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Primeira convenção nacional da Missão consolidou a candidatura de um novo player para o tabuleiro político nacional, mas capacidade de penetração no perfil fisiológico brasileiro gera dúvidas sobre desempenho eleitoral
Renan Santos nega ter dificuldade para penetrar em um eleitorado além do público jovem. Questionado pela coluna sobre o tema durante coletiva de imprensa na primeira convenção nacional da Missão, em São Paulo, no último sábado, o pré-candidato à Presidência atribuiu o problema à falta de acesso aos grandes meios de comunicação — não à mensagem em si.
“Eu não tenho essa dificuldade. Eu só não tenho essa disposição dos meios [de comunicação]. Agora que me torno candidato, eu tenho à disposição a televisão e participar de debates, e as pessoas mais velhas que acompanham outras mídias, se não as redes sociais, terão contato conosco“, disse.
Na sequência, recorreu a uma metáfora para descrever o eleitorado mais velho: “As ideias que nós defendemos as pessoas mais velhas concordam. Elas apenas não sabiam que estavam presas às mesmas ilusões oferecidas a elas pelos outros grupos políticos. O bolsonarismo prendeu elas em uma ilusão. A verdade é como água mineral, água limpa. Basta eles verem a água limpa que eles irão querer beber dessa água.”
O evento reuniu cerca de 3 mil pessoas, segundo fontes ligadas ao movimento, com ingressos entre R$ 94 e R$ 7 mil, além da venda local do Livro Amarelo — publicação que reúne as propostas do partido. A militância presente tinha rostos diversos. Brancos e negros; homens e mulheres; jovens e senhores, o que desfez a percepção de que o Movimento Brasil Livre se resume a ativistas homens: mulheres estiveram presentes em número expressivo, incluindo candidatas a deputada federal e estadual.
A coluna questionou alguns militantes se manteriam apoio ao movimento mesmo sem Renan Santos como candidato, e os presentes responderam de forma unânime que sim. Justificaram a resposta pela confiança nas decisões e escolhas do partido, independentemente do nome escolhido para concorrer à Presidência. Vale observar que não houve culto à personalidade de Renan Santos durante a convenção, mas um forte fervor ideológico da militância acerca dos discursos do candidato. Notem, não trato aqui ideologia como castas liberais ou socialistas, mas em termos de idealizações programáticas. E, justamente, penetrar além da militância ideológica consolidada segue como desafio em aberto para a Missão a menos de três meses das eleições gerais.
A postura de Renan Santos acompanha uma característica de autoidentificação ideológica do eleitorado brasileiro, registrada por pesquisas nacionais desde o fim das eleições de 2022. Naquele momento, o Datafolha mediu 25% de identificação bolsonarista na população, considerando as notas 1 e 2 em uma escala de afinidade de 1 a 5. O contingente cresceu ao longo do tempo e atingiu o pico em julho de 2025, com 37% de alinhamento, encerrando aquele ano em 34%. Neste ano, a identificação bolsonarista oscila novamente entre 25% e 34%, conforme as principais pesquisas de identidade política para o cenário eleitoral de 2026.
Levantamento do Instituto DataSenado em 2024 amplia esse retrato: 40% dos entrevistados afirmaram não se considerar nem de esquerda, nem de direita, nem de centro; outros 11% se declararam de centro. Somados, os dois grupos representam a maioria do eleitorado brasileiro — 51%. Direita e esquerda somam, respectivamente, 29% e 15% das respostas.
O dado reforça um Brasil pouco programático, mais carregado ao fisiologismo político, o voto personalista e clientelista, e menos ideológico em termos de autoposicionamento declarado. É por isso que integrantes do MBL evitam rotular o Missão como partido de direita, e repelem narrativas que os colocam como “extrema-direita”, pois a ideologia não reflete um quadro comportamental e de demanda real do brasileiro. Ainda que se apresentem como alternativa de direita a Flávio Bolsonaro, o movimento distancia o discurso dos clichês tradicionais do liberalismo econômico e do conservadorismo, priorizando pautas de eficiência do Estado — um terreno que dispensa tanto o perfil de “grande senhor do capitalismo” quanto o de revolucionário de esquerda. Qualquer Estado pode ser eficiênte à depender das políticas públicas aplicadas.
Renan Santos tem capacidade, de fato, alcançar um eleitorado diversificado, e suas pautas chegarão às populações mais carentes do interior do país? São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro concentram juntos 52,45% dos votos no Brasil, mas a pulverização eleitoral no interior representa justamente o território que o pré-candidato do Missão busca conquistar.
São Paulo, nesse contexto, tem se mostrado território de disputa programática. Guilherme Boulos (PSOL) foi eleito em 2022 com mais de 1 milhão de votos, o deputado mais votado do estado. Minas Gerais, por sua vez, elegeu Nikolas Ferreira, do PL, com 1,5 milhão de votos, também o mais votado do estado levado pelo bolsonarismo da época. Ambos souberam usar as redes sociais para ampliar alcance além da bolha militante tradicional.
Boulos inicialmente pretendia concorrer ao governo paulista em 2022, mas retirou a candidatura em nome da unificação da esquerda, para apoiar Fernando Haddad (PT). O gesto foi recebido com simpatia pelo eleitorado progressista e pelo próprio PT, o que o transformou em candidato natural de voto útil, capaz de puxar votos para fortalecer a bancada do PSOL e de partidos aliados na Câmara. Durante o período de maior polarização nacional, consolidou-se como uma das vozes mais ativas de oposição ao governo Jair Bolsonaro, com forte apelo entre eleitorado jovem e urbano concentrado nas metrópoles paulistas.
Renan Santos já reproduz esse apelo entre o público jovem. Falta a ele, porém, penetração nas famílias do interior — lacuna que o Missão tenta preencher com uma turnê nacional voltada a levar os projetos do partido para além do estado de São Paulo. Se esse deslocamento for revertido em resultado nas urnas, talvez não o eleja neste ano, mas, caso o movimento mantenha a coesão militante atual, o cenário político nacional os coloca como uma peça relevante no tabuleiro eleitoral para 2030.