Foto: Gazeta do Povo
MYNEWS ENTREVISTA
Especialista afirma que o eleitorado evangélico é diverso e discorda da ideia de que todos os fiéis compartilham as mesmas posições políticas
Enquanto partidos disputam a preferência dos eleitores evangélicos, especialista alerta para um erro recorrente: tratar esse público como um grupo homogêneo. Em entrevista ao MyNews, a pesquisadora Magali Cunha, autora do livro Os Evangélicos na Política, defendeu que não existe um “voto evangélico”, mas sim milhões de eleitores com diferentes visões de mundo, trajetórias e prioridades.
Segundo a pesquisadora, a identidade religiosa é apenas um dos fatores que influenciam a escolha de um candidato. Questões como renda, profissão, gênero, região onde a pessoa vive e experiências individuais também pesam na decisão eleitoral. Por isso, embora exista um núcleo conservador expressivo, o universo evangélico abriga correntes moderadas e progressistas.
A força de pautas conservadoras entre os evangélicos brasileiros está ligada à própria formação desse segmento no país. Magali explica que grande parte dos missionários que chegaram ao Brasil no século XIX veio do sul dos Estados Unidos, região marcada por valores mais conservadores. Essa influência ajudou a moldar parte da cultura política presente em muitas igrejas até hoje.
Ao mesmo tempo, a trajetória evangélica no Brasil não se resume a esse perfil. Ao longo da história, grupos ligados ao chamado evangelho social criaram escolas, projetos comunitários e organizações de assistência, além de participarem de movimentos em defesa dos direitos humanos e da democracia.
Durante a entrevista, Magali também analisou o crescimento da influência de Michelle Bolsonaro entre os evangélicos. Para ela, a ex-primeira-dama construiu uma identificação especialmente forte com mulheres religiosas ao projetar uma imagem associada à fé, à família e ao cuidado com o casamento.
Essa aproximação ganhou força durante a campanha presidencial de 2022, quando Michelle passou a participar mais ativamente de eventos políticos e religiosos. Na avaliação da pesquisadora, ela se consolidou como uma das principais lideranças femininas da direita e pode transformar esse capital político em futuras candidaturas.
A pesquisadora também chamou atenção para o aumento da presença da religião nas disputas eleitorais. Segundo ela, o fenômeno atual vai além do uso pontual da fé por candidatos e partidos, tornando elementos religiosos parte central de narrativas políticas.
Para Magali, esse movimento tem provocado desconforto entre parte dos próprios evangélicos. Ela cita sinais de desgaste com a politização das igrejas e defende que a religião continue exercendo seu papel na vida das pessoas sem se transformar em instrumento de campanha eleitoral.
A avaliação da pesquisadora é que compreender a diversidade dos evangélicos é essencial para entender a política brasileira atual. Afinal, embora compartilhem uma mesma fé, esses eleitores não pensam, votam ou se organizam da mesma forma.