Almino Affonso. Foto: Agência O Globo
DEMOCRACIA
Em depoimento marcante, o ex-ministro do Trabalho detalha a solidão do poder no dia do golpe e o valor do engajamento democrático
As marcas da história não se apagam com facilidade para quem viveu de perto o desmoronamento da democracia brasileira em 1964. Em entrevista ao Canal MyNews, o ex-ministro do Trabalho e ex-deputado constituinte Almino Affonso resgatou memórias inéditas e detalhes dramáticos sobre os bastidores do Golpe Militar que derrubou o presidente João Goulart e o levou a anos de cassação e exílio.
Aos 33 anos, Almino Affonso ocupava o comando do Ministério do Trabalho durante uma fase de plena efervescência política e ascensão das lutas sociais no país. Em seu relato, o ex-ministro enfatiza que o governo Jango vivia um momento de expansão e modernização dos direitos trabalhistas antes de ser abruptamente interrompido pelos militares.
Antes da eclosão da crise de 1964, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) completava duas décadas de existência. Segundo Almino Affonso, a legislação já apresentava sinais de desgaste e deformações. Como advogado trabalhista de formação, ele propôs a João Goulart uma ampla revisão do código do trabalho.
“Levei ao presidente João Goulart a ideia de criarmos um grande movimento com intelectuais, juristas, dirigentes sindicais e estudantes para renovarmos a CLT, que já estava envelhecida. Estávamos em plena ascensão de projetos sociais quando a inevitabilidade do golpe se impôs”, relembrou Almino.
O projeto culminou na histórica “Semana de Debates Limpo Frota” (mencionada pelo ex-ministro como debate Lympo Foco), que reunia economistas e especialistas para debater a renovação do código do trabalho em Brasília. As discussões, no entanto, foram atropeladas pelo avanço da crise política.
Um dos momentos mais impactantes do depoimento de Almino Affonso descreve as últimas horas de João Goulart na capital federal. Após a constatação de que o governo não tinha mais condições de resistir em Brasília, Jango decidiu viajar para o Rio Grande do Sul na tentativa de articular uma resposta.
A bordo de um avião turboélice, Jango partiu rumo ao Sul. Naquele mesmo local, Tancredo Neves confidenciou a Almino o seu pressentimento sombrio, lembrando que, dez anos antes, havia se despedido de Getúlio Vargas pouco antes de seu suicídio: “Será hoje a última vez que estou me despedindo do presidente João Goulart?”, questionara Tancredo.
Cassado logo no início da ditadura militar, Almino Affonso viveu longos anos no exílio — principalmente no Chile —, antes de retornar ao Brasil para participar da redemocratização, tornar-se vice-governador de São Paulo e deputado constituinte.
Ao olhar para trás, o ex-ministro reafirma que lembrar de 1964 não é apenas “revisitar o passado”, mas uma ferramenta indispensável para compreender por que certas crises autoritárias insistem em retornar à história brasileira. Para Affonso, a preservação das instituições democráticas exige permanente vigilância da sociedade, do movimento estudantil e dos trabalhadores.