Foto: gerada por IA
O psiquiatra Isaac Efraim explica por que o exercício quase não entra na consulta. Mas, quando entra, faz toda a diferença
Eu cresci no interior, brincando na rua, jogando bola e andando de bicicleta. Sempre amei esporte. Na adolescência, me mudei para São Paulo, me afastei de tudo isso e me tornei uma pessoa mais enclausurada dentro de casa.
Eu vivi a ansiedade e a depressão na pele. Lá por 2016, as crises de pânico eram constantes, principalmente no metrô lotado. Teve dia de eu ter três, quatro crises. A crise de pânico é um medo intenso que chega de repente: o coração dispara, falta o ar e vem a sensação de que algo muito ruim vai acontecer.
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Tratei com vários ansiolíticos, remédios para controlar a ansiedade, sempre com prescrição e acompanhamento de um psiquiatra. Muitas vezes, eu me sentia dopada. Mas, sem eles, as crises não davam trégua.
Em 2018, veio o diagnóstico de fibromialgia, uma condição crônica de dor espalhada pelo corpo, quase sempre acompanhada de cansaço e sono ruim. Ela não aparece em exame de sangue nem de imagem, e por isso muita gente passa anos sem saber o que tem.
Foi o meu reumatologista quem me indicou o exercício físico. Primeiro para os sintomas da fibro , mas ele deixou claro que seria um aliado também no tratamento da depressão. Duas especialidades apontando para o mesmo caminho.
Sigo tratando a depressão até hoje. E, depois de muito esforço, o que me ajudou além do acompanhamento e da terapia foi a atividade física: musculação e futsal com as minhas amigas.
Faço questão de dizer logo: exercício não substitui tratamento. No meu caso, ele veio junto com o acompanhamento, com a terapia e com os remédios, quando precisei. Qualquer mudança se faz com o médico.
Foi com essa história nas costas que eu perguntei ao psiquiatra Isaac Efraim, médico psiquiatra e consultor em produtividade humana, com que frequência o exercício aparece na consulta. A resposta me surpreendeu.
“Esse assunto aparece de uma forma bastante rara. Poucas vezes eu me lembro de perguntar, e poucas vezes o paciente acaba relatando”, contou o especialista à coluna.
Para ele, o exercício é um aliado de verdade contra a ansiedade e a depressão. Só que existe um paradoxo. “O grande problema é que os pacientes, quando estão com ansiedade e depressão, têm muito pouco ânimo, muito pouca motivação para praticar os exercícios.”
Eu sei exatamente do que ele está falando. Eu tinha a recomendação médica na mão, sabia que aquilo ia me fazer bem, e mesmo assim teve dia em que sair da cama era quase impossível. Não adianta só receitar: tem que mobilizar a pessoa.
Quando isso acontece, o ganho é grande. Segundo o psiquiatra, a atividade física pode ajudar na prevenção de qualquer transtorno mental, inclusive do suicídio.
Para o Dr. Isaac, a palavra-chave é consistência: quanto mais constante o exercício, maior a energia psíquica. Mas ele alerta que o corpo se acostuma, e os mesmos 20 minutos de sempre vão perdendo efeito.
O ideal, na visão dele, é algo aeróbico que exija mais intensidade. Começar com uma caminhada vale. O recado é não ficar parado no mesmo ponto.
Perguntei ainda se quem treina de fone de ouvido e quem joga bola no sábado chegam ao mesmo lugar. Não chegam. O esporte coletivo traz socialização, interação e competição, ganhos que ele liga muito mais à saúde mental do que à parte física.
Isso não tira o valor da academia ou da corrida, que melhoram a circulação de sangue e produção de hormônios reguladores do humor. Eu me apaixonei por ambas as práticas, aliás, e me faz uma falta danada ficar sem.
Neste Setembro Amarelo, fica a provocação para quem se afastou do esporte em algum momento da vida, como eu me afastei: dá para voltar.
Se você, ou alguém perto de você, estiver passando por um sofrimento intenso, procure uma Unidade Básica de Saúde, um CAPS ou um serviço de urgência. O Centro de Valorização da Vida (CVV) atende de graça, 24 horas por dia, pelo telefone 188.