Análise: o tabuleiro eleitoral da Região Metropolitana de Campinas está se formando Foto: divulgação

Análise: o tabuleiro eleitoral da Região Metropolitana de Campinas está se formando

Tamanho do texto:

Entre o voto fisiológico e o ideológico, a Região Metropolitana de Campinas se prepara para uma eleição marcada pela disputa por redutos e pela ascensão de nomes mais programáticos

A Região Metropolitana de Campinas (RMC) já começa a se consolidar como um dos principais polos de observação para as eleições gerais de outubro. Historicamente, Campinas e os municípios do entorno funcionam como um cinturão político estratégico no estado de São Paulo, reunindo lideranças da centro-direita tradicional, do campo bolsonarista, e da esquerda, representada principalmente por PT e PSOL.

Para compreendermos onde está o cenário eleitoral recente recorro a pesquisa realizada pelo Instituto Vox Brasil nos dias 10 e 11 de junho de 2026, em Campinas. O levantamento indica que o ex-prefeito Jonas Donizette (PSB) lidera o cenário estimulado para deputado federal, com 17,7% das intenções de voto. Na sequência, forma-se um bloco mais competitivo, composto por Carlos Sampaio (PSD), com 7,1%; Pedro Tourinho, com 6,7%; e Renato Bolsonaro, com 5,7%. Em seguida aparecem Tabata Amaral, com 4,5%; Tenente Santini, com 4,1%; e Ricardo Salles, com 3,5%. Esse último também aparece com 16,3% de apoio ao senado, cargo que pretende concorrer neste ano.

O mais interessante, no entanto, está além dos nomes que devem concorrer nestas eleições. O levantamento também evidencia um elevado grau de indefinição do eleitorado —  e talvez esse seja o dado mais relevante para a análise. 

Ao todo, 27,5% dos entrevistados afirmaram não saber em quem votar ou preferiram não responder, enquanto 16,3% declararam intenção de votar em branco, nulo ou em nenhum dos nomes apresentados. Somados, esses grupos representam 43,8% do eleitorado pesquisado. Ou seja, a disputa permanece amplamente aberta e sujeita a mudanças ao longo da campanha, e nessa indefinição mora o potencial de vitória para alguns e derradeira para outros. Campinas segue como o principal colégio eleitoral da Região Metropolitana: sem o desempenho na cidade, nenhum dos deputados hoje em evidência garantiria a reeleição.

Bruno Ganem (Podemos), Carlos Sampaio (PSD) e Jonas Donizette (PSB) concentram a disputa por deputado federal na Região Metropolitana de Campinas. 

Em termos partidários, o PSD amplia influência na Região de Bragança por meio de Saulo Pedroso, movimento que ganha força com o desempenho de Carlos Sampaio na Região de Campinas, deputado da mesma legenda. O histórico político de Sampaio nesse sentido poderá ser uma bagagem de influência na capacidade política de Pedroso, que parece ter tido dificuldades de expandir seu capital político para além da região bragantina. Procurador de Justiça de São Paulo, Sampaio se elegeu deputado federal em 2022 com mais de 98 mil votos — 19,7 mil deles concentrados em Campinas. 

Sampaio tem sinalizado nas redes sociais apoio ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), partido também do atual prefeito de Campinas. Caso essa aproximação se concretize, o deputado pode herdar parte do capital eleitoral do governador, hoje favorito à reeleição no estado. Diferentemente de outros nomes da região, a base eleitoral de Sampaio não se resume ao entorno campineiro. Ele somou votos pulverizados por todo o estado, de Caraguatatuba, no litoral paulista, a Cravinhos, no centro-oeste. 

Donizette mantém força eleitoral em Campinas, Hortolândia e Sumaré, mas, os resultados eleitorais de 2022 evidenciaram o que parece ser uma dificuldade de diversificar o capital político nas demais cidades do entorno. Assim como citado  na última análise, Donizette está para Campinas assim como Saulo Pedroso está para Atibaia.

Ganem, por sua vez, foi eleito em 2022 com mais de 141,5 mil votos em todo o estado — mais de 30 mil vindos da capital paulista e 27,5 mil de Indaiatuba, cidade onde atuou como vereador. Eleito deputado estadual em 2018, ampliou o potencial eleitoral sem depender de caciques locais ou redutos consolidados por terceiros. 

Já Kim Kataguiri (Missão) mantém capital político consolidado em Campinas, ainda que sua base formal esteja na capital. Kim nasceu em Salto e cresceu em Indaiatuba, mesmo assim construiu trajetória política e um ativismo que ultrapassou as fronteiras regionais. Kataguiri somou mais de 100 mil votos no estado, sendo mais de 8 mil em Campinas — número que supera os 3,7 mil obtidos por Ganem na mesma cidade, ainda que este último mantenha perfil mais regional, concentrado em Indaiatuba.

Na mesma linha de Kim, Paulo Freire Costa (PL), com um forte eleitorado evangélico, conquistou mais de 12 mil votos em Campinas, mesmo não possuindo um reduto eleitoral consolidado na RMC. Segundo o levantamento da Vox Brasil, Paulo Freire aparece com 2,3% das intenções de votos para deputado federal em Campinas.

Três tipos de voto

Antes de avançar, vale explicar três categorias de voto usadas nesta análise: o voto ideológico ou programático, o voto fisiológico e o voto complexo.

  • O voto ideológico é aquele definido pela militância ou pelo programa partidário — um dos mais raros no país, dado o caráter personalista e clientelista da política nacional. 
  • O voto fisiológico segue lógica distinta: menos ligado a correntes de pensamento, costuma ser guiado por indicações de terceiros (“o vereador que conhece o deputado X, por isso vote nele”). É o voto que busca o eleitor mediano, mais ao centro — perfil que concentra a maioria do eleitorado brasileiro. 
  • Já o voto complexo, termo cunhado nesta coluna, mistura os dois: um mesmo eleitor pode votar em Guilherme Derrite para o Senado, em Kim Kataguiri para a Câmara e em Ana Perugine para deputada estadual, combinando critérios distintos em uma única decisão.

O tabuleiro estadual

Esclarecido os termos, agora podemos entender como o cenário para deputado estadual segue em formação, com disputa mais ideológica — movimento semelhante ao observado em Atibaia e Bragança Paulista. Os nomes ainda surgem aos poucos nas redes, nos bastidores e na imprensa, mas Ana Perugine (PT) já confirmou à coluna a sua pré-candidatura à reeleição na região.

Perugine mantém um reduto eleitoral consolidado em Hortolândia, o que dispensa a necessidade de disputar o voto ideológico do PT na cidade. Seu desafio está em expandir a presença para outros municípios do entorno — tarefa dificultada, segundo fontes ligadas à deputada, pelo conservadorismo político predominante na região. 

Não muito distante dali, Marcelo Yoshida, também do PT e vereador em Valinhos, lançou pré-candidatura a deputado estadual. Hortolândia e Valinhos ocupam pontos opostos do mapa regional, separados por Campinas. Resta saber em que medida a influência de Perugine pode ajudar — ou disputar espaço com — a campanha de Yoshida. O caminho inverso também é possível para o pré-candidato de Valinhos: cidades como Cabreúva, Vinhedo, Jundiaí e, com alguma margem de sorte, Atibaia, podem se tornar zonas viáveis para a consolidação de um novo reduto.

Caso prossiga com a decisão de concorrer em Campinas de fato, Yoshida encontraria pela frente a vereadora Mariana Conti (PSOL), uma vez que a busca pelo apoio dos apoiadores da esquerda pode ser bastante concorrida em termos políticos. Conti participou, em 2025, da missão internacional Global Sumud Flotilla, que buscava romper o bloqueio marítimo à Faixa de Gaza para o envio de medicamentos e alimentos. A embarcação em que estava foi interceptada por forças militares de Israel em águas internacionais, o que resultou na detenção temporária da tripulação. Após o episódio, chegou a tramitar na Câmara Municipal de Campinas um pedido de Comissão Processante contra o mandato da vereadora — arquivado pelo plenário.

O episódio deu projeção nacional a Conti, que já era a vereadora mais votada de Campinas em 2024: um caso típico de voto ideológico em uma região com redutos eleitorais fisiológicos. Movimentos desse tipo tendem a intensificar um processo de polarização rumo à Assembleia, fortalecendo também uma direita mais ideológica em resposta.

A resposta da direita ideológica

É nesse contexto que desponta o nome de Matheus Pereira (Missão). Nos últimos meses, Pereira ganhou espaço na imprensa após se envolver em diversas polêmicas, especialmente na Unicamp. A mais recente foi após interromper uma aula magna do ex-ministro Fernando Haddad na Unicamp, ação que segue a estratégia de exposição direta adotada pelo MBL para questionar o que o movimento chama de “contradições da esquerda”. 

Pereira deve contar com o apoio do único deputado federal da Missão na região, o próprio Kataguiri, na disputa por uma vaga na Assembleia Legislativa. Não muito longe dali, em Sumaré, Cris Navarro, escritora e técnica de enfermagem se lançou pré-candidata pela Missão. Embora mantenha um perfil mais discreto em termos de controvérsias do que Matheus Pereira, Cris Navarro tem buscado preservar sua visibilidade por meio das redes sociais. Ainda assim, seu desafio eleitoral vai além da exposição. A região de Sumaré representa um reduto político historicamente consolidado por lideranças como Carlos Sampaio e Jonas Donizette, o que dificulta a abertura de espaço para novas candidaturas. Nesse contexto, para ampliar sua competitividade, Navarro tende a depender menos da lógica do voto regionalizado e mais da construção de um eleitorado identificado com a Missão.

Do outro lado do espectro ideológico, o PSOL segue a deriva de uma questão acerca do capital eleitoral dos deputados federais do partido e se esses votos poderão ser revertidos em apoio à campanha de Conti, em meio ao racha interno que a legenda enfrenta. Recentemente, Conti e a deputada federal Sâmia Bomfim apresentaram notícia-crime à PGR contra Flávio Bolsonaro, em razão de viagem ao exterior na qual o senador se encontrou com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O movimento pode indicar uma maior aproximação entre as duas, e resultar em transferência de votos, mas não esclarece o posicionamento de outros nomes do partido, como Glauber Braga, Erika Hilton e Guilherme Boulos — os dois últimos com sinalizações internas de migração para o PT após as eleições de 2026. Ainda assim, o desempenho de Mariana Conti na eleição municipal de 2024 para a Câmara de Campinas foi expressivo e pode ser interpretado como um importante termômetro de sua capacidade de mobilização eleitoral no campo da esquerda, indicando potencial para ampliar sua base de votos em disputas de maior abrangência. 

Compartilhar:

Relacionados