colunista Creomar de Souza
Consultor de risco político e CEO da Dharma Politics
CPI da Pandemia

Uma Comunhão de Pensamentos Inquietos

A instauração da CPI da Pandemia expõe os medos da perspectiva federal, que desde o início da crise sanitária tenta erradicar a diversidade de pensamentos e excluir o contraditório
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp

O Senado Federal instalou a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia. Os Senadores iniciam seus trabalhos reverberando uma série de inquietudes e incompreensões que afligem a sociedade. Como um microcosmo de um país dividido e sem forças para construir consenso sobre nenhum tema, a CPI possivelmente se desdobrará a partir do choque de duas perspectivas. De um lado, um verdadeiro jogo de empurra em que o Congresso, Governadores, Prefeitos e a Presidência tentarão preservar a si mesmos e jogar responsabilidades sobre os outros. E, de outro, um olhar de uma sociedade a cada dia mais descrente nas capacidades das instituições políticas de darem respostas eficazes aos problemas cotidianos.

Randolfe Rodrigues, vice-presidente, Omar Aziz, presidente, e Renan Calheiros, relator da CPI da Pandemia.
Randolfe Rodrigues, vice-presidente, Omar Aziz, presidente, e Renan Calheiros, relator da CPI da Pandemia. Foto: Edilson Rodrigues (Agência Senado).

Tudo parece muito mais confuso, e até mesmo caótico, quando se trata de estratégias de diálogo legislativo no governo Bolsonaro. Da incapacidade de retirada de assinaturas, passando por uma ação desastrada de uma aliada política que apelou para a justiça comum, construiu-se um cenário perfeito para que o pior dos temores do Executivo se realizasse. A eleição de Omar Aziz e Randolfe Rodrigues, acompanhada da indicação de Renan Calheiros para o cargo de relator, traça um panorama que, na melhor das hipóteses, tirará algumas horas de sono dos apoiadores do Governo Federal.

Mas afinal de contas, por que tanto medo? Desde o surgimento da pandemia, o governo Bolsonaro politizou a temática. O presidente e seu grupo de tomada de decisão (ideólogos, militares e servidores de carreira) optaram por tratar a covid-19 como algo menor. O apego a conceitos pouco consistentes ou soluções pouco efetivas, atenderam à lógica de manutenção de uma base eleitoral de apoio ao Presidente. Contudo, ao forçar as estruturas internas do governo rumo à homogeneidade decisória, o Planalto renunciou a um dos principais pressupostos de tomada de decisão em tempos de crise: a diversidade de pensamentos, erradicando o contraditório na tomada de decisão.

No giro desta roda d’agua que alimenta o moinho da insensatez e ignorância, porém, uma variável parece ter sido esquecida, a política real. A excessiva preocupação em politizar impede o governo de fazer política naquilo que ela possui de mais importante, o diálogo com o diferente. Ao contrário, prevalece o embate frenético contra tudo e todos.

Esta lógica fez com que movimentos técnicos, como a assinatura de um contrato para aquisição de vacinas ou outros insumos médicos, fossem transformados em cruzadas quixotescas contra inimigos imaginários. Tal dinâmica, de tentar monopolizar o debate público e criar digressões e diversionismos, tem sido muito eficaz na retirada de concorrentes do debate político. Parte da imprensa prefere reverberar o absurdo a alimentar um debate mais informado, estimulando o contraditório. A manobra diversionista tem essa eficácia: a atenção acaba direcionada ao pitoresco, à picuinha, ao absurdo, enquanto a substância fica relegada a segundo plano.

O resultado desta lógica é que, diante de adversários minimamente bem articulados, o governo claudica. O risco que se corre é que este descompasso tire não só a capacidade de ação de um Executivo bastante fragilizado em termos de governança pública, mas, sobretudo, aumente o fosso que separa representantes e representados. A comunhão de pensamentos inquietos que acorre à CPI deverá buscar um ponto de equilíbrio, que permita encontrar responsáveis pela atual tragédia, ao mesmo tempo que encontre soluções para as feridas que não param de se abrir nos corações das famílias enlutadas pelos quase 400 mil brasileiros vitimados pela covid-19.

Inscreva-se na newsletter
Relacionadas
O diálogo é um instrumento fundamental de resolução de disputas e que estas, por mais agressivas que sejam, não devem assumir nunca uma lógica de erradicação do outro
Diplomacia
Nos últimos dois anos e meio, o poder argumentativo do Brasil, condutor da política externa, foi abandonado e substituído por leituras ideológicas da realidade internacional
Análise
Dentro de uma lógica governativa, o trabalho de planejamento e análise de tendências deve ser compreendido como parte fundamental para o progresso democrático de uma nação
“Conhece-te a ti mesmo”
Em detrimento da postura socrática de responsabilidade, atual gestão brasileira de crise prefere terceirizar a culpa e fugir das consequências
Como bem cita Lampedusa em sua magistral obra ‘Il Gattopardo’, algumas vezes as coisas precisam mudar para permanecerem iguais
No tabuleiro de xadrez da política, por vezes, enxergar o óbvio é mais difícil do que parece

Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade e Política de Cookies. Ao continuar navegando, você concorda com estas condições.