Foto: Estratégia Carreira Jurídica
Mercado Financeiro
Por anos, Daniel Monteiro foi o nome que não aparecia. A PF agora diz que era ele a engenharia por trás das operações, advogado do banco, de Vorcaro e de Lima ao mesmo tempo, despachando de dentro da sede, com elevador privativo e trânsito livre à diretoria. Preso na quarta fase da Compliance Zero, vê a acusação escorrer do crime para a esfera cível
Por anos, Daniel Lopes Monteiro foi o nome que não aparecia no escândalo Master. Não estava nos cartazes na porta da agência, nem nas listas de políticos, nem nas primeiras fases da Operação Compliance Zero. Trabalhava onde quase ninguém via.
Em 16 de abril de 2026, passou a aparecer, preso. A Polícia Federal o levou, na quarta fase da operação, com a prisão preventiva autorizada pelo ministro André Mendonça, do STF. No mesmo dia caiu Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. Para a PF e a PGR, Monteiro não era o advogado da banca. Era a engenharia.
A tese da investigação é que enquanto Daniel Vorcaro e Augusto Lima ocupavam as manchetes, quem desenhava as operações era ele. E as operações que agora desabam, tocando nomes à esquerda e à direita, passavam todas pela mesma mesa. A política mudava de cor. A mão que montava as estruturas era sempre a mesma.
Segundo apuração do MyNews, foi Monteiro quem apresentou Augusto Lima a Vorcaro. A ponte teria nascido da privatização da EBAL , a mesma operação que pariu o CredCesta dentro do Master.
E ele não parou de intermediar. As fontes o descrevem cuidando da engenharia jurídica dos três lados da mesa ao mesmo tempo: advogado do banco, de Vorcaro e de Lima. Três cadeiras, um ocupante.
O detalhe mais forte é geográfico: onde ele trabalhava. Não despachava de fora. Segundo as fontes do MyNews, mantinha base dentro da sede do banco, com cinco a seis advogados exclusivos. Duas salas em área restrita, elevador privativo, estacionamento próprio. Entrava e saía sem passar pela portaria. Tinha trânsito livre aos andares da diretoria e às salas de Vorcaro e Lima e despachava, segundo o relato, da própria mesa de reuniões do controlador.
O jurídico externo, que existe para criar distância entre quem decide e quem fiscaliza, teria sido instalado no coração da decisão.
A própria defesa dá a dimensão do envolvimento: afirma que o escritório de Monteiro prestou serviços ao Master entre 2022 e 2025, somando mais de 180 mil horas de trabalho e cerca de 28 mil processos. A leitura da PF é outra, a de que tanto tempo dentro do banco não cabe na palavra “consultoria”.
A mão em quase tudo
A apuração atribui a Monteiro e sua equipe o desenho das principais operações do grupo de 2021 em diante:
– As compras: Will Bank, Banco Voiter, Banco Banif.
– O mercado: operações com Nelson Tanure e Maurício Quadrado em Alliar, Oi, Prio, Dia, Ligga, Oncoclínicas, Ambipar, Emae, Biomm, Lormont, Garone e Gafisa.
– As vendas: ativos para o BTG; a seguradora KOVR para a J&F.
– O Will Bank: Luciano Huck e, depois, o fundo Mubadala.
– O BRB: documentos, fluxos de recursos, troca de ativos e laudos — incluindo as operações de codinome “Tirreno”.
– A origem: a privatização da EBAL e a blindagem patrimonial montada para Augusto Lima.
É justamente o tranche do BRB que o levou à cadeia. Para a investigação, Monteiro elaborava e ajustava contratos e notificações para dar aparência de legalidade a carteiras de crédito fictícias vendidas ao banco de Brasília e, em trocas de mensagens com Vorcaro, se apresentava como o profissional que viabilizaria a operação jurídica e a ocultação patrimonial de imóveis de interesse de Paulo Henrique Costa. Em resumo: o desenho que o MyNews descreveu é, agora, a acusação.
As árvores lá fora
O trecho mais sensível é o exterior. As fontes descrevem “árvores de investimento”: tronco visível, raízes que somem e sempre um beneficiário final na ponta. Dois desenhos, um para cada sócio, tanto de Vorcaro como de Lima.
Levantamento publicado pelo Metrópoles após a prisão identificou ao menos três estruturas com o mesmo padrão, reunindo 21 empresas e seis fundos de investimento, com cerca de R$ 893 milhões declarados, e participação direta de familiares de Monteiro. As raízes, ao que tudo indica, davam fruto.
Os “meros prestadores de serviço”
O ponto mais revelador não é o que Monteiro fazia. É o que os outros não faziam.
Administradoras e gestoras existem para analisar e, se preciso, barrar uma operação. Segundo as fontes, viraram executoras. A equipe de Monteiro dava a ordem direto à média gerência de casas como Trustee, Banvox, Sefer, QCore, BFL, BTG e Reag. Às gestoras cabia conferir o documento pronto e registrar. Sem perguntar por quê, pois já vinham com “Legal Oppinion”.
Braços mecânicos de uma inteligência externa. O mesmo valeria para os diretores do banco, que recebiam tudo embalado, pronto para implantar. Em lugar nenhum da cadeia havia alguém com poder para dizer “espera, isso não fecha”. Quando todos os freios estão na mão de quem pisa no acelerador, o carro só anda numa direção.
O padrão que não fecha
As fontes apontam um descompasso: o patrimônio e os gastos atribuídos a Monteiro seriam incomuns para quem se apresenta apenas como consultor jurídico. Veículos de altíssimo padrão, automobilismo, aeronaves particulares em sociedade com Augusto Lima. A leitura é direta: sugeriria participação nas operações além dos honorários. Era hipótese da apuração. Virou linha de investigação, a PF aponta que Monteiro é cotista de fundos da própria estrutura que ajudava a montar.
Há um trecho da trajetória dele preto no branco. Os atos da WNT Gestora de Recursos Ltda. trazem Daniel Lopes Monteiro como sócio e, na constituição (26/07/2017), como Diretor de Gestão de Riscos e de Controles Internos. Depois deixou o risco, manteve o controle interno (29/09/2017), vendeu as quotas à WNT Participações (27/08/2018) e renunciou ao cargo (21/01/2019).
O documento liga, em cartório, o nome de Monteiro à WNT , e justamente às funções de risco e controle. As mesmas que, segundo as fontes, teriam deixado de existir na prática na máquina que ele montou.
Monteiro segue preso. Em 16 de junho, o BRB pediu à Justiça que ele fosse formalmente citado no processo de indenização pela venda das carteiras de crédito “podres”, sinal de que sua figura se espalha das esferas criminal para a cível.
A defesa de Monteiro nega irregularidades. Em nota, afirma que a atuação de Monteiro “sempre se deu de forma estritamente técnica”, na condição de advogado do Master e de outros clientes, e que “o eventual uso indevido dessas estruturas por clientes não pode ser automaticamente atribuído aos advogados”, sendo necessária “prova de participação direta e consciente em qualquer irregularidade, o que não se presume”. Segundo os defensores, ele está à disposição das autoridades e confia que os fatos serão esclarecidos.
Vale o registro: há prisão preventiva e acusação, não condenação. Até o trânsito em julgado, Daniel Monteiro tem a seu favor a presunção de inocência.