Nova pesquisa Genial/Quaest: crise continuada ou derretimento de Flávio Bolsonaro? Flávio Bolsonaro ! Foto: Reprodução

Nova pesquisa Genial/Quaest: crise continuada ou derretimento de Flávio Bolsonaro?

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A nova rodada da pesquisa Genial/Quaest trouxe um dado que merece a atenção dos analistas e, sobretudo, da pré-campanha de Flávio Bolsonaro. Em cenário de segundo turno, o presidente Lula aparece com 44% das intenções de voto, contra 38% do senador. A diferença de seis pontos está fora da margem de erro e indica um […]

A nova rodada da pesquisa Genial/Quaest trouxe um dado que merece a atenção dos analistas e, sobretudo, da pré-campanha de Flávio Bolsonaro. Em cenário de segundo turno, o presidente Lula aparece com 44% das intenções de voto, contra 38% do senador. A diferença de seis pontos está fora da margem de erro e indica um movimento político relevante.

Mais importante do que a fotografia do momento é a trajetória dos números: Lula avança em relação ao levantamento anterior, enquanto Flávio recua. Em política, tendências costumam pesar tanto quanto valores absolutos — e é por isso que a pesquisa acende uma luz amarela, ou talvez vermelha, no campo bolsonarista. Aliados do senador já admitem, reservadamente, que uma diferença próxima de dez pontos poderá reabrir o debate sobre a viabilidade de sua candidatura. E a permanência, ou não, de Flávio na disputa altera de forma significativa o tabuleiro de 2026.

Peço licença ao leitor para retomar uma ideia que tenho usado com frequência: o binômio bônus e ônus. O bônus de Flávio é conhecido: seu sobrenome. Filho de Jair Bolsonaro, ele herda um espólio político-eleitoral expressivo. Mesmo inelegível, preso e fora da disputa, o pai segue como a principal liderança da direita brasileira, o que permite ao senador chegar competitivo às pesquisas praticamente “jogando parado”, beneficiado pela transferência de votos e pela identificação de parcela expressiva do eleitorado com o bolsonarismo. Mas, no bojo do bônus o ônus — e é aqui que a situação se torna delicada. Boa parte do desgaste que Flávio enfrenta não decorre da ação de seus adversários, mas de episódios protagonizados por ele próprio ou por seu entorno.

O primeiro abalo veio com o áudio em que o senador solicita recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro para o filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. Como Vorcaro se tornou figura central em investigações recentes, a associação entre ambos passou a ser explorada pela imprensa e pelos adversários — e as explicações posteriores, marcadas por contradições, apenas prolongaram o desgaste. Na tentativa de deslocar o foco, Flávio buscou protagonismo internacional em viagem aos Estados Unidos, onde se encontrou com Donald Trump e afirmou ter defendido a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. Dias depois, a medida foi de fato anunciada por Washington. O efeito colateral, porém, foi expressivo: permitiu a Lula reposicionar-se como defensor da soberania nacional, bandeira historicamente mobilizadora entre nós. O anúncio de novas tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros reforçou o mesmo enredo, associado pelo governo à atuação internacional da família Bolsonaro. Independentemente da procedência dessas leituras, os fatos acabaram favorecendo a narrativa do Planalto.

Vale recordar uma lição de Maquiavel. Em O Príncipe, de 1513, o florentino sustenta que o êxito político depende da combinação entre virtù — capacidade de ação, liderança e habilidade — e fortuna, isto é, as circunstâncias e oportunidades oferecidas pelos acontecimentos. Lula reúne as duas. Sua longa trajetória, que desde o fim dos anos 1980 o coloca no centro das principais disputas do país, é um ativo de virtù; os episódios recentes parecem ter-lhe acrescentado uma dose generosa de fortuna. Ao protagonizar movimentos que geram controvérsia, Flávio entrega ao presidente o que todo governante deseja: um adversário que cria dificuldades para si mesmo. Em vez de gastar energia desconstruindo o oponente, Lula vê parte do desgaste ser produzida pela própria pré-campanha bolsonarista — enquanto fortalece sua posição com programas públicos e iniciativas voltadas a segmentos específicos do eleitorado.

Naturalmente, há muito tempo até a eleição. Novas crises virão, alianças serão redefinidas e o humor do eleitorado pode mudar; a política raramente segue linha reta. Mas a Genial/Quaest deixa no ar uma pergunta decisiva: Flávio Bolsonaro tem uma crise persistente ou já apresenta derretimento da sua pré-campanha?.