PAÍS NA CONTRAMÃO

Enquanto OMS anuncia vacina contra a malária, Brasil corta 90% dos recursos para a ciência

Na mesma semana que a OMS anunciou a aprovação de uma vacina contra a malária, Ministério da Economia retirou Projeto de Lei que destinaria R$ 690 milhões para o Ministério da Ciência e Tecnologia
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Na mesma semana em que a aprovação de uma vacina contra a malária foi anunciada, o Ministério da Economia retirou um Projeto de Lei que destinaria R$ 690 milhões para o Ministério da Ciência e Tecnologia, especialmente para universidades e institutos de financiamento e desenvolvimento de pesquisas. O dinheiro seria destinado para pagar bolsas de estudo e apoiar projetos de pesquisa em todo o país. Do total, restaram apenas R$ 52 milhões, que serão utilizados para o pagamento de medicamentos para o tratamento de câncer.

A retirada dos recursos num momento em que avança o plano de vacinação contra o covid-19 e num período em que a pesquisa e o conhecimento científico têm sido tão valorizados em todas as partes do mundo, aponta para um Brasil na contramão do restante dos países, com iniciativas que podem paralisar pesquisas e diversas áreas do conhecimento.

No campo da pesquisa e desenvolvimento de imunizantes, entre as instituições capacitadas para desenvolver vacinas e que têm contribuído desde a fundação com a saúde pública não apenas no Brasil, mas em nível mundial, estão a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto Butantan. Os acordos para compra e produção de vacinas contra o Covid-19 incluíram também transferência de tecnologia para que os imunizantes passem a ser totalmente produzidos em território nacional.

Foto de referência de vacinação. Foto:Unsplash
Vacina contra a malária demorou 30 anos para ser desenvolvida e deve ter forte impacto na redução de casos e ortes na África Subsariana/Foto: Unsplash

O anúncio pela Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre a aprovação de uma vacina contra a malária, após 30 anos de pesquisas, é uma notícia importante que vai impactar diretamente milhares de crianças em todo o mundo – em especial na África Subsariana – onde por ano morrem em decorrência da malária mais de 260 mil crianças com menos de 5 anos. No Brasil, a doença transmitida pela picada da fêmea do mosquito Anopheles, infectada pelo protozoário Plasmodium, é comum na região amazônica – onde foram registrados 153 mil casos em 2019, com 37 óbitos.

Considerada uma doença negligenciada, a dificuldade em desenvolver uma vacina contra a malária também se deve ao longo trabalho de pesquisa necessário para o desenvolvimento de vacinas.

“Não creio que neste caso [a demora] seja pelo fato de ser uma doença negligenciada. No caso da malária, existe também interesse de países desenvolvidos. Trabalhei muito tempo na Holanda e os holandeses se preocupavam muito com este assunto porque viajam muito para a África. A ciência é assim: alguns resultados não temos quando dizer quando vamos alcançá-los. Essa ciência começa com pesquisas básicas até chegar a um produto que pode ser rápido, ou pode ser difícil”, destacou o físico Rogério Galvão, professor titular do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em participação ao Quinta Chamada Ciência, no Canal MyNews.

Galvão ressalta, por exemplo, que os argumentos de que as vacinas contra o Covid-19 foram criados rapidamente e por isso não seriam tão confiáveis não são verdadeiros. “A pesquisa sobre a vacina contra o Covid-19 que usa o RNA começou há mais de 20 anos. A pesquisadora principal não teve apoio nos Estados Unidos e foi para outros laboratórios e persistiu. Nós não sabemos quanto tempo levará para fazer uma pesquisa. De qualquer forma, vamos nos regojizar por esse grande feito, essa grande ação da ciência”, pontuou o professor.

O jornalista Salvador Nogueira destacou que essa é a primeira vez que se desenvolve uma vacina para protozoários, que deve impactar numa redução de pelo menos 50% dos casos de malária. Se tivermos como base que apenas em 2019 o mundo registrou cerca de 230 milhões de casos de malária, com mais de 400 mil mortes, os resultados da vacinação contra a doença no longo prazo são de esperança. Para Nogueira, o fato de o desenvolvimento do imunizante ter demorado 30 anos mostra a dificuldade do processo de pesquisa.

“A sociedade às vezes tem a ideia do cientista como se fosse um professor pardal. Trago um problema para ele e ele vai no laboratório e resolve. Não é assim. As coisas às vezes desenvolvem por outros caminhos. Uma pesquisa que foi feita há anos, que não tinha nenhuma intenção de produzir uma vacina, realizada pelo valor do conhecimento, mais tarde pode ser usada para outro grupo para produzir uma vacina e é assim em vários produtos”, ressaltou Rogério Galvão, lembrando que em muitos casos os laboratórios farmacêuticos são melhor equipados e têm mais insumos do que laboratórios de universidades.

Produção de vacinas é demorada e demanda várias etapas

A produção de vacinas demanda tempo e estudo. Se a vacina contra a malária demorou 30 anos para ser aprovada, outros imunizantes também não ficaram para trás. Rafael Dhália, pesquisador do Departamento de Virologia e Terapia Experimental da Fiocruz cita algumas vacinas que também demoraram a serem desenvolvidas: a da catapora levou 28 anos; a do rotavírus demandou 15 anos; para a vacina contra a tuberculose foram 13 anos de estudos.

Dhália ressalta que todo imunizante passa por pelo menos cinco fases de desenvolvimento e testes, até ser aprovado para aplicação na população. E que 3 milhões de pessoas são salvas todos os anos graças à vacinação.

“Para desenvolver uma vacina são necessária cinco fases. A fase pré-clínica, quando é decidido o antígeno que vai provocar o organismo a produzir a imunidade. A etapa de testes em animais e verificação da produção de anticorpos. Essa fase é a mais demorada e só depois é que se iniciam os testes em seres humanos, até que a vacinação em massa possa ser autorizada”, explica o pesquisador da Fiocruz.

Ele explica que a velocidade de desenvolvimento das vacinas contra o covid-19 se deve a diversos fatores, entre os quais a situação de emergência mundial, que permitiu com que algumas fases de desenvolvimento fossem feitas de forma simultânea; algo justificável diante da gravidade da pandemia. O que também motivou o avanço rápido na produção dos imunizantes foi o uso de pesquisas prévias e o compartilhamento de informações entre centros de pesquisas e cientistas de todo o mundo – num esforço global para vencer o novo coronavírus.

Dhália reforça que vacina não é “mágica” e que ainda teremos algum tempo com as chamadas “bolhas de pessoas imunizadas”. “O que a gente pode fazer para evitar as infecções é distanciamento social, uso de máscaras e medidas de higiene”, ressalta.

Além da vacina contra o covid-19, a vacina contra o ebola – que demorou 5,5 anos para ser desenvolvida e autorizada – e a vacina contra a Caxumba, com um período entre a pesquisa e a aplicação de 4 anos, também são considerados imunizantes desenvolvidos em tempo recorde.

Assista ao Quinta Chamada Ciência, no Canal MyNews, ou ouça o Podcast do programa nas principais plataformas

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