O governo do Pará apresentou o Parque da Cidade em 2023 como a maior intervenção urbanística contemporânea de Belém. O então governador Helder Barbalho afirmou que o espaço transformaria a capital paraense. A obra também fazia parte dos preparativos para a COP30 e prometia ampliar as áreas de lazer em uma cidade que possui poucas áreas verdes.
O projeto venceu um concurso nacional após consulta pública e votação popular. A proposta incluía teatro multiuso, cinema, biblioteca, estúdios de gravação, torre de observação, mercado de produtos regionais, bosques, lagos artificiais e mais de 80 espécies de árvores.
Promessas ficaram no papel
O governo inaugurou o parque em 2025. Desde então, os visitantes têm acesso a quadras esportivas, pista de skate, lago artificial, centro gastronômico e um espaço voltado à economia criativa. Entretanto, o teatro, o cinema, a torre de observação, o museu da aviação, os estúdios de gravação e outros equipamentos previstos nunca foram entregues.
Além disso, as árvores ainda são pequenas e oferecem pouca sombra. O projeto original tratava esse aspecto como prioridade para garantir conforto aos frequentadores em uma cidade de clima quente como Belém.
Valor divulgado chegou a R$ 980 milhões
Os arquitetos responsáveis pelo projeto estimaram, em 2020, um custo de aproximadamente R$ 65,8 milhões para a obra. Porém, registros posteriores indicam que o investimento divulgado alcançou R$ 980 milhões. O valor representa cerca de 15 vezes a estimativa inicial.
A diferença chamou atenção porque o parque entregue não corresponde ao projeto original. Durante a apuração, o autor da investigação informou que não encontrou documentos públicos com o custo total da obra nos portais oficiais. Além disso, nem a Vale nem o governo do Pará informaram o valor solicitado em pedidos de esclarecimento.
Modelo de execução gera questionamentos
A investigação aponta que o Parque da Cidade integra o programa Estrutura Pará. O governo criou a iniciativa após o STF reconhecer a cobrança da Taxa de Fiscalização de Recursos Minerários (TFRM). Pelo programa, empresas como a Vale passaram a executar obras públicas em troca da compensação de parte de suas dívidas relacionadas à taxa. Segundo a investigação, esse modelo dificulta o acesso aos custos detalhados da obra, já que uma empresa privada conduziu sua execução.
O caso ganhou novos desdobramentos após a morte de um adolescente de 16 anos, que sofreu uma descarga elétrica no parque em julho. As autoridades ainda investigam as circunstâncias do acidente. Enquanto isso, familiares e moradores cobram esclarecimentos sobre a segurança e a manutenção do espaço.