Projetos eleitoreiros movem as políticas públicas
Eleições
Sem políticas de Estado, PT e PL estão do mesmo lado em projetos que se traduzem em populismo
A PEC que acaba com a escala 6×1 é apenas o exemplo mais recente, e mais barulhento, de um padrão que se repete em anos eleitorais, em especial neste 2026. São pautas de enorme relevância para a vida dos brasileiros, ignoradas por anos, sendo pautadas às pressas, sem debate qualificado, e aprovadas com a mesma pressa com que são esquecidas nos anos em que não há eleição. Não é um problema isolado, mas um método.
A proposta reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas e garante dois dias de folga por semana. No papel, uma modernização legítima. Na prática, uma mudança constitucional aprovada sem que os principais interessados, os trabalhadores e os pequenos empresários que os empregam que serão os mais afetados, tenham sido devidamente ouvidos.
Parlamentares recuam, retiram assinaturas contra PEC 6×1 e culpam suas assessorias
Ninguém discutiu com profundidade. Não pode haver redução de salário, ótimo. Mas pode haver demissão? Pode haver substituição de profissionais mais experientes por outros mais baratos? Pode o pequeno empresário do bairro, que não tem capital de giro nem linha de crédito adequada, absorver um choque de custo?
A pesquisa mais recente do Sebrae mostra que 51% dos donos de micro e pequenas empresas acreditam que o fim da escala 6×1 não trará impacto para seus negócios, um avanço em relação a 2024, quando 47% tinham essa percepção. A proporção dos que enxergam a mudança como negativa caiu de 32% para 27%. 
O presidente do Sebrae, Décio Lima, chamou a mudança de modernização e disse que a medida não deve ser vista apenas pelo ponto de vista do “custo momentâneo na planilha”.  Pode ser mesmo. Mas convém perguntar quem paga esse custo momentâneo quando não há caixa, nem um sistema financeiro que olhe para este setor?
Os segmentos com maior percepção de impacto negativo incluem indústria de base tecnológica, agronegócio, serviços pessoais, saúde, educação e beleza.  São academias, salões de beleza, logística, economia criativa, negócios que funcionam nos fins de semana, que operam no limite da folha, que não têm departamento jurídico para interpretar a nova lei nem lobby em Brasília para negociar prazo de adaptação.
O grande empresário repassa o custo ao preço. Se não puder, muda de negócio. O grande empresário tem mecanismos de proteção e adaptação. Quem fica pelo caminho é o dono do salão no bairro, a academia da esquina, o produtor rural que colhe no sábado porque a chuva não respeita CLT. Esses nunca foram vistos por nenhum governo, de direita ou de esquerda.
O padrão que se repete
A Câmara aprovou o fim da escala 6×1 com votos de parlamentares que, até poucos dias antes, eram apresentados como adversários da redução da jornada. O motivo da adesão da oposição foi sobretudo eleitoreiro. Medo das reações nas redes sociais, pesquisas de opinião e a vitória da esquerda na batalha de narrativas deixaram os parlamentares acuados na pauta. Isso não é política de Estado. É política de sobrevivência eleitoral. E não é caso único.
Olhe para a CPI do Banco Master. O senador Flávio Bolsonaro passou a defender publicamente a criação de uma nova CPI para investigar o Banco Master após a divulgação de um áudio em que solicita recursos ao empresário Daniel Vorcaro. Apesar da mobilização recente, o parlamentar não assinou os primeiros pedidos de investigação apresentados no Congresso.  A primeira proposta de CPI foi protocolada em novembro de 2025, reuniu o apoio de 53 senadores, mas não contou com a assinatura de Flávio Bolsonaro. A investigação só passou a ser conveniente quando o rolo com Vorcaro explodiu na imprensa.
O PT fez o movimento inverso: resistiu à CPI enquanto o caso era um problema para o governo, e passou a apoiá-la quando Vorcaro e Flávio apareceram na mesma foto.
Dois lados opostos, mesma lógica. Não é o interesse público que move o termômetro. É o calendário eleitoral.
E tem mais um teste chegando. A CCJ da Câmara retomou o debate sobre as PECs que reduzem a maioridade penal para 16 anos, proposta que prevê que jovens passem a responder criminalmente como adultos, inclusive cumprindo pena no sistema prisional comum. A pauta recoloca a segurança pública no centro da pré-campanha de 2026 e obriga candidatos a sair do conforto das frases prontas. A questão é se o debate vai ser sério, ou se vai seguir o roteiro já conhecido de pressa na aprovação, sem estudo de impacto, sem escuta dos especialistas, sem olhar para o que os dados internacionais mostram sobre endurecimento penal e reincidência.
O distanciamento que ninguém quer nomear
Há um fosso crescente entre o que a população precisa e o que os governos entregam. Não é de hoje, não é de um partido só. É um modelo político que só acorda para as grandes reformas quando a popularidade cai e a eleição se aproxima.
O governo quer correr com a PEC da escala 6×1 para ter mais tempo de exibi-la como trunfo eleitoral.  Três anos de governo sem pautar o tema. De repente, urgência máxima e governo e oposição, que brigam em tudo, se entendem em tempo recorde.
Essa facilidade é o sinal mais honesto do que está em jogo. Não a vida do trabalhador, não o futuro do pequeno empresário, mas o voto de outubro que guia as políticas públicas e as mudanças.
Modernizar as relações de trabalho é necessário e urgente. Investigar escândalos bancários é obrigação. Debater segurança pública é inadiável. Mas fazer tudo isso às pressas, sem qualidade, sem diferenciação, sem a seriedade que os temas merecem, apenas porque o Datafolha caiu, não é governar. É fazer campanha com dinheiro público e consequências reais para quem não tem como se proteger.