Jornalista Tom Cardoso. Foto: TV Cultura
Em entrevista, o jornalista e biógrafo relembra histórias impagáveis da profissão, como o envio de seu irmão gêmeo para entrevistar Daniela Mercury, tropeços financeiros e a arte de biografar sem pedir licença
Durante um bate-papo descontraído com Mara Luquet, Tom Cardoso relembrou um episódio inusitado do jornalismo cultural. O jornalista enviou seu próprio irmão gêmeo para entrevistar Daniela Mercury. Essa decisão inusitada nasceu após uma péssima experiência anterior. Em Salvador, Tom havia entrevistado a cantora pelo site ClickMusic ao lado de um repórter da Folha de S.Paulo. Por causa disso, Daniela respondeu apenas ao jornalista do grande jornal impresso e ignorou o profissional do veículo digital.
Anos depois, surgiu um novo encontro no quadro “À Mesa com o Valor”, do jornal Valor Econômico. A pauta era um almoço com a cantora em pleno domingo. No entanto, o compromisso coincidia com a famosa moqueca de sua mãe. Por essa razão, Tom convenceu seu irmão gêmeo bivitelino, Denis Cardoso, a ir em seu lugar. Denis também é jornalista e aceitou a missão. Com as perguntas em mãos, o irmão gravou a conversa inteira e garantiu a matéria sem alarde.
O plano funcionou perfeitamente, de modo que Tom pôde redigir o texto final usando o áudio gravado. Contudo, o detalhe mais cômico foi a publicação da foto oficial na capa do jornal. Na imagem, Denis aparecia ao lado da cantora como se fosse o verdadeiro biógrafo. Embora fossem gêmeos bivitelinos, a sutil semelhança passou despercebida durante todo o almoço. Consequentemente, a estratégia deu certo e garantiu a refeição em família.
Além do caso com a cantora baiana, a conversa reuniu outros bastidores do livro Vida de Gado. Em certo momento, Denis entrevistou o temperamental Tim Maia pelo Jornal da Tarde. Em seguida, avisou que passaria a ligação para o irmão gêmeo entrevistá-lo pelo Estadão. Por causa do mesmo ramal e das vozes idênticas, o cantor achou que era trote e ficou furioso na linha. Além disso, Tom relembrou o prejuízo financeiro que sofreu após entrevistar Eike Batista. O empresário usou um discurso muito sedutor. Por isso, o jornalista vendeu seu apartamento e investiu quase tudo na OGX, perdendo uma fortuna com a falência da empresa.
A entrevista também abordou o trabalho de Tom como biógrafo de nomes como Sócrates, Gilberto Gil e Mano Brown. O autor defendeu a necessidade de manter o distanciamento crítico nas obras. Além disso, ele prefere apurar a história “pelas beiradas” com pessoas do entorno em vez de usar respostas protocolares do próprio biografado. Afinal, uma boa biografia não deve endeusar ninguém, mas sim expor as ambivalências do ser humano.
Por fim, o escritor refletiu sobre o avanço da inteligência artificial nas redações. A tecnologia consegue gerar textos médios com rapidez. No entanto, a essência do jornalismo continua intocada. Afinal, nenhum algoritmo é capaz de capturar o imprevisto das ruas, a intuição diante de uma fonte ou as contradições da vida real. Portanto, são esses elementos humanos que transformam simples bastidores em narrativas inesquecíveis.