“Não dá para ser eleito falando a verdade” Eleições

“Não dá para ser eleito falando a verdade”

Tamanho do texto:

Entre promessas impossíveis e culpados sob medida, o populismo cobra seus juros acumulados. O único antídoto contra o padrão é expor a engrenagem

A frase chegou numa conversa de WhatsApp, às 22h36 no feriado desta quinta-feira. Quem mandou foi uma fonte que passou os últimos meses conversando com políticos brasileiros. Não era uma opinião, mas sim uma conclusão de campo: “Não dá para ser eleito falando a verdade.”

Parei. Reli. E, de fato, não consegui refutar.

É tentador transformar essa frase em munição partidária, isto é, apontar para este ou aquele governo, este ou aquele nome. Mas esse movimento, o de encontrar um culpado, é exatamente o que o populismo ensina. Afinal, cair nessa armadilha seria confirmar a tese.

Percebe-se, portanto, que o problema do Brasil não é um governo. É um padrão.

Nas últimas décadas, independentemente de quem ocupou o Palácio do Planalto, o roteiro se repetiu com precisão perturbadora: primeiro, designar um inimigo; depois, prometer o impossível, adiar o custo e, por fim, transferir a culpa. Cada ciclo eleitoral reinicia o jogo com o mesmo script.

O populismo está ancorado em três características básicas: designar um inimigo, prometer incessantemente e a incapacidade estrutural de ser eleito pela verdade. Vale ressaltar que isso não é uma patologia brasileira. Trump foi eleito duas vezes num país com escola pública, acesso à informação e renda per capita entre as maiores do mundo. Ou seja, o eleitor americano não foi enganado por ignorância. Ele, na verdade, escolheu uma narrativa que nomeava sua raiva e apontava um culpado.

O populismo não prospera na ausência de educação. Prospera, sim, na presença de dor sem explicação. E onde há dor, consequentemente há mercado para simplificação.

Hitler também foi populista. A comparação, no entanto, não serve para equiparar crimes, serve para entender a durabilidade do mecanismo. Inimigo. Promessa. Identidade. O roteiro atravessa décadas, continentes e espectros ideológicos porque não fala para a razão. Fala, essencialmente, para o inconsciente.

A taxa composta do populismo

Existe na matemática financeira um conceito que ilumina o que está acontecendo com o Brasil, os juros compostos. Uma taxa que parece pequena num primeiro momento se torna insuportável quando aplicada repetidamente sobre si mesma. Nesse cenário, o tempo é o fator decisivo. Não é a alíquota de um ano que quebra, é a acumulação silenciosa de todos eles.

O populismo funciona da mesma forma.

Cada promessa não cumprida deixa um resíduo. Cada inimigo designado aprofunda uma fratura social. Cada verdade evitada adia uma reforma necessária. Isoladamente, nenhum desses eventos parece fatal. No entanto, quando acumulados ao longo de décadas, formam uma bola de neve que chega a 2026 com força suficiente para sufocar.

Esse efeito da taxa composta dos problemas brasileiros está escancarado em todas as mazelas não resolvidas, o endividamento brutal, a baixa renda e a alta desigualdade.

Por isso, o eleitor brasileiro de 2026 não herda apenas os erros do último governo. Herda, na realidade, décadas de contas adiadas, infraestrutura prometida e não entregue, reformas anunciadas e não feitas, verdades que nenhum candidato teve coragem, ou incentivo, de dizer.

Se a verdade perde eleições, estamos, jornalistas, numa batalha assimétrica. Diante disso, não adianta competir no mesmo campo, gritar mais alto ou escolher um lado do populismo para combater enquanto ignora o outro.

O que é possível, e talvez seja o único trabalho que importa, é nomear o mecanismo. Isto significa mostrar o roteiro e ajudar o eleitor a reconhecer a estrutura antes de ser capturado por ela.

Não para salvar esta ou aquela eleição, mas sim para, ao longo do tempo, criar uma audiência imune ao script. Uma geração que, ao ouvir “designo meu inimigo e prometo o impossível”, reconheça o padrão antes de aplaudir.

É um trabalho lento. Sem o glamour da manchete. Sem o calor da polarização.

Ainda assim, é o antídoto.

Relacionados