. O pacote completo custou US$ 6 milhões (cerca de R$ 34 milhões). O ponto alto foi uma degustação do uísque Macallan no George Club, em Mayfair, um dos bairros mais caros de Londres: US$ 640 mil, ou R$ 3,2 milhões, por duas horas. Entre os convidados: os ministros do STF Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, o diretor-geral da Polícia Federal Andrei Rodrigues, o procurador-geral da República Paulo Gonet e o presidente da Câmara Hugo Motta, entre outros. Ao final, cada convidado ganhou uma garrafa de Macallan, cujas edições especiais podem chegar a US$ 100 mil.
Em maio de 2024, Vorcaro repetiu a dose em Nova York. Planilhas apreendidas pela Polícia Federal mostram gastos de R$ 11,9 milhões em eventos para políticos e autoridades brasileiras, incluindo um jantar no Nusr-Et (o restaurante do “Salt Bae”) para o então governador do Rio Cláudio Castro, e a chamada “noite das astronautas”, uma festa em suíte presidencial em Manhattan com mulheres russas e ucranianas em figurinos prateados. Só a compra de uísques custou R$ 3,5 milhões. Cada convidado foi presenteado com uma garrafa de Macallan 25 anos, avaliada em R$ 30 mil.
Havia ainda o contrato com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes: R$ 129 milhões em três anos, a R$ 3,6 milhões por mês. O contrato, encontrado no celular de Vorcaro pela PF, estipulava que o escritório representaria o Banco Master “onde for necessário”, sem especificar causas ou processos.
Leilão da EBAL (o negócio inteiro) – R$ 15 milhões
Festa em Nova York (NY, maio/2024) – R$ 11,9 milhões
Circuito de Londres (abril/2024) – R$ 34 milhões (~US$ 6 mi)
Degustação de uísque — Londres – R$ 3,2 milhões
Contrato escritório Viviane Barci – R$ 129 milhões (3 anos)
Total das festas e contratos acima ~R$ 193 milhões
Potencial do modelo Credcesta — Brasil – R$ 18 bilhões
Razão: mercado potencial ÷ festas ~93×
As festas escandalizam. E devem escandalizar, são a prova material de uma relação entre dinheiro privado e poder público que a lei chama de corrupção.
Mas são o custo de operação. O negócio era muito maior.
O Credcesta foi o início. Os FIDCs lastreados em crédito consignado de servidores públicos foram o passo seguinte, um negócio separado, com sua própria arquitetura, seus próprios investidores, suas próprias vítimas. Essa é uma outra história, que o MyNews continuará investigando.
O que esta reportagem quis mostrar é o começo da linha: um leilão de mercearias públicas em Salvador, em 2018, que escondeu dentro de si o embrião de um modelo de negócio com potencial de R$ 18 bilhões, capturando o dinheiro de quem limpa escola, faz cirurgia no SUS, patrulha rua e registra nascimento no cartório do estado.
Esse dinheiro não era de Vorcaro. Era de todos nós.
Esta reportagem utilizou inteligência artificial (Claude, da Anthropic) para estruturar e calcular as projeções de receita do Programa Credcesta, a partir de:
– *Decreto Estadual BA nº 17.251/2016* — regime de consignações em folha
– *Decreto Estadual BA nº 18.353/2018* — disciplina o Programa Credcesta
– *Contrato de Aquisição EBAL nº 06/2018* — cláusula 4.1, incisos V, VI e VII
– *Edital do Leilão de Alienação nº 01/2018*
– *Sefaz-BA e Portal do Servidor BA* — número de servidores e folha de pagamento
– *Ipea — Atlas do Estado Brasileiro (2018)* — remuneração média por esfera e estado
– *IBGE — Estadic/Perfil dos Estados Brasileiros (2017)* — servidores por estado
– *Banco Central do Brasil* — taxas de crédito consignado público (2018–2024)
– *Poder360, O Globo, Gazeta do Povo, Revista Fórum* — festas, contratos e investigações
– *Polícia Federal / Operação Compliance Zero* — documentos citados pela imprensa
Os cálculos adotam premissas conservadoras e não incluem custos operacionais, inadimplência ou tributos. São estimativas de receita bruta para fins jornalísticos.