Retomada econômica é desigual e insuficiente para gerar otimismo
Economista e pesquisadora da FGV IBRE
Coluna – Vilma Pinto

Retomada econômica é desigual e insuficiente para gerar otimismo

As expectativas de crescimento para 2021 não são suficientes para recuperar as perdas sofridas com a pandemia da Covid-19
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16 de dezembro de 2020

As medidas sanitárias recomendadas para conter a pandemia do novo coronavírus trouxeram consigo um custo econômico não desprezível em todo o mundo. No Brasil, o segundo trimestre de 2020 foi marcado por forte deterioração da atividade econômica e interrompeu a trajetória de recuperação que se verificou no período de 2017 a 2019.

Como forma de mitigar os efeitos adversos que a pandemia causou na economia, o governo federal implementou políticas para proteger indivíduos, empresas e os governos subnacionais.

As medidas adotadas pelo governo federal contribuíram para que houvesse a melhora de alguns indicadores econômicos. Contudo, como será mostrado mais adiante, a melhora observada no período mais recente, se deu de forma muito heterogênea e não recuperou a perda já sofrida em função da pandemia.

Na última segunda feira (14/12), o Banco Central divulgou o Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) para o mês de outubro. O resultado indicou que a atividade econômica cresceu 0,9% comparado com o mês de setembro. Embora o resultado tenha sido positivo, o mesmo registrou aceleração mais tênue do que observado nos meses anteriores.

O resultado um pouco mais fraco do que o observado em meses anteriores, pode ser explicado, em partes, pela redução das medidas de estímulo realizadas pelo governo federal, mais notadamente, o auxílio emergencial; e também pela dinâmica de recuperação dos setores dos comércios e dos serviços.

Fila de pessoas procurando emprego em São Paulo. Desemprego é um dos reflexos da baixa atividade econômicaação
Fila de pessoas procurando emprego em São Paulo.
(Foto: Roberto Parizotti/Fotos Públicas)

Ao comparar o desempenho dos serviços vis-à-vis o do comércio varejista, nota-se que até antes da pandemia, as evoluções de ambos os setores apresentavam trajetórias e níveis similares – com queda um pouco mais acentuada no comércio durante a recessão de 2014/16 –, contudo, diante da situação pandêmica, houve um distanciamento mais acentuado nesta recuperação. O comércio varejista se recuperou rapidamente, estando atualmente acima do nível observado antes da pandemia (fevereiro de 2020), já os serviços, apesar de ter apresentado uma melhora no curto prazo, ainda sofre com os efeitos da crise sanitária.

O desempenho do setor de serviços apresentou recuperação desigual em sua composição. Considerando os dados até o mês de outubro, o setor de serviços recuou 8,7% em 2020 comparado ao mesmo período de 2019 (janeiro a outubro). Dentre os seguimentos de serviços que mais foram afetados com a pandemia, estão os serviços de transporte aéreo, que caiu 39,8%, e os serviços prestados às famílias, que recuaram 37,7% no acumulado do ano.

O cenário é mais complicado quando olhamos de forma prospectiva. Segundo a edição de 11/12/2020 do boletim Focus do Banco Central a atividade econômica brasileira deve recuar 4,41% em 2020 ante 2019. Já para 2021, espera-se um crescimento de 3,5%.

Ao crescimento esperado para 2021, é importante frisar que o mesmo não recupera a perda sofrida em 2020, de modo que o nível da atividade econômica deve se situar em patamares inferiores ao observado em 2019. Em termos de variação, se considerarmos o PIB real esperado para 2021 vis-à-vis o PIB observado em 2019, a queda deve ser de 1,1%. Já se considerarmos o período em que a atividade econômica alcançou seu maior nível, em 2014, a queda esperada é de 3,47%.

O cenário prospectivo segue pessimista, sendo preciso avançar em ações e reformas para recuperar a economia nos próximos anos.

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