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Professor Tomaz Espósito Neto avalia efeitos do colapso bancário sobre brasileiros e alerta para possíveis tensões envolvendo Itaipu
A crise política e financeira que atinge o Paraguai pode gerar impactos diretos sobre brasileiros que vivem, trabalham ou investem no país. O alerta é do professor Tomaz Espósito Neto, especialista em Paraguai e docente do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), em entrevista ao Jornal MyNews desta sexta-feira (6).
A crise ganhou força após o colapso do Ueno Bank, que deixou milhões de correntistas sem acesso às contas. O episódio também provocou uma crise política que envolve o presidente Santiago Peña. O governo paraguaio enfrenta um processo de impeachment, enquanto Peña anunciou sua renúncia na quinta-feira (5). A saída, porém, ainda depende dos procedimentos políticos no país.
Segundo Espósito Neto, o primeiro impacto sobre o Brasil aparece no comércio e no varejo. Brasileiros que se mudaram para o Paraguai ou mantinham negócios no país estão entre os mais afetados pela crise bancária. Muitos utilizavam o Ueno Bank e agora aguardam a restituição dos recursos.
O especialista destaca que a crise não atinge apenas grandes empresas ou multinacionais. Pequenos e médios investidores também podem enfrentar perdas significativas.
Para Espósito Neto, ainda não existe clareza sobre a dimensão dos prejuízos. Grandes grupos e multinacionais podem ter mecanismos para absorver parte do impacto. Já pequenos empresários e investidores possuem menos alternativas para proteger seus recursos.
O problema também envolve brasileiros que fizeram uma mudança para o Paraguai. Parte desse grupo utilizava o sistema bancário local para receber pagamentos, movimentar suas economias e manter negócios. Com a crise do Ueno Bank, esses brasileiros passaram a enfrentar dificuldades para acessar o próprio dinheiro.
O governo paraguaio sinaliza que pretende garantir a devolução dos recursos aos correntistas. No entanto, permanece uma questão central: de onde virão os recursos para cobrir os valores perdidos?
O Paraguai também se tornou um destino importante para investimentos brasileiros. Empresas do setor têxtil e de outras áreas instalaram operações no país nos últimos anos.
Na avaliação do professor, a crise pode aumentar a insegurança desses investidores. Antes de ampliar ou manter investimentos no Paraguai, empresas precisarão avaliar o tamanho do impacto sobre o sistema financeiro e sobre a estabilidade política do país.
O cenário preocupa especialmente investidores de menor porte. Uma crise bancária prolongada pode afetar o fluxo de pagamentos, o consumo e a capacidade de empresas locais manterem suas operações.
Além dos efeitos financeiros, Espósito Neto chama atenção para um possível impacto diplomático. Brasil e Paraguai mantêm negociações importantes envolvendo a usina de Itaipu, uma das principais pautas da relação entre os dois países.
Nesse contexto, uma crise política interna pode aumentar a pressão sobre o governo paraguaio. Segundo o especialista, a classe política pode buscar inimigos externos para desviar a atenção dos problemas domésticos.
O Brasil poderia entrar nesse discurso. A tentativa de responsabilizar atores externos poderia ganhar força caso o governo paraguaio enfrente dificuldades para responder à crise bancária e às cobranças da população.
Para Espósito Neto, esse cenário criaria um ambiente mais desafiador para o Brasil. Uma crise interna no Paraguai já produz efeitos econômicos sobre brasileiros. Se a instabilidade também contaminar a relação diplomática, temas como Itaipu podem ganhar ainda mais peso no debate político.
A crise paraguaia, portanto, ultrapassa as fronteiras do país. Além de colocar em risco recursos de correntistas e investidores, o episódio pode afetar brasileiros que vivem no Paraguai e pressionar uma relação estratégica para o Brasil na América do Sul.