Almoço Do MyNews
Macroeconomista afirma que escolha do ministro precisa considerar o problema da dívida pública e o legado da inflação brasileira
A escolha do próximo ministro da Fazenda terá impacto direto na condução da política econômica do novo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Para a macroeconomista Mônica de Bolle, no entanto, o debate não deve se limitar ao nome que ocupará o ministério. É preciso, ainda, discutir as ideias que vão orientar a política fiscal e monetária do governo.
Em entrevista ao Almoço MyNews nesta quinta-feira (5), Mônica, professora da Johns Hopkins University, comentou a possibilidade de André Lara Resende participar da equipe econômica. Nesse contexto, a notícia de que ele teria uma conversa com o presidente Lula provocou reação no mercado financeiro.
De acordo com Mônica, o mercado costuma reagir com preocupação quando surgem propostas diferentes das que os agentes financeiros já conhecem. Ainda assim, ela considera importante observar o debate com mais distância.
Além disso, a economista avalia que as ideias defendidas por Lara Resende não surgiram agora. O diagnóstico que sustenta parte de suas propostas existe há décadas e envolve problemas estruturais da economia brasileira.
Entre esses problemas, Mônica destacou a herança da inflação. Segundo ela, o Brasil não conseguiu concluir totalmente o processo de desindexação iniciado com o Plano Real. Por isso, o país ainda convive com mecanismos que dificultam a condução da política econômica.
Nesse sentido, Mônica defende que o debate sobre a Fazenda também considere esse problema. “Não se pode tratar de outros assuntos, como quem vai ocupar o Ministério da Fazenda, sem lidar com essa herança inflacionária no Brasil”, afirmou.
Mônica também chamou atenção para o atual nível dos juros. Na avaliação dela, a taxa elevada aumenta a pressão sobre famílias e empresas que já enfrentam um cenário de endividamento.
Ao mesmo tempo, o problema aparece na estrutura da dívida pública brasileira. Uma parcela significativa dos títulos está vinculada à taxa Selic. Assim, quando os juros permanecem elevados, o custo financeiro para o governo também aumenta.
Além disso, a economista classificou essa característica da dívida como um problema estrutural para o país. Manter uma parcela relevante da dívida ligada à Selic, segundo ela, cria dificuldades para a política fiscal e limita as possibilidades de ajuste das contas públicas.
Diante desse cenário, Mônica defendeu uma escolha mais ampla para o comando da Fazenda. Para ela, o próximo ministro precisa ter capacidade de dialogar com diferentes correntes do pensamento econômico.
Por outro lado, a economista também defendeu que Lula considere nomes que estejam fora de uma “ala fechada do PT”. A medida, segundo ela, poderia ampliar o debate dentro do governo e permitir a busca por diferentes caminhos para enfrentar a dívida pública, os juros e os problemas estruturais da economia.
Nesse contexto, a eventual participação de André Lara Resende ganha relevância. O economista já defendeu mudanças na forma como o Brasil enfrenta questões fiscais e monetárias. Para Mônica, portanto, a reação negativa de parte do mercado não deveria encerrar a discussão.
Dessa forma, o desafio seria ampliar o debate econômico dentro do governo. A escolha para a Fazenda poderá definir não apenas a condução do ajuste fiscal, mas também a estratégia para lidar com juros elevados, endividamento e a herança inflacionária brasileira.