receita federal operação credito oculto
Segundo os investigadores o mecanismo de lavagem funcionava como uma engrenagem circular perfeita para ocultar a verdadeira origem do capital
A Operação Crédito Oculto, deflagrada em 24 de setembro de 2026, marcou uma nova etapa nas investigações sobre a infiltração do crime organizado em especial o Primeiro Comando da Capital (PCC) na economia formal brasileira. Executada de forma conjunta pela Receita Federal, pelo Ministério Público de São Paulo (Gaeco), pelas Polícias Civil e Militar e por órgãos estaduais em sete estados, a ação cumpriu 27 mandados de busca e apreensão.
O foco central da investigação recai sobre uma estrutura de lavagem de dinheiro projetada por Mohamad Hussein Mourad (“Primo”) e Roberto Augusto Leme da Silva (“Beto Louco”). A principal novidade desta fase em relação às anteriores é o grau de sofisticação: no lugar de apenas fintechs e empresas de fachada, os operadores passaram a simular empréstimos bancários formais para dar aparência legal a recursos ilícitos.
A Usina Itajobi, gerida por “Primo” e “Beto Louco”, funcionou como uma “típica conta de passagem”. A empresa recebia aportes fracionados vindos de distribuidoras ligadas ao grupo (como Duvale e Aster) por meio de contas-bolsão da BK Instituição de Pagamento. Além disso, recebeu R$ 20 milhões repassados por Antonio Carlos Freixo Júnior (“Mineiro”), da Entre Investimentos.
Entre 24 e 26 de julho de 2024, a Usina Itajobi repassou R$ 100 milhões para o fundo de investimento Radford, do qual era a única cotista.
O Fundo Radford aplicou integralmente esses R$ 100 milhões em Certificados de Depósito Bancário (CDBs) vinculados emitidos pelo Banco Genial (com registros indicando também o uso de Letras Financeiras subordinadas).
De posse desse capital, o Banco Genial concedeu financiamentos via Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) para duas holdings recém-criadas: a Berna e a Branson.Aquisição de Ativos Reais: As holdings Berna e Branson abertas apenas um mês antes da primeira fase da operação, com capital social de apenas R$ 1.000 cada e em nome do Paulo Narcélio Simões do Amaral utilizaram o “empréstimo” para comprar a controladora da distribuidora de combustíveis Terrana.
Como ressaltou a Justiça, a “relação circular é eloquente”: o dinheiro que o banco “emprestava” para aquisição da distribuidora era, em última análise, o próprio capital ilícito injetado pelo fundo Radford. Mais tarde, o Banco Genial renunciou à administração do fundo, liquidou os CDBs e transferiu os direitos dos empréstimos diretamente ao Radford, eliminando a instituição do circuito e evidenciando a dissimulação do negócio.
As investigações do Gaeco e mensagens extraídas do celular do empresário Paulo Narcélio detalham o envolvimento direto de executivos do setor financeiro:
Em nota oficial, o Banco Genial afirmou que Humberto Tupinambá Neto foi destituído da empresa em maio de 2026. A instituição declarou estar prestando informações e colaborando integralmente com o Gaeco, destacando ainda a adoção de medidas adicionais de governança, como a criação de uma inspetoria interna e a revisão dos seus processos de concessão de crédito.
A defesa de Antonio Carlos Freixo Júnior não se manifestou até o fechamento das apurações.