Brasil tem 40 mil alunos excepcionais na escola pública e não sabe o que fazer com eles IA

Brasil tem 40 mil alunos excepcionais na escola pública e não sabe o que fazer com eles

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Com a inteligência artificial reorganizando a economia global, países que identificam e cultivam seus talentos de ponta saem na frente. O Brasil ainda não começou essa corrida.

Imagine que um país descobrisse enormes reservas de petróleo e decidisse simplesmente deixá-las no subsolo. Não por falta de tecnologia, não por opção estratégica, mas por descaso. Esse país soaria absurdo. Mas é algo próximo ao que o Brasil faz com algo muito mais valioso: as pessoas excepcionalmente capazes que nascem aqui a cada ano.
A inteligência artificial está reorganizando a economia global. O talento humano de ponta virou o ativo mais escasso e disputado do planeta. As empresas na vanguarda da IA, as que definem quem vai criar riqueza nas próximas décadas, são movidas por um número relativamente pequeno de pessoas com capacidade cognitiva excepcional. Elas desenvolvem os modelos, identificam os problemas certos, criam arquiteturas que ninguém ainda imaginou. O restante do mercado de trabalho se adapta ao que essas pessoas criam.
Há mais de meio século, economistas e pesquisadores investigam como a educação impulsiona o crescimento econômico. No início, a medida era simples: quanto mais anos de estudo, maior a renda. Com o tempo, os testes internacionais como o PISA trouxeram uma visão mais precisa, o que importa não é apenas o tempo na escola, mas o quanto se aprende de fato. Hoje, sabemos ainda mais: indivíduos com desempenho excepcional, aqueles situados no limite superior do talento, contribuem de forma desproporcionalmente maior para o crescimento econômico e, sobretudo, para a sua velocidade.
Isso não significa que só os mais talentosos vão ter emprego. Mas significa que os países que souberem identificar, cultivar e reter esses indivíduos em polos de tecnologia e inovação terão vantagem crescente sobre os que não souberem. No futuro próximo, esses indivíduos valerão mais do que qualquer recurso natural embaixo do solo.

O retrato que os números fazem

Desde o ano 2000, o PISA, teste aplicado pela OCDE a estudantes de 15 anos em dezenas de países, oferece um raio-X dos sistemas educacionais do mundo. O Brasil aparece com um problema duplo.
A média é baixa. Alunos da escola pública ficam muito aquém da média dos países da OCDE. Os da escola privada alcançam resultado próximo à média da população europeia, e bem abaixo da média dos alunos dos países asiáticos industrializados.
E há algo ainda mais revelador: acima do nível 6 do PISA, o nível em que começa a excelência, praticamente não existem alunos de escola pública. Os da escola privada chegam a menos de 4%, contra 15 a 25% em países industrializados. Fracos na média, pouco presentes na ponta.
O PISA não mede só conhecimento escolar. Por sua estrutura, aproxima-se de um teste de capacidade cognitiva. Um estudante no topo não é apenas alguém que estudou mais, é alguém com raciocínio mais aguçado. São esses estudantes que terão impacto desproporcional sobre a inovação e a produtividade dos países onde vivem, ou para os quais emigrarem.

A régua errada

Muitas famílias brasileiras avaliam a qualidade da educação pela comparação errada. A escola privada costuma ser melhor do que a escola pública local, mas isso diz pouco quando o parâmetro internacional é outro. Os dados do PISA mostram que mesmo as melhores escolas privadas do Brasil ficam aquém do que países mais avançados consideram padrão. As notas das escolas privadas no ENEM melhoraram nos últimos anos, mas o desempenho delas no PISA não acompanhou. São testes diferentes, mas os alunos são os mesmos, e o mundo da IA vai exigir o tipo de raciocínio que o PISA mede.
Apesar do resultado ruim geral, nada impede que um jovem talentoso da classe média encontre seu caminho. Há ilhas de excelência no país. Mas essa possibilidade simplesmente não existe para os bem-dotados da escola pública. No máximo podem conseguir um desconto ou uma bolsa de estudos numa escola privada, especialmente para melhorar a nota do ENEM dessa escola…

Uma discriminação sem nome

Nas escolas públicas, o tema das altas habilidades é tratado como subcategoria da educação especial. Na prática, quando um aluno excepcionalmente capaz aparece, o sistema não sabe o que fazer com ele. Sem currículo desafiador, sem pares intelectuais, sem estímulo proporcional à capacidade, o aluno brilhante aprende no mesmo ritmo que todos e, com frequência, se perde.
Nos países que levam o tema a sério, da Coreia do Sul à Hungria, de Cingapura à Finlândia, existe uma estratégia específica: identificação precoce, ambientes desafiadores, competições acadêmicas integradas a redes de formação. No Brasil, isso não existe de forma sistemática.
É uma discriminação sem nome bonito, mas com consequências muito feias. Um jovem de família pobre com capacidade excepcional, nascido no interior do Maranhão ou na periferia de Fortaleza, tem probabilidade muito baixa de ser identificado e desenvolvido, não por falta de capacidade, mas por falta de sistema. E no entanto é possível que haja mais de 40 mil alunos desse nível em cada série da escola pública brasileira.

O que fazer

Tomar consciência do problema é o primeiro passo. O segundo é entender que inteligência não é um dom fixo, ela se desenvolve. Para a maioria das crianças brasileiras, ambientes pobres em estímulo inibem o potencial cognitivo antes mesmo que ele apareça. Políticas robustas de primeira infância não são assistencialismo, são o fundamento de qualquer estratégia séria de desenvolvimento do capital humano.
O terceiro passo é identificar cedo e de forma universal. Grandes talentos estão muitas vezes escondidos por trás de circunstâncias desfavoráveis. Só uma triagem ampla os encontra. E depois é preciso criar os caminhos: escolas especializadas em municípios maiores, expansão das Olimpíadas do Conhecimento, uso de plataformas digitais para conectar alunos remotos a redes de formação de qualidade. Nada disso exige uma reforma constitucional. Exige decisão, do poder público e do setor privado.
A janela de oportunidade está aberta, mas não fica aberta para sempre. O Brasil tem uma vantagem: o tamanho de sua população. Mas até isso está mudando, o número de nascimentos deve cair de 2,5 para 1,6 milhão nas próximas décadas.
O que falta não é potencial. É o sistema para encontrá-lo e desenvolvê-lo, antes que essa janela se feche.

João Batista Araujo e Oliveira é presidente do Instituto iDados e autor de Inteligência: o ativo estratégico que o Brasil não pode desperdiçar.