Foto: Reprodução/Capa do livro Brizola Vol.1: Lobisomem contra o império
Obra resgata a infância humilde, a marcante oratória no rádio e a intensa trajetória política do líder trabalhista
Em entrevista ao Café do MyNews, a jornalista e escritora Karla Monteiro detalhou a pesquisa por trás do lançamento de seu novo livro, O Lobisomem contra o Império, primeiro volume da biografia sobre Leonel Brizola (1922–2004). A obra resgata a infância humilde no Rio Grande do Sul, além da ascensão do líder trabalhista e os episódios que marcaram sua trajetória política até a Anistia, em 1979.
A autora explicou a origem do título do livro: a ideia está diretamente associada à comunicação de Brizola quando ele governava o Rio Grande do Sul. Naquela época, o político usava os microfones da Rádio Farroupilha durante a madrugada para falar com a população.
As transmissões começavam por volta das nove da noite e estendiam-se por até doze horas seguidas. Por causa disso, a oposição e a imprensa oposição, que já estavam incomodadas com os constantes ataques do governador às elites, lhe deram o apelido. Assim, surgiram acusações irônicas de que ele virava “lobisomem” à meia-noite com o intuito de assustar os ouvintes.
A biografia dedica atenção especial aos anos de formação do biografado. Ainda na infância, Brizola perdeu o pai, que foi fuzilado no interior gaúcho. Por isso, o jovem trabalhou como engraxate e florista. Mais tarde, mudou-se para Porto Alegre, onde formou-se em Engenharia Civil.
A entrada oficial na vida pública ocorreu em 1945, por meio do queremismo, movimento que pedia a permanência de Getúlio Vargas no poder. Foi no Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) que sua trajetória cruzou de forma definitiva com a de João Goulart. Embora tenham se tornado cunhados e construído juntos a base do trabalhismo gaúcho, Brizola e Jango mantinham perfis políticos distintos. Por um lado, Jango priorizava a conciliação. Por outro lado, Brizola adotava uma postura radical e anti-imperialista.
Essas divergências se acentuaram na Campanha da Legalidade, em 1961. Além disso, culminaram em visões antagônicas sobre o contexto que antecedeu o Golpe de 1964.
Para documentar o período de exílio e as tentativas de organização da resistência no Uruguai, Karla Monteiro realizou pesquisas de campo no país vizinho. Como resultado, a biógrafa relatou que a figura de Brizola permanece viva na memória local, onde costuma ser lembrado com carinho pelo tom marcante da voz e pelo temperamento combativo.
Por fim, a escritora expôs os desafios de produzir biografias no mercado editorial brasileiro, uma vez que a escassez de incentivos força os autores ao autofinanciamento e à conciliação com trabalhos paralelos para custear pesquisas. Em suma, essa realidade evidencia como o país ainda investe pouco na preservação de sua história, embora a obra chegue às livrarias como a primeira etapa de um grande projeto sobre Brizola.