Disputada pela Câmara na região reúne PSD, PL, PSB, PSOL e PT em meio a quase 600 mil votos brancos e nulos, o maior bloco eleitoral do litoral paulista.
A Baixada Santista concentra a principal artéria de comércio exterior do hemisfério sul. É pelo Porto de Santos que o agronegócio e a indústria do Centro-Sul brasileiro se conectam aos mercados globais — condição que transforma o controle político da região em uma disputa estratégica de segurança nacional e soberania econômica. Mais do que um aglomerado urbano litorâneo, a Baixada funciona como um corredor geopolítico onde se cruzam concessões privadas de infraestrutura, regulação federal e articulação metropolitana de mobilidade. Cada eleição local também é uma disputa pela gestão portuária, pelas rotas de exportação e pelos investimentos federais em infraestrutura rodoferroviária.
É nesse contexto que o comportamento eleitoral da Baixada Santista e de parte do Litoral Norte segue uma dupla identidade pragmática. Nas disputas proporcionais, como para deputado federal e estadual, o eleitor tende ao voto fisiológico e localista, em personagens políticos conhecidos pelo nome, mas nem sempre pelo rosto. Nas escolhas majoritárias federais, migra para um alinhamento ideológico e polarizado, majoritariamente à direita.
A disputa pelo Senado em 2022 ilustra este segundo padrão: em quase todas as cidades da região, a soma dos votos de Marcos Pontes e Márcio França concentrou a esmagadora maioria dos votos válidos — reflexo da polarização nacional reproduzida na escala estadual naquele ano.
Diante desse quadro que parece complexo, segundo um levantamento realizado pela coluna junto aos dados abertos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a região carrega um contingente com cerca de 600 mil votos brancos e nulos, sinal de desengajamento que desafia tanto o centro-direita quanto a esquerda tradicional a traduzir o debate nacional em soluções concretas para o desenvolvimento portuário, turístico e logístico local. Ainda assim, os eleitores brancos e nulos ainda são potenciais conversores de votos, por integrarem o eleitor mediano, isto é, aquele que não está em nenhuma zona dos extremos de preferências ideológicas ou políticas.
Dois nomes despontam por uma das mais complexas corridas eleitorais do ponto de vista analítico em São Paulo. A pesquisa do Instituto Badra aponta o deputado federal Paulo Alexandre Barbosa (PSD-SP) na liderança das intenções de voto para a Câmara dos Deputados na Baixada Santista, com 24,5% na estimulada. Na sequência aparecem Rosana Valle (PL-SP), com 18,5%; Delegado Da Cunha (União), com 12,8%; Doutor Caseiro (PT), com 5,4%; Gilmar André (Republicanos), com 4,4%; Jefferson Cezarolli (Podemos), com 2,8%; Marcelo Strama (PSB), com 1,6%; e Pai Roblez Jorge (PDT), com 0,6%. O levantamento ouviu 10.022 eleitores das nove cidades da Baixada Santista entre 27 de maio e 2 de junho, com margem de erro de três pontos percentuais.
O cenário eleitoral prático em Santos evidencia uma corrida bilateral e altamente disputada pelo eleitor mediano entre os dois favoritos na pesquisa: Paulo Alexandre Barbosa, que obteve 60.309 votos para deputado federal em 2022, e Rosana Valle, eleita com 56.704 votos. A disputa entre ambos, Valle e Barbosa, se sustenta menos em plataforma ideológica, e mais em presença política, personalismo, e fatores externos, que podem diminuir ou aumentar a percepção pública e as razões para o investimento do voto.
Embora ambos possuam bases consolidadas no município, suas estratégias de mobilização diferem. Barbosa concentra apoio em um eleitorado fisiológico e clientelista, sustentado por sua trajetória como ex-prefeito da cidade, enquanto Rosana Valle mantém maior inserção entre segmentos do eleitorado conservador personalista, forte fator de preferência política em uma região com potencial ideológico alto, ainda que menos engajado programaticamente.
O desempenho de Paulo Alexandre pode ser interpretado como resultado da combinação entre voto fisiológico e voto complexo, acrescida de um componente importante da literatura sobre comportamento eleitoral: a valência. Isto é, a escolha do eleitor geral não decorre apenas de alinhamentos preferenciais ou da expectativa de benefícios materiais, mas também da avaliação subjetiva sobre atributos como competência, credibilidade, experiência administrativa e capacidade de gestão. A percepção construída ao longo de sua atuação como prefeito — por exemplo, o quanto ele aborda pautas relacionadas ao Porto de Santos ou à infraestrutura regional — tende a influenciar positivamente parte do eleitorado, ampliando seu potencial competitivo independentemente do posicionamento ideológico. Afinal, é um fator comum que gera ganho para todos os espectros, e justamente nessa linha que se dispõe o eleitor mediano.
Essa dinâmica também se manifesta na distribuição de recursos públicos. Segundo o portal de monitoramento de emendas parlamentares “De Olho em Você”, com base em dados do Portal da Transparência, Paulo Alexandre Barbosa e Rosana Valle concentraram, juntos, 80,2% do total de emendas destinadas ao município de Santos entre 2025 e 2026. Aqui as emendas parlamentares assumem papel que extrapola sua função orçamentária. Além de financiar políticas públicas e investimentos locais, elas funcionam como instrumento de manutenção de bases eleitorais e de fortalecimento da presença política nos municípios. Direcionar recursos para regiões onde já possui apoio, o parlamentar pode reforçar sua visibilidade institucional, ampliar sua capacidade de prestação de contas ao eleitor e reduzir os custos de mobilização em disputas futuras.
Do lado de Rosana Valle, a ampliação desse volume de investimentos pode representar uma estratégia de expansão eleitoral, enquanto Paulo Alexandre deve procurar seguir uma estratégia de manutenção do próprio nome.
Rosana, ao combinar a fidelização de seu eleitorado ideológico com a entrega de recursos e obras ao município, aumenta sua capacidade de dialogar com eleitores menos identificados por posições programáticas, e mais sensíveis ao desempenho político-prático percebido do representante. Caso essa estratégia produza efeitos eleitorais consistentes, poderá fortalecer sua posição em futuras disputas majoritárias, inclusive em uma eventual candidatura à Prefeitura de Santos.
Em relação à prefeitura, a eleição municipal de 2024 em Santos também opôs os dois campos, e permitiu trazer um balão de ensaio dessa influência. No primeiro turno, Rogério Santos (Republicanos), aliado de Barbosa, obteve 43,29% dos votos válidos contra 42,65% de Valle. No segundo turno, Rogério foi reeleito com 53,37%. Ele foi assessor, chefe de gabinete e secretário de governo de Barbosa, seu antecessor e principal aliado político, que apoiou sua eleição em 2020 e sua reeleição em 2024. Uma disputa apertada que pode ser um prognóstico das futuras eleições caso Santos se torne esse campo de disputa por influência novamente.
Valle conta com o fator partidário do PL, legenda do pré-candidato Flávio Bolsonaro e favorita ao apoio do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Barbosa carrega a pauta econômica regional e o discurso em favor do Porto de Santos, o que o torna favorito entre parte do empresariado local — ainda que enfrente a competitividade eleitoral de Valle.
Mesmo assim, em março deste ano, Barbosa reforçou o alinhamento com o governador em evento de filiação ao PSD: “Estamos sempre do mesmo lado do governador Tarcísio de Freitas, no mesmo partido, que para nós vai além de uma sigla: é a boa política, aquela que muda a vida das pessoas.”
Nos bastidores, Barbosa é descrito como um carreirista político de família, com influência e pautas consolidadas em torno do Porto e alinhamento próximo ao empresariado local. O bom relacionamento com a prefeitura de Barbosa abre, ao mesmo tempo, a possibilidade de atrair votos por toda a Baixada.
Valle, por sua vez, tem investido em articulação com o público feminino, o que diversifica sua base eleitoral e pode representar vantagem marginal sobre Barbosa a partir da ala “PL Mulher”. O PL, além disso, tem pulverizado nomes na corrida à Câmara dos Deputados na região — estratégia que parece buscar repetir o resultado de 2022, quando a legenda formou a maior bancada do Congresso, e ampliar a presença na Alesp.
Ela se elegeu em 2022 em um cenário de forte polarização nacional. Fica em aberto se o apoio a Flávio e Michelle Bolsonaro repetirá o desempenho daquele ano, diante da queda na tendência polarizadora observada mais recentemente no país. Ela tem presença na maior parte das cidades da Baixada — com exceção de São Sebastião, onde não teria penetração eleitoral, e Bertioga, onde a presença seria mais limitada.
Para os demais pré-candidatos, o tabuleiro parece estar mais fechado na ala santista, dificultando a penetração de outros nomes.
O deputado Delegado Da Cunha (União), eleito em 2022 com 181.568 votos, construiu sua carreira na baixada, mas conquistou o pleito majoritariamente pela presença nas redes sociais e pela base na capital paulista. Da Cunha somou apenas 2.400 votos em Santos — contra 76,9 mil em São Paulo.
O vereador santista Benedito Furtado (PSB), eleito em 2024 com 2.808 votos, também anunciou a pré-candidatura à Câmara em abril deste ano. Raul Christiano, jornalista, escritor e um dos fundadores do PSDB, foi confirmado como candidato pela federação PSDB-Cidadania com foco na Baixada Santista, mas mantém presença discreta nas redes sociais. Essa plataforma pode ser o seu trampolim de influência, se bem executada como Da Cunha fez em 2022.
Em Praia Grande, o cenário é um tanto quanto particular. Alberto Mourão comandou sucessivas gestões na cidade e renunciou ao mandato na Câmara dos Deputados em 2025 para assumir a prefeitura. Sem ele na disputa pela Câmara, Praia Grande tenderia a abrir espaço para um eleitorado mais neutro — uma zona ainda não capturada por Rosana Valle ou Paulo Alexandre Barbosa. No entanto, o capital político de Mourão pode pertencer a outros nomes.
Lucas Mourão, neto de Alberto, deixou recentemente o cargo de secretário municipal e confirmou a candidatura a deputado estadual pelo PSD. O avô de Lucas tem histórico de transferência de votos: em 2022, seu genro, Cássio de Castro Navarro, foi candidato a deputado estadual e somou mais de 34 mil votos só em Praia Grande. Neste ano, Navarro confirmou a candidatura a deputado federal também pelo PSD — mesmo partido de Barbosa, o que os coloca em disputa direta pela mesma vaga. Com o capital político da família Mourão consolidado localmente, Valle e Barbosa perdem uma cidade na disputa apertada pelo litoral paulista. Por outro lado, a família Mourão também terá dificuldade de difundir a prospecção por votos em todo o litoral, principalmente pela concorrência com o colega de legenda.
Na disputa por uma cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), os pré-candidatos apresentam uma dinâmica eleitoral distinta daquela observada na corrida para a Câmara dos Deputados. Embora alianças políticas e apoios mútuos possam gerar ganhos marginais de visibilidade e mobilização, a transferência de capital político entre candidatos tende a ser mais limitada. Em muitos casos, o apoio de uma liderança fortalece a estrutura de campanha do aliado, mas não necessariamente se converte em migração significativa de votos, já que a escolha para deputado estadual costuma estar mais vinculada às redes locais de influência, à atuação regional e ao grau de identificação do eleitor com o candidato. Exploraremos essas particularidades na próxima análise, focada estritamente na Alesp.