Levantamento aponta queda de crime no interior de SP, mas revela padrões distintos com a capital Levantamento aponta queda de crime em sete cidades da região de SP, mas revela padrões distintos entre capital e interior (Foto: Reprodução / Unsplash) SEGURANÇA PÚBLICA

Levantamento aponta queda de crime no interior de SP, mas revela padrões distintos com a capital

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Estudo do Crime Brasil, com base em dados da SSP-SP e do DATASUS, mostra 512.602 registros policiais em 12 meses; municípios da região bragantina concentram mais agressão interpessoal e maior parcela de ocorrências sem endereço divulgado

Cidades do interior e baixada de São Paulo, como Campinas, Santos, Praia Grande, Bragança Paulista, Atibaia e Bom Jesus dos Perdões — somaram 512.602 registros policiais nos doze meses encerrados em abril de 2026. O levantamento, elaborado pelo Crime Brasil com base em boletins da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) e em dados do DATASUS, aponta queda em todas as sete cidades na comparação com o período anterior, com variação entre 3,1% e 11,0% em algumas cidades.

O volume de ocorrências, no entanto, é a parte menos reveladora do levantamento, enquanto a diferença entre os municípios está no tipo de crime que predomina, no horário em que ele ocorre e na parcela que fica fora do alcance de qualquer mapa territorial.

Nas cidades grandes e no litoral, o crime patrimonial domina a estatística.

  • Em São Paulo, furto e roubo somam 73,8% dos registros, enquanto a lesão corporal dolosa responde por apenas 9,0%.
  • Em Bragança Paulista e Atibaia, esse desenho se inverte parcialmente, pois a lesão corporal dolosa concentra 23,2% e 23,1% dos registros, respectivamente — mais que o dobro da proporção observada na capital.

Segundo o levantamento, a diferença não decorre de um aumento de agressões nessas cidades, já que a taxa por habitante segue menor do que a de São Paulo, mas no referencial. Isto é, de uma queda mais acentuada comparada ao de crime patrimonial. A tendência observada é que, quando furto e roubo perdem peso na estatística, o que resta é conflito entre pessoas — briga, vizinhança, ambiente doméstico.

“O morador dessas cidades corre hoje menos risco de ser abordado com violência do que corria há sete anos, e mais risco de ter algo levado sem perceber. É uma mudança no tipo de crime, não só no volume — e política de segurança desenhada para o roubo dos anos 2010 não é a mesma que responde ao furto de 2025”, escreveu Alexandra Diniz, do Crime Brasil

Enquanto Bragança Paulista (-8,9%) e Atibaia (-14,1%) registraram furto abaixo da média apurada entre 2018 e 2024, Praia Grande seguiu direção oposta. O indicador de furto na cidade ficou 28,9% acima dessa média em 2025, o maior descolamento entre as sete cidades do levantamento.

Homicídio baixo, mas não da mesma forma em toda parte

A taxa de homicídio de 2024, calculada pelo DATASUS, posiciona Bragança Paulista em 8º lugar e Atibaia em 11º entre as 336 cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes, com 3,2 e 3,6 óbitos por agressão a cada 100 mil habitantes. O mesmo levantamento mostra São Paulo com taxa ainda menor — 2,2 por 100 mil —, o que garante à capital a 4ª posição nacional, à frente das duas cidades do entorno bragantino. Campinas fecha o grupo na 113ª posição, com 11,1 por 100 mil. Santos e Praia Grande aparecem próximas uma da outra, em 38º e 39º lugar.

Vale ressaltar que a SSP-SP publica o endereço de cada boletim de ocorrência, com uma exceção: quando o fato acontece dentro de uma residência, o campo é substituído por uma marca de vedação, por proteção de privacidade. Esse detalhe operacional funciona também como indicador.

Em São Paulo, 8,0% dos registros têm o endereço protegido por esse motivo. Em Bragança Paulista, Atibaia e Bom Jesus dos Perdões, a proporção ultrapassa 29%, chegando a 31,3% em Bom Jesus dos Perdões. Um terço de tudo o que a polícia registra nesses três municípios aconteceu dentro de uma casa — parcela que qualquer leitura territorial do crime, por rua ou por bairro, deixa de fora.

Efeito pandemia

Na comparação com 2020,  ano da pandemia da Covid-19 que registrou 371.798 ocorrências, os dados de 2025 apontam uma alta de 19,2%. 2020 foi marcado pelas restrições de circulação impostas durante a pandemia, pelo fechamento de estabelecimentos comerciais e pela redução da atividade nas ruas, fatores que também alteraram as oportunidades para a ocorrência de crimes patrimoniais.

Após a abertura total pós pandemia em 2023, a série atingiu o pico, com 494.598 ocorrências. Em relação àquele ano, 2025 registra uma redução de 10,4%, com queda observada em seis das sete cidades analisadas.

“Quem compara com 2020 vê alta de 19% e conclui que o crime patrimonial está explodindo. Mas 2020 é o fundo do poço da pandemia. A referência honesta é 2023, que foi o pico da série: contra ele, 2025 está 10% abaixo”, afirmou Alexandra Diniz.

O crime tem hora marcada, e não é de madrugada

O cruzamento de data e hora de cada boletim mostra um padrão consistente nas sete cidades: a faixa das 0h às 6h concentra entre 15,7% e 19,2% dos registros, a menor participação de qualquer intervalo do dia.

O pico varia por cidade, mas ocorre sempre no fim da tarde ou início da noite — 19h em São Paulo, 20h em Campinas, 18h em Atibaia, 15h em Santos e em Bragança Paulista, 17h em Praia Grande. Bom Jesus dos Perdões é a única exceção ao padrão vespertino, com pico às 11h.

O relatório aponta que esses municípios já reduziram o tipo de crime que costuma dominar o debate público de segurança — homicídio e crime patrimonial violento —, restando um problema de outra natureza: agressão interpessoal, parte relevante dela dentro de casa, distribuída por dezenas de bairros em vez de concentrada em poucos pontos.

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