colunista Beatriz Prates
Diretora geral do MyNews
Racismo

“Eu tenho um amigo preto”

Quantas vezes você já ouviu essa frase? Precisamos falar sobre racismo e entender por que as pessoas negam
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“Tenho um amigo preto e ele é médico”. “Eles é que são racistas”. “E os brancos que morrem?”. “Você tem que olhar esses números por outro ângulo”. Essas são frases de um almoço de sábado, quando surgiu o tema do assassinato de João Alberto Silveira Freitas em um supermercado no Rio Grande do Sul. Ele morreu por causa da cor da pele. Mas, para os meus interlocutores, não.

Eles são brancos. São bem instruídos, têm formação acadêmica, têm acesso à informação. Um deles leu o livro Escravidão, do Lauretino Gomes, uma aula sobre a origem do racismo. E têm certeza de que não existe racismo no país, que o problema é só a desigualdade social.

Tentei usar fatos concretos, como o número de negros assassinados em 10 anos no Brasil, que é quase o triplo do número de brancos — dados do Atlas da Violência. Mesmo assim, eu ouvi “ah, mas esses números são relativos”. Relativos? São 437.976 pessoas negras assassinadas contra 160.210 pessoas brancas. O que tem de relativo nisso?

Depois da conversa deprimente que terminou, claro, num clima bem pesado, me vieram muitas perguntas. Por que essas pessoas pensam assim? Tudo bem que a gente vive hoje num estado de negação. Negação da ciência, negação da pandemia e negação do racismo. Quando o João Alberto foi espancado até a morte, o vice-presidente Hamilton Mourão disse que não existe racismo no Brasil. E o presidente Bolsonaro também negou, e disse que é daltônico: “Todos têm a mesma cor”. Não, presidente, não temos a mesma cor.

Black Lives Matter: precisamos falar sobre racismo
Black Lives Matter: precisamos falar sobre racismo (Foto: Gabe Pierce/ Unsplash)

O governo, claro, tem acesso a todos os dados sobre violência e desigualdade no Brasil. Uma rápida análise deixaria a realidade mais transparente, mas acredito que não há interesse em resolver o problema ou mesmo ter noção desta realidade.

Mas o que acontece entre nós, cidadãos comuns? Por que as pessoas negam o racismo? Será que conhecem poucas histórias de pessoas que passaram por preconceito por causa da cor? Será que não têm empatia? Será que só convivem com brancos? Será que mentem?

Passei dias e dias tentando achar respostas para essas perguntas e procurando espaços para essa conversa. Eu sou branca e sei que essas conversas não existem entre brancos.

Não cheguei a muitas conclusões. Mas estou convencida que, junto com a desigualdade, o racismo tem que ser debatido. Por todos. Tem que estar presente nos almoços de segunda a domingo. Tem que ser discutido por pessoas brancas e por pessoas negras, o tempo todo, e fazer parte de políticas públicas e políticas empresariais.

Essa discussão precisa estar em todos os lugares, ser normalizada e validada na nossa sociedade — que nega seus corpos no armário e não evolui no combate à desigualdade. Um país que se recusa a enxergar a realidade é um país que não tem futuro.

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