Agência Brasil
Eleições
O episódio Kassab-Caiado mostrou que o maior adversário da centro-direita em 2026 não é Lula, é ela mesma
Na sexta-feira, o MyNews revelou em primeira mão: Gilberto Kassab seria anunciado como vice de Ronaldo Caiado no sábado. A notícia tinha todos os contornos de um fato consumado. A direita enfim teria chapa. O sábado chegou. O anúncio, não.
No lugar da confirmação, Kassab enviou uma mensagem a apoiadores próximos dizendo que a decisão sobre a vice só acontecerá em julho, que um aliado de fora ainda é possível, que a vice do PSD também é uma hipótese e que o critério, seja quem for, será o melhor perfil para ajudar Caiado a vencer e a governar. Em seguida, publicou nota em suas redes se colocando “à disposição para ouvir e acatar qualquer decisão coletiva.”
Caiado não disse nada. Nem para confirmar, nem para negar.
O silêncio do governador de Goiás foi, por si só, eloquente. Nos bastidores, circulou a leitura de que ele estava contrariado com um anúncio feito sem sua autorização e que, segundo rumores que ganharam força ao longo do sábado, chegou a ameaçar desistir da candidatura. Nada foi confirmado. Mas o estrago simbólico já estava feito.
O episódio revela, com precisão, o quanto a direita não-bolsonarista está tendo dificuldade de se organizar em torno de uma candidatura.
O assunto dominou os jornalões desde sexta-feira e mobilizou a mídia ao longo de todo o fim de semana, o que, por si só, diz algo sobre o peso político do movimento. O PSD aparece como o único partido neste momento com uma articulação presidencial claramente estruturada e com protagonismo estratégico visível. E os objetivos por trás da possível entrada de Kassab na chapa são precisos: corrigir o desequilíbrio regional de uma candidatura que hoje tem perfil muito concentrado no Centro-Oeste; ampliar a presença nacional do partido; conter o avanço de uma alternativa encabeçada por Romeu Zema; e fortalecer a articulação de centro-direita para 2026. São objetivos legítimos. O problema é que a execução, neste fim de semana, saiu pela culatra.
Caiado e Zema somam juntos menos de 7% nas intenções de voto, como têm mostrado as diversas pesquisas. Nesse contexto, cada movimento errado custa caro e um anúncio de vice desautorizado, real ou percebido como tal, é exatamente o tipo de erro que um campo já fragilizado não pode se dar ao luxo de cometer.
A articulação para emplacar Kassab como vice de Caiado surgiu justamente como tentativa de frear a movimentação por uma aliança que teria Zema como cabeça de chapa, o que irritara uma ala do PSD que não queria ver seu candidato rebaixado. A chapa “puro-sangue”, portanto, não nasceu de uma estratégia. Nasceu de uma reação.
E é esse o problema estrutural. A direita que orbita Caiado sabe que precisa dos votos bolsonaristas para ter alguma chance no primeiro turno. Não quer Flávio Bolsonaro. E não encontrou ainda nenhuma fórmula que resolva essa equação. A hipótese Caiado/Zema, que circulou com força nos bastidores, com a ordem dos nomes a ser definida por pesquisa, seria uma resposta possível. Mas ela exige que um dos dois ceda o primeiro lugar. E ninguém, até agora, cedeu.
O fim de semana deixou tudo isso escancarado. Um anúncio que não foi feito, um candidato que não se pronunciou e um partido que operou na frente do próprio cabeça de chapa. Pequeno como episódio. Grande como sinal.