Diário da Guerra do Porco retrata a luta entre gerações
Eleitor
O Proálcool, as greves do ABC e a queda dos homicídios em Goiás têm algo em comum: foram construídos por quem já sabia o que estava fazendo
Em *Diário da Guerra do Porco*, o argentino Adolfo Bioy Casares constrói um pesadelo lúcido: Buenos Aires acorda tomada por uma juventude que decidiu que os velhos são o problema. Não um problema entre outros, mas o problema. Casares escreveu o livro em 1969, mas a lógica que ele dissecou dispensa porretes nas ruas para funcionar. Basta um microfone, uma campanha e o argumento de que a idade é, por si só, uma forma de corrupção. Já se vê nas campanhas de 2026, e nas narrativas que as cercam nas redes sociais, esse uso da velhice como pecha. Ser novo é a qualidade. A trajetória, o tempo de luta, o custo pago em carne: tudo isso vira sinônimo de sistema. O velho é o corrupto. O jovem é o futuro. A equação é sedutora, simples e perigosa exatamente por isso.
Os fatos, porém, insistem em complicar a narrativa. Geraldo Alckmin, 73 anos, foi decisivo para a expansão do Proálcool. Como governador de São Paulo, reduziu o ICMS sobre o álcool hidratado de 25% para 12%. Medida que empresários do setor sucroenergético reconhecem como vital para consolidar o Brasil como a única grande economia capaz de mover sua frota com combustível renovável. Hoje, quando o mundo treme diante de crises no Oriente Médio e da volatilidade do petróleo, esse ativo estratégico não caiu do céu, foi construído por alguém que passou décadas aprendendo o ofício.
Lula, por sua vez, não chegou ao poder por ser jovem. Chegou por ter sobrevivido ao suficiente para entender o país por dentro. Liderou as primeiras greves operárias em mais de uma década em plena ditadura, foi preso em 1980 durante uma paralisação de 41 dias que envolveu 300 mil metalúrgicos, e fundou o PT naquele mesmo ano. Esse percurso não cabe em dez anos de lives e caravanas.
Ronaldo Caiado, 72 anos, é o terceiro exemplo inconveniente: em 2018, Goiás registrou mais de 2,1 mil homicídios dolosos; em 2025, esse número caiu para 808, redução de 62% atestada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Resultado construído com método, R$ 17 bilhões em investimento e, acima de tudo, tempo de governança.
Os números eleitorais tornam a aposta etarista ainda mais estranha do ponto de vista estratégico. Um levantamento da Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, a partir do Portal de Dados Abertos do TSE, revela que a chamada Geração Prateada, eleitores com 60 anos ou mais, cresceu cinco vezes mais do que o eleitorado geral nos últimos 16 anos. Enquanto o total de aptos aumentou 15% entre 2010 e 2026, o eleitorado 60+ cresceu 74%: de 20,8 milhões para 36,2 milhões. São 156,2 milhões de eleitores aptos no total, mais de um quinto deles com mais de 60 anos. A Nexus aponta que, em cenários de polarização aguda como o de 2022, conquistar esse voto é estratégico. Ao tratar a velhice como defeito político, certos discursos alienam sistematicamente o segmento que mais cresceu e que mais comparece às urnas. É como construir uma estratégia de comunicação que insulta o principal público-alvo, e chamar isso de renovação.
A violência em *Diário da Guerra do Porco* não é apenas física. É epistemológica: os jovens do romance não só agridem os velhos, eles os apagam como fonte legítima de saber. A experiência deixa de ser recurso e passa a ser estigma. Nas campanhas que fazem da novidade um programa, há um eco preciso desse apagamento. Não se pergunta o que foi feito. Pergunta-se quantos anos tem quem fez. A lógica das redes sociais colabora: nenhum algoritmo consegue monetizar décadas de negociação política silenciosa, mas consegue monetizar uma declaração incendiária às 22h de uma terça-feira. O Brasil já viveu o entusiasmo com o outsider puro e já viu o que acontece quando alguém chega ao poder sem ter sido obrigado, em nenhum momento anterior, a responder pelas consequências das suas ideias. O aprendizado custa caro para quem aprende. Custa mais caro ainda para quem financia o aprendizado.
É preciso dizer o óbvio antes que se perca. Defender o valor da experiência não é defender a gerontocracia. A questão relevante nunca foi quantos anos tem o candidato, foi o que ele fez com o tempo que teve. Que decisões tomou. Que consequências enfrentou. Que derrotas o tornaram mais cuidadoso. E, principalmente, como quer enfrentar o que está por vir.
Bioy Casares termina seu romance com o protagonista Isidoro Vidal ainda de pé, ainda vivo, depois de escapar de cada emboscada da guerra movida contra os de sua geração. Ele não vence porque era mais forte. Vence porque conhecia o terreno. Porque havia aprendido, ao longo de décadas, a não subestimar o que não entendia. O Brasil poderia aprender com isso antes de eleger quem ainda não entende o que não entende.