Enquanto o Brasil debate quem é menos corrupto, milhões de endividados esperam Brasileiros recorrem ao novo Desenrola Brasil em meio ao aumento das dívidas e do custo de vida. Foto: Estadão

Enquanto o Brasil debate quem é menos corrupto, milhões de endividados esperam

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Em entrevista ao MyNews, professor Nelson Marconi afirma que a política virou entretenimento e que o país deixou de discutir desenvolvimento, indústria e inclusão produtiva

Política virou entretenimento

O escândalo envolvendo Daniel Vorcaro dominou a semana política e escancarou um problema maior: o Brasil parece preso a uma disputa permanente sobre quem é “menos corrupto”. Enquanto a eleição se transforma em um cabo de guerra entre delações, suspeitas e escândalos, temas como desenvolvimento, crescimento, indústria e geração de empregos ficam em segundo plano.

Em entrevista ao MyNews, o professor Nelson Marconi afirmou que esse tipo de debate tem um custo alto para o país. Segundo ele, a sociedade fica capturada por uma lógica de entretenimento político, enquanto deixa de discutir propostas concretas para o futuro. Para Marconi, o Brasil segue sem uma estratégia clara de desenvolvimento e depende de “voos de galinha” para crescer, com avanços pontuais ligados ao cenário externo, ao agronegócio ou a estímulos fiscais.

Banco Mundial muda visão sobre desenvolvimento

O professor também destacou que o Banco Mundial vem revendo sua visão sobre política industrial. A discussão, segundo ele, já não deve se limitar à indústria tradicional, mas envolver uma política de desenvolvimento do setor produtivo, com integração entre Estado e mercado.

A ideia é estimular setores estratégicos, ampliar investimentos e criar condições para um crescimento mais sustentado. Segundo Marconi, países da Ásia, da Europa e até os Estados Unidos já retomam estratégias para fortalecer suas cadeias produtivas e recuperar capacidade industrial.

Enquanto isso, o país continua concentrado em uma discussão fiscal considerada limitada. Para o economista, o ajuste fiscal é importante, mas precisa estar orientado ao crescimento. Caso contrário, o país apenas equilibra contas sem enfrentar o principal problema: a falta de um projeto econômico capaz de gerar emprego, renda e investimento produtivo.

Juros altos e população endividada

A entrevista também abordou o impacto da financeirização da economia brasileira. Juros elevados, spreads altos e dificuldade de acesso ao crédito ajudam a explicar por que milhões de brasileiros vivem endividados e sem perspectiva de melhora.

Programas como o Desenrola podem aliviar parte da situação, mas, na avaliação apresentada durante a conversa, não resolvem a raiz do problema. Marconi argumenta que o país passou décadas fortalecendo o sistema financeiro enquanto perdeu capacidade produtiva e industrial.

Segundo ele, a combinação entre juros altos e baixo investimento trava tanto o setor privado quanto a capacidade do governo de estimular crescimento econômico de longo prazo.

Risco de frustração e radicalização

Para o profissional, o cenário atual cria um risco político e social relevante. Sem crescimento consistente, inclusão produtiva e geração de empregos, a sociedade tende a aumentar a frustração com a política tradicional.

Nesse contexto, afirma Marconi, o país pode abrir espaço para discursos mais radicais e soluções simplistas. Enquanto Brasília continua concentrada em escândalos, delações e disputas eleitorais, milhões de brasileiros seguem esperando respostas concretas para problemas reais, como renda, trabalho e qualidade de vida.

No fim, a pergunta central deixa de ser quem venceu a briga política da semana. O que parte da população quer saber é quando o Brasil voltará a discutir desenvolvimento, futuro e oportunidades reais para quem está afundado em dívidas.

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