Retratos do Progressismo no Brasil - Núcleo Ypykuéra
Estudo qualitativo foi realizado em 10 capitais do país; fatia significativa dos eleitores progressistas mostra receio em renovação política
Uma nova pesquisa qualitativa divulgada pelo Núcleo Ypykuéra, em parceria com o Observatório Político e Eleitoral (Opel/UFRJ e UFRRJ), traça um panorama detalhado do campo progressista no Brasil. O levantamento investigou os valores, percepções e expectativas de eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para as eleições de 2026.
A amostragem ouviu 198 pessoas em dez capitais brasileiras: Belém, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Goiânia, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Ao todo, a análise catalogou 2.973 menções codificadas.
Mesmo no campo progressista, os eleitores preferem candidatos com mandato. O resultado reflete a alta taxa de reeleição parlamentar no Brasil, que chega a quase 60%. O desejo de renovar o Congresso divide espaço com a cautela e a busca por nomes conhecidos.
Segundo os dados do levantamento, 23,6% dos pesquisados apontam que as vantagens financeiras e de marketing de quem já exerce mandato pesam decisivamente na escolha, enquanto 21% afirmam preferir nomes com trajetória pelo reconhecimento e confiança no trabalho realizado.
Portanto, a baixa renovação política não ocorre apenas pela força dos atuais parlamentares. O estudo revela, na verdade, uma mistura de pragmatismo e desmobilização do eleitorado.
Para 15,4% dos entrevistados, pesam o medo de arriscar, a preferência por quem tem chances reais de vitória e o receio de “jogar o voto fora”. Já 27,2% das respostas atribuem a falta de rostos novos a fatores comportamentais do próprio eleitorado, como comodismo, falta de informação e desinteresse.
O estudo dividiu os entrevistados em dois grupos: o primeiro reúne os eleitores convictos, que votaram em Lula nos dois turnos em 2022 e confirmam o voto em 2026; já o segundo traz os eleitores pragmáticos, que apoiaram Lula apenas no segundo turno e seguem indecisos.
A comparação expõe divergências importantes. Enquanto o eleitor fiel demonstra maior identificação ideológica com a esquerda e valoriza pautas como soberania nacional e política externa, o eleitor de segundo turno é mais crítico e sensível a temas econômicos de impacto direto no bolso, como impostos.
Essa divisão também muda o conceito de “ser de esquerda”. Os eleitores convictos associam a esquerda à defesa da classe trabalhadora. Já os pragmáticos ligam o campo progressista à proteção dos pobres e das minorias.
As prioridades sobre o governo acompanham essa separação. A redução do Imposto de Renda é a principal medida positiva para 14,3% dos pragmáticos e para apenas 7,5% dos convictos. Por outro lado, as agendas de soberania e política externa agradam a 15,1% dos fiéis e a apenas 5,5% do grupo de segundo turno.
As principais marcas do governo Lula concentram-se em direitos trabalhistas, educação e economia. O fim da escala 6×1 desponta como a medida individual mais citada de forma espontânea, com 14,7% das lembranças.
A Educação reúne 25,2% de avaliações favoráveis no conjunto. O programa Pé-de-Meia soma 12,5% das citações, seguido por ações de acesso ao ensino superior, como o ProUni. A isenção do Imposto de Renda (10,9%), a política externa (10,3%) e o programa Desenrola Brasil também se destacam.
O estudo aponta Erika Hilton (PSOL-SP) como uma liderança forte para o ciclo político pós-2026, além de liderar a lista de nomes que ajudam o presidente, com 19,7% das citações. O público associa a imagem da parlamentar à luta pelo fim da escala 6×1, à boa comunicação nas redes e à representatividade.
O levantamento traz ainda o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (13,9%), lembrado pela trajetória na educação. Guilherme Boulos (8,2%) aparece em seguida, associado ao apelo popular e à proximidade com a população.
Apesar da aprovação generalizada a programas sociais, a pesquisa investigou os pontos fracos do governo. Quando questionados sobre quem “atrapalha” a gestão, a maior parte dos entrevistados (40,2%) respondeu “ninguém” ou “não lembra”.
No entanto, entre os nomes citados negativamente, a primeira-dama Janja da Silva e o ministro Fernando Haddad figuram na liderança, com 9,6% das menções cada um, em razão da alta visibilidade que possuem no núcleo do poder.
Contudo, a avaliação varia conforme o perfil do eleitor. Janja enfrenta rejeição de 19,5% entre os eleitores pragmáticos de segundo turno. Em contrapartida, entre os convictos, esse índice cai para apenas 2%. Já Fernando Haddad vive o caminho inverso: as críticas ao ministro da Fazenda vêm principalmente do eleitorado fiel a Lula (13,7%), contra apenas 4,5% no grupo de segundo turno.
Ao projetar a escolha de novos nomes para renovar o Congresso Nacional, 24% dos participantes afirmaram que as propostas apresentadas ao longo da campanha eleitoral serão o fator decisivo para a definição do voto. O histórico político do candidato, a representatividade e a afinidade com pautas e valores de grupos específicos foram listados como critérios determinantes na hora de ir às urnas.
Leia o estudo completo: Retratos do Progressismo no Brasil