Foto: Blog Pilates
A infância marcada pelo cuidado do pai com câncer levou um artista plástico a transformar a forma como o Brasil discute a velhice
Muita gente associa o envelhecimento apenas a doenças, limitações e perda de autonomia. Para o gerontólogo e pesquisador Diego Félix, porém, a velhice começa a ser construída muito antes dos cabelos brancos aparecerem. Em conversa com o médico Alexandre Kalache, referência mundial em longevidade, ele contou como a experiência de cuidar do pai, ainda criança, mudou sua forma de enxergar o cuidado, a empatia e o próprio envelhecimento.
A história começou quando Diego tinha apenas seis anos. Enquanto a mãe trabalhava para sustentar a família e custear o tratamento do marido com câncer nos ossos, o menino ajudava nos cuidados diários. Ele dava banho no pai, administrava medicamentos e acompanhava o tratamento. Ao mesmo tempo, convivia de perto com familiares mais velhos. Segundo ele, foi nesse ambiente que passou a enxergar a velhice como uma experiência humana, e não apenas como uma questão médica.
Essa vivência definiu sua trajetória profissional. Formado em Artes Visuais, Diego trabalhou inicialmente com teatro e oficinas culturais. Depois, especializou-se em Gerontologia pela USP. Desde então, defende que atividades como pintura, teatro, dança e convivência social vão muito além do entretenimento. Para ele, esses espaços fortalecem a autonomia, estimulam a independência e ajudam a combater o isolamento social, um dos principais desafios do envelhecimento.
Durante a conversa, Kalache reforçou essa visão. Ele lembrou que pesquisas recentes apontam que participar de atividades culturais pode produzir benefícios comparáveis aos da prática regular de exercícios físicos. Na avaliação do médico, saúde também se constrói por meio da participação social, da cultura e das relações humanas.
Ao longo da carreira, Diego percebeu que parte da população idosa permanecia invisível nas políticas públicas. Como homem gay, passou a estudar o envelhecimento da comunidade LGBTQIA+ e fundou a organização Eternamente SOU. A iniciativa busca fortalecer redes de apoio, estimular políticas públicas e ampliar o debate sobre os desafios enfrentados por esse grupo.
Para o pesquisador, envelhecer com qualidade depende de muito mais do que atendimento médico. Também exige inclusão, participação social, segurança e respeito às diferentes trajetórias de vida. Essa mudança de perspectiva, afirma, pode transformar a forma como a sociedade encara a velhice.