colunista Mara Luquet
CEO e fundadora do MyNews
caso ghosn

Livro tenta humanizar executivo Carlos Ghosn

Executivo foi preso por sonegação. Ghosn fugiu da prisão domiciliar no Japão e vive no Líbano desde dezembro de 2019
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Carlos Ghosn, que comandou em nível mundial três montadoras de automóveis Renault-Nissan-Mitsubishi, é muito claro sobre seus objetivos ao escrever seu recente livro. Já no prólogo, anuncia sua inocência e revela que quer denunciar o sistema judicial japonês, “um escândalo que muitos desconhecem”.

Livro relata a história de Carlos Ghosn. Foto: redes sociais

Acusado de crimes financeiros, Ghosn foi preso no dia 19 de novembro de 2018 ao aterrissar em Tóquio, a bordo de um avião privado. “Naquele momento, senti a fulgurante impressão de passar de Tudo a Nada”, diz ele no primeiro capítulo.

Ghosn nega as acusações que lhe são atribuídas e avalia que a origem delas pode estar na evolução dos rumos que a Aliança Renault-Nissan tomou nos últimos anos. Segundo ele, desde que o presidente francês Emmanuel Macron ascendeu ao poder, quis apresentar a Nissan como uma filial da Renault, empresa na qual o Estado francês detém 19,7% das ações. Ghosn sempre foi contrário a este posicionamento. No seu entender, a Aliança Renault-Nissan só daria certo se os japoneses se sentissem bem nela. “Seria um erro confiscar-lhes sua identidade, sua autonomia. Os japoneses precisavam formar com a Renault um grande grupo industrial onde pudessem se reconhecer nele”, afirma Ghosn que, em 1999, foi enviado ao Japão com a missão de reerguer a montadora que estava à beira da falência. Seu plano de recuperação da Nissan obteve tamanho sucesso que ele virou herói nacional, personagem até de história em quadrinhos.

Porém, explica, a partir de 2015, o descontentamento dos japoneses em relação a Aliança tornou-se cada vez maior, principalmente pelo fato de verem 43% de seus lucros serem contabilizados pela Renault devido à divisão acionária entre as duas empresas e, além disso, sem direito a voto.

Na tentativa de encontrar um equilíbrio entre o desejo de fusão vindo do Estado francês e o de autonomia por parte da Nissan, Ghosn conta que propôs criar uma holding da Aliança (inclusive com a Mitsubishi que já tinha sido adquirida pelo grupo), que garantisse autonomia operacional das três empresas. “Este parecia ser um bom compromisso”, avalia. Mas esta não foi a interpretação da Nissan.

Segundo Ghosn, as pressões dos políticos franceses se intensificaram para que ele concretizasse a fusão e esta atitude fez crescer ainda mais entre os japoneses seu tradicional espírito nacionalista. O impasse aconteceu no início de 2018. Com aposentadoria prevista para junho, foi pressionado pelo Estado francês a estender seu contrato por mais quatro anos, de forma a garantir a irreversibilidade da Aliança. Ghosn diz que hesitou, mas acabou por ceder. “Acredito que foi nesse momento que eu perdi a confiança dos japoneses”, avalia. Quatro meses depois, em novembro daquele mesmo ano, ele seria preso em Tóquio. O desenrolar desses acontecimentos é o que descreve no livro.

Ghosn conta que ao desembarcar em Tóquio naquele 19 de novembro foi imediatamente mantido em isolamento, sem direito a advogado ou a fazer um único telefonema. Poucas horas depois foi transferido para a prisão de Kosuge, onde ficou por 130 dias em uma cela sem aquecimento, em um momento que a temperatura girava em torno de 15 graus centígrados. “O frio esvazia a cabeça, congela os pensamentos, desumaniza você”, escreve. Ele revela que sua cela tinha seis metros quadrados e a luz permanecia acesa ininterruptamente; dormia no chão, sobre um tatame sem travesseiro e podia tomar dois banhos frios por semana. Sua rotina incluía longos interrogatórios diários que se estendiam muitas vezes até às dez horas da noite. “É um sistema desumano e cruel”, avalia.

Somente quatro meses depois de preso, após pagar uma fiança de um bilhão de ienes -pelo dólar da época, algo em torno de R$ 35 milhões-, ele conseguiria autorização para aguardar a data do julgamento em liberdade vigiada. Ficou um total de 14 meses em prisão domiciliar, até realizar a fuga cinematográfica de 30 de dezembro de 2019.

Ele explica que no sistema judicial japonês não existe a presunção de inocência. O réu é considerado culpado até que consiga provar o contrário. ”Se você não confessa, fica preso indefinidamente”, revela Ghosn, acrescentando que 99,4% dos acusados no Japão são declarados culpados. Diz que decidiu deixar o Japão quando viu que não teria chances de um julgamento imparcial.

Sobre sua fuga espetacular para Beirute revela muito pouco porque, segundo ele, não quer comprometer as pessoas envolvidas. Ele e a esposa Carole vivem hoje no Líbano, de onde não podem sair, pois seus nomes constam da lista vermelha de procurados pela Interpol.

O livro “Juntos, sempre”, que sai em português pela editora Intrínseca, tem linguagem direta, sem rodeios nem meias palavras, bem ao estilo de seu autor. Foi escrito conjuntamente por Carlos Ghosn e sua esposa. Intitulados com seus nomes Carole e Carlos, os capítulos se alternam entre um e outro para contar a visão da história de cada um: ele, na condição de prisioneiro, descreve suas dificuldades às voltas com a justiça japonesa; ela, para defender o marido, narra suas tratativas com diferentes interlocutores como autoridades, advogados, políticos, imprensa, ONGs e até mesmo a Organização das Nações Unidas.

Nessa alternância de narrativas, pontuam constantemente na obra conversas pessoais e trocas de correspondência afetiva entre os dois, plenas de juras de amor que poderiam ser mais sintéticas. Elas revelam, no entanto, o outro objetivo da obra que é o de humanizar a figura de Carlos Ghosn.

Conhecido no meio corporativo como um executivo ousado, frio, sem empatia pelo próximo, temido e admirado, mas não amado, o Ghosn que emerge das páginas de “Juntos, sempre” é o de um homem capaz de escrever declarações de amor eterno a sua esposa como: “Penso em você a cada minuto, a cada hora, você é a luz do meu coração, minha razão de viver. ”

À par carregar nas tintas do sentimentalismo, vale a leitura de “Juntos, sempre”, pelos bastidores do que acontece no mundo das grandes corporações e pelas denúncias que faz, pois elas vão além do caso individual de Carlos Ghosn.

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