Volta às aulas

Fechamento de escolas implica em questões médicas e sociais

Segundo mestre em Saúde Pública, Brasil vive chance histórica de resgatar investimentos na educação
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Aos poucos, as escolas vão retornando aos moldes tradicionais, pré-pandemia. Dez Estados brasileiros marcaram a volta às aulas presenciais para já neste mês de fevereiro, entre os dias oito e 15.

O debate acerca da reabertura ou não das escolas é amplamente acompanhado por questões sociais, econômicas e, é claro, sanitárias. Se por um lado há o receio de contaminação e disseminação da Covid-19 entre alunos, professores e prestadores de serviço, em contrapartida está a supressão das faculdades cognitivas e sociáveis de crianças e adolescentes, evidenciadas em graves diagnósticos médicos.

De acordo com o pediatra Daniel Becker, mestre em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), duas características relacionadas à infância marcaram a pandemia no Brasil: “a constatação rápida, já nos primeiros meses, de que as crianças não eram atingidas pela doença em si, não adoeciam de forma grave – um alívio enorme para o meio pediátrico e para as pessoas em geral – e a constatação de que as crianças estavam adoecendo não pela Covid, mas de outras formas”.

Escola pública fechada em razão da pandemia de Covid-19.
Escola pública fechada em razão da pandemia de Covid-19. Foto: Prefeitura de Barueri.

Becker explica que uma série de fatores implicam diretamente sobre o fenômeno, fomentado pelas novas tecnologias antes mesmo da pandemia. As disfunções são causadas, segundo o doutor, “primeiro pelo confinamento excessivo em casa, dentro de quatro paredes, exilando as crianças de um ambiente essencial, que é ao ar livre, a natureza […] Depois, a pandemia fez com que as crianças ficassem exiladas da escola, um ambiente extremamente importante, onde elas aprendem não só o ensino formal como também questões fundamentais (socialização, aprendizado de habilidades, proficiência, a relação com o professor, o espaço para brincar). A criança precisa da escola como um primeiro espaço público em sua vida, onde ela vai aprender a se comportar em sociedade”.

O confinamento, então, carrega consigo a ansiedade gerada pela fadiga emocional, uma vez que a inexistência do ambiente escolar, a convivência sobrecarregada com os pais (muito em razão do regime home office), o excesso de telas, o sedentarismo absoluto e a ausência de amigos e socialização impactam sobre o bem-estar físico e psicológico, estruturas ainda em desenvolvimento nessa fase da vida.

“As crianças passaram a adoecer mental e emocionalmente. Isso foi muito eloquente no que elas expressavam e foi percebido pelos pediatras ao longo do ano, inclusive em diagnósticos graves como autolesão, tentativas de suicídio e aumento da depressão infantil”, completa Becker.

Para além da educação

Aludindo às temáticas que extrapolam a compreensão educacional e coletiva, o pediatra afirma que “para as crianças mais pobres, a falta de escola envolve ainda diversas outras questões, como a segurança alimentar e proteção contra violência urbana e doméstica. A escola é muito importante, mais ainda para as crianças vulneráveis que vivem em comunidades de maior risco”.

Becker defende a volta às aulas o quanto antes, tendo em vista a possibilidade de implementar protocolos básicos – mas eficientes – de segurança sanitária: “A ciência constatou, ao longo do ano, que nos países que reabriram as escolas não houve aumento da transmissão ou piora da epidemia. Os surtos escolares foram extremamente limitados, alunos e professores não estavam em maior risco estando na escola. Há uma grande diferença entre a escola e outros ambientes, é preciso entender isso. Não é negacionismo dizer que as escolas podem ficar abertas – é claro que em uma situação como Manaus ninguém vai propor isso”.

Uma escola preparada, no entanto, carece de bons protocolos, com sistemas de ventilação, inserção de planos de distanciamento, higiene elementar (água e sabão), disponibilização de máscaras e EPIs para alunos, professores e prestadores de serviços, requerimentos que parecem simples, mas que, em um país desigual como o Brasil, não são tão acessíveis.

Contudo, o pediatra explica que a manter as escolas fechadas pode ser, em longo prazo, algo extremamente maléfico para o desenvolvimento social do Brasil: “Imagine o aumento brutal da desigualdade que isso vai levar, porque as crianças de escola pública tiveram um ensino online muito precário. Então, estamos vivendo uma inversão de prioridades, pois a escola deveria ser a primeira a abrir e a última a fechar, estando preparadas para essa abertura.”

Mediante o atual cenário, Becker pondera: “Essa talvez seja uma oportunidade histórica de resgatar a falta de investimento na educação”.

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