O Ministério da Saúde suspendeu temporariamente nesta segunda-feira (8) a aplicação da vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan. A decisão ocorreu após o registro de três casos graves, incluindo duas mortes que ainda estão sob investigação, segundo informações divulgadas pelo g1.
Apesar do alerta, o governo federal afirmou que ainda não encontrou evidências suficientes para ligar diretamente os casos à vacina. Mesmo assim, o ministério decidiu interromper a imunização por precaução enquanto especialistas analisam os dados de segurança.
A vacina representa um marco para a ciência brasileira. Afinal, ela é a primeira vacina contra a dengue do mundo aplicada em dose única e também a primeira produzida integralmente no Brasil. Além disso, pesquisadores acompanharam cerca de 16 mil voluntários durante cinco anos antes da aprovação do imunizante. Os resultados comprovaram eficácia e segurança e ganharam destaque na revista científica Nature.
O que levou à suspensão
Segundo o Ministério da Saúde, profissionais aplicaram cerca de 500 mil doses desde o início da campanha. Nesse período, o sistema de monitoramento registrou 3.703 notificações de eventos inesperados com sintomas semelhantes aos da dengue, o que corresponde a 0,7% dos vacinados.
Entre esses registros, 42 pessoas apresentaram sinais de alerta, como dores abdominais intensas, vômitos persistentes e sangramentos. Embora os casos representem apenas 0,008% dos vacinados, eles não apareceram nos estudos clínicos nem constam na bula do produto.
Dos 42 episódios, três evoluíram para quadros graves. Uma mulher de 39 anos desenvolveu sintomas poucos dias após a vacinação, precisou de internação em UTI, mas se recuperou. Já uma mulher de 48 anos e um homem de 58 anos morreram após apresentarem complicações compatíveis com dengue grave.
No entanto, os investigadores ainda não concluíram se a vacina teve alguma participação nos casos.
O que muda para quem já se vacinou
Agora, estados e municípios vão interromper temporariamente a aplicação das doses. Paralelamente, equipes de vigilância epidemiológica farão uma busca ativa por possíveis ocorrências semelhantes em todo o país.
Além disso, o Ministério da Saúde orienta que pessoas vacinadas nos últimos 21 dias observem sintomas como febre, dores abdominais intensas, vômitos persistentes, tontura, sangramentos, sonolência excessiva e sinais de desidratação.
Caso algum desses sintomas apareça, a recomendação é procurar atendimento médico imediatamente.
O papel da farmacovigilância
A suspensão também chama atenção para uma etapa pouco conhecida do desenvolvimento de vacinas: a farmacovigilância. Mesmo após a aprovação de um imunizante, cientistas e órgãos reguladores continuam acompanhando milhões de aplicações para identificar possíveis eventos raros.
Por isso, autoridades investigam cada ocorrência grave registrada após a vacinação. Esse monitoramento permite corrigir rotas rapidamente e garante mais segurança para a população.
O tema aparece no livro MyNews Explica Sistema Imunológico e Vacinas, escrito por Gustavo Cabral. A obra explica de forma acessível como funciona o sistema imunológico, como os cientistas desenvolvem vacinas e por que o acompanhamento continua mesmo depois da liberação de um produto para uso público.
Dessa forma, o caso da vacina da dengue do Butantan mostra que a investigação de eventos adversos faz parte do próprio processo científico. Até o momento, as autoridades não estabeleceram uma relação causal entre a vacina e as mortes registradas. Enquanto isso, especialistas analisam os dados para determinar se os casos representam uma coincidência ou um possível efeito associado ao imunizante.
