Foto: Nelson Jr./Ascom/TSE
Agora, em 2026, voltamos às urnas. Nós, brasileiros, temos feito eleições a cada dois anos. Eleições municipais (vereadores e prefeitos) e eleições gerais (deputados estaduais e federais, senadores, governadores e presidente da república). Sinal inequívoco do funcionamento de nossa democracia, mas não sem sobressaltos como sabemos. Em recente pesquisa BTG Pactual/Nexus (03/08/2026), quando os entrevistados […]
Agora, em 2026, voltamos às urnas. Nós, brasileiros, temos feito eleições a cada dois anos. Eleições municipais (vereadores e prefeitos) e eleições gerais (deputados estaduais e federais, senadores, governadores e presidente da república). Sinal inequívoco do funcionamento de nossa democracia, mas não sem sobressaltos como sabemos.
Em recente pesquisa BTG Pactual/Nexus (03/08/2026), quando os entrevistados foram questionados, de forma estimulada e com resposta única, sobre os principais problemas do Brasil, a segurança pública, a violência e a criminalidade apareceram em primeiro lugar, com 30% das respostas. Em seguida vieram a saúde pública (23%), a corrupção (19%), a classe política (17%) e a educação (15%). Os dados revelam preocupações históricas da sociedade brasileira. Contudo, um aspecto merece especial atenção, prezados leitores: a classe política figura entre os principais problemas apontados pela população. Trata-se de um dado curioso e, também, revelador. Afinal, diferentemente do Poder Judiciário, os integrantes dos Poderes Legislativo e Executivo chegam aos seus cargos por meio do voto popular, referendados pelas urnas.
Desde o Barão de Montesquieu, em sua obra “O espírito das Leis”, a teoria da separação dos poderes demonstra que o Executivo, Legislativo e Judiciário exercem funções distintas e atuam como mecanismos recíprocos de equilíbrio. No Legislativo, vereadores, deputados estaduais e federais e senadores da república; no Executivo, prefeitos, governadores e presidente da república são legitimados pelo voto e assumem a partir das regras oriundas do ordenamento jurídico nacional. Quando, portanto, a sociedade manifesta insatisfação com a classe política, é inevitável refletir também acerca da responsabilidade coletiva presente no processo eleitoral.
E essa reflexão nos conduz à temporalidade da democracia. A democracia não começa nas urnas. Ela possui, por assim dizer, três momentos distintos e complementares: o antes, o durante e o depois das eleições. O primeiro momento antecede a votação e é nele que reside uma das maiores responsabilidades do eleitor, que se concentra em conhecer a trajetória, experiência, propostas e os valores dos candidatos. Quem pede o voto necessita apresentar suas credenciais compatíveis com a responsabilidade no bojo do cargo que pretender assumir. O segundo momento, por sua vez, corresponde ao dia da eleição – a verdadeira festa cívica da democracia. Saímos de casa para votar e esse voto deve ser exercido com consciência, serenidade e respeito à diversidade de opiniões, valores e posições partidárias. O adversário, aqui, na política, não é inimigo. Em ambientes democráticos convivem projetos diferentes de sociedade. Por fim, há o momento ulterior à eleição. O voto não encerra a participação política, ao contrário, inaugura nova etapa. A democracia reclama acompanhamento permanente dos mandatos, fiscalização das ações dos representes eleitos e a cobrança dos compromissos assumidos.
Assim, a temporalidade da democracia ultrapassa o instante do voto. Ela começa antes da campanha e manifesta-se plenamente no dia da eleição e continua (ou deveria) durante todo o mandato dos políticos. Em nossa sociedade, uma República Federativa assentada no Estado Democrático e de Direito, a cidadania não pode ser reduzida a um único dia do calendário eleitoral. A democracia é uma prática contínua que depende do compromisso permanente dos cidadãos objetivando a vida coletiva.
Antes de depositar sua confiança em qualquer candidato, pergunte-se se sua trajetória, suas propostas e sua conduta justificam a responsabilidade que pretende assumir em nome da sociedade brasileira. Afinal, a qualidade política depende, em larga medida, da qualidade das escolhas feitas por cada eleitor.