A ideia de que qualquer empresa pode se transformar em um banco deixou de ser apenas uma tendência do mercado financeiro para ganhar espaço em diferentes setores da economia. O conceito, conhecido como embedded finance (finanças embarcadas), permite que empresas ofereçam serviços financeiros diretamente aos seus clientes sem precisar obter uma licença bancária própria.
Em entrevista ao MyNews, Daniel Correia, fundador da Boss for You, explicou que o modelo consiste em incorporar serviços bancários dentro de ecossistemas empresariais já existentes. Segundo ele, muitas companhias já operam fluxos financeiros complexos semelhantes aos de instituições financeiras, mas sem capturar as receitas geradas por essas operações.
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O que são finanças embarcadas?
Na prática, o embedded finance permite que uma empresa ofereça conta digital, meios de pagamento, crédito, antecipação de recebíveis e outros serviços financeiros diretamente dentro de sua plataforma.
Em vez de direcionar clientes para bancos tradicionais, a companhia passa a concentrar essas operações em seu próprio ambiente digital. Assim, fortalece o relacionamento com clientes e fornecedores, além de criar novas fontes de receita.
De acordo com Correia, empresas que adotam esse modelo podem transformar custos financeiros em receitas. Enquanto muitas organizações gastam entre 1% e 3% do faturamento com despesas financeiras, aquelas que operam serviços embarcados podem gerar receitas adicionais de 3% a 5% sobre suas transações.
A empresa vira um banco?
Embora o usuário tenha a sensação de estar utilizando um banco próprio da empresa, a estrutura regulatória continua sendo operada por instituições autorizadas pelo Banco Central.
As empresas funcionam como usuárias da infraestrutura financeira fornecida por plataformas especializadas. Dessa forma, conseguem oferecer produtos bancários sem assumir diretamente toda a complexidade regulatória exigida de um banco tradicional.
Nos casos de inadimplência, fraude ou questões regulatórias, a responsabilidade permanece concentrada nos provedores de tecnologia financeira e nas instituições que detêm as licenças necessárias para operar.
O retorno dos bancos especializados
Segundo Correia, o mercado financeiro está entrando em uma nova fase. Após décadas de concentração bancária e, posteriormente, da ascensão das fintechs, surge agora um movimento de especialização por nichos de mercado.
A expectativa é que, nos próximos anos, surjam bancos focados em segmentos específicos, como redes de franquias, setor farmacêutico, saúde, indústria e pequenas empresas. O objetivo é utilizar dados operacionais dos clientes para realizar análises de crédito mais precisas e compatíveis com a realidade de cada setor.
Crédito mais barato para empresas
Uma das principais promessas das finanças embarcadas é reduzir as distorções na precificação do crédito.
Hoje, muitas pequenas e médias empresas acabam pagando taxas semelhantes às de setores mais arriscados porque os bancos utilizam modelos amplos de avaliação. Com o acesso a informações detalhadas sobre faturamento, comportamento financeiro e fluxo operacional, as análises tendem a ser mais individualizadas.
O executivo cita o exemplo do setor médico. Apesar de muitos profissionais apresentarem renda estável e baixo risco de inadimplência, eles frequentemente enfrentam dificuldades para acessar crédito em condições adequadas. Com bancos especializados no segmento, a avaliação passa a considerar características específicas da atividade, permitindo condições potencialmente mais favoráveis.
O que ainda impede a expansão?
Apesar das vantagens, a adoção das finanças embarcadas ainda enfrenta obstáculos.
O principal deles é a integração tecnológica. Muitas empresas utilizam diversos sistemas para pagamentos, folha salarial, crédito e gestão financeira. Reunir todas essas operações em uma única plataforma exige planejamento, adaptação e mudanças de processos internos.
Correia afirma que a maior parte dos casos de insucesso ocorre justamente por problemas de implementação ou pela falta de clareza sobre quais serviços financeiros devem ser incorporados ao negócio.
Quem já está fazendo isso?
Embora o conceito ainda pareça novo para muitos empresários, grandes empresas brasileiras já avançam nessa direção.
Entre os exemplos citados estão Natura, Grupo Boticário, Ambev e Cyrela, que vêm desenvolvendo estruturas próprias para integrar serviços financeiros aos seus ecossistemas de clientes e parceiros. Segundo Correia, a tendência é que o movimento se expanda das grandes corporações para empresas médias e, posteriormente, para pequenos negócios ao longo dos próximos cinco anos.
Para especialistas do setor, o embedded finance pode representar uma das transformações mais relevantes do sistema financeiro desde a popularização das fintechs, alterando a forma como empresas geram receita, oferecem crédito e se relacionam com seus clientes.