Banco Master: conheça a teia que conecta fraude financeira e poder político Daniel Vorcaro I Foto: Reprodução Corrupção

Banco Master: conheça a teia que conecta fraude financeira e poder político

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Entenda a estrutura de múltiplas camadas que conecta líderes, operadores e pessoas politicamente expostas, onde a engenharia financeira encontra a porta de entrada do dinheiro público

O Banco Master não é um escândalo simples, e talvez nem caiba inteiro na palavra “escândalo”. Não há um vilão solitário, uma conta no exterior e um rastro de dinheiro fácil de seguir. Não é só uma fraude financeira, não é só uma crise política e não é só um grupo agindo à margem da lei. É o ponto em que essas três coisas se encontram. O que o MyNews foi reconstruindo, ao longo de meses de apuração, é uma teia, uma estrutura de múltiplas camadas que conecta o mundo das finanças ao mundo da política, passando por dezenas de fundos de investimento, operadores especializados e pessoas com poder de decisão sobre o dinheiro público.

Para decifrar essa complexidade, o MyNews organizou os personagens reunidos na apuração em três grupos distintos: os líderes, os operadores e as PEP, as Pessoas Politicamente Expostas. Cada grupo cumpre um papel diferente na teia. E é entender essa distinção que permite enxergar o que está realmente em jogo.

Os líderes

No topo da teia estão os nomes que a apuração coloca na origem das decisões.

Daniel Vorcaro – ocupa o centro do mapa. Dono do Banco Master, é apontado pela Polícia Federal como o chefe do esquema e foi preso pela primeira vez em novembro de 2025, quando se preparava para embarcar em um voo ao exterior a partir de São Paulo. Na ação, foram apreendidos um jato avaliado em R$ 200 milhões, R$ 2 milhões em espécie, além de relógios, joias e obras de arte. Em fase posterior, a investigação passou a sustentar que ele mantinha uma milícia privada, apelidada de “A Turma”, para coagir e ameaçar desafetos, incluindo um plano para simular um assalto contra o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo. A defesa de Vorcaro nega tentativa de fuga e tratou parte das informações como especulação.

Augusto Lima – ex-sócio de Vorcaro, é a ponta onde a história começa. A apuração situa a origem do esquema num mecanismo de consignados falsos montado para engordar a carteira de crédito do Master. Esse arranjo nasce na Bahia, quando Lima adquire a rede Cesta do Povo, braço da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), privatizada em 2018. A partir dali constrói o CredCesta, cartão de consignado voltado a servidores públicos. No mapa, o CredCesta se conecta ao Will Bank, a fintech do grupo, e à malha de fundos. Alvo central da nona fase da Operação Compliance Zero, Lima afirma, por meio de seus advogados, que sempre atuou dentro dos limites da lei.

Nelson Tanure – aparece ligado à camada offshore e aos trustees da estrutura, o investidor cujas operações se entrelaçam às do Master por meio de gestoras e fundos. Na investigação, entrou na segunda fase como alvo de busca e apreensão. Uma ressalva necessária: até onde o material público permite afirmar, ele figura como alvo de buscas, não como réu.

Os operadores

Se os líderes idealizam, são os operadores que fazem o dinheiro andar. A teia tem aqui dois eixos que se encontram: a execução dentro do banco, concentrada em Ascendino Garcia, e a estruturação para fora, via WNT e offshores. Os dois convergem na Sefer, gestora ligada a Benjamin Botelho. A mecânica de base é conhecida: o Master emprestava a empresas que, por sua vez, aplicavam em fundos, usados para comprar ativos do Master, gerando liquidez ao Banco – fazendo o recurso “girar”.
Ascendino Madureira Garcia, o “Dino”, é descrito pela investigação como o operador tático de Vorcaro, funcionário da Master Corretora desde 2018 e alvo da segunda fase da Compliance Zero. Não é réu de primeira viagem: já fora investigado na Operação Fundo Fake, em 2020, e responde por organização criminosa, gestão fraudulenta e corrupção, além de ter sido denunciado pela Procuradoria-Geral da República, em 2021, em um esquema de propina ligado à Odebrecht.
Segundo a apuração do MyNews, era por ele que toda operação passava: idealizada por Vorcaro e Augusto Lima, validada juridicamente por Daniel Monteiro e entregue a Dino para virar movimento financeiro. Ele coordenava as liquidações com a tesouraria e a contabilidade do banco e operava as contas de fundos e securitizadoras, Sefer, Trustee, Reag, WNT, Base, Lever, Humaitá, FortSec, concentradas no próprio Master. O desenho permitia a circulação interna de recursos, a reciclagem de liquidez e a baixa rastreabilidade das operações, com o banco figurando, em vários casos, como cotista único dos fundos que compravam papéis de empresas do mesmo grupo. Para os investigadores, Dino é peça-chave para entender a cadeia de fundos usada para desviar recursos.

Valério Marega Júnior já era conhecido no mercado antes do Master. É o fundador da WNT, gestora de ativos problemáticos (distressed assets) com cerca de R$ 11,5 bilhões sob gestão, especializada em comprar participações em empresas em dificuldade, muitas vezes em parceria com Nelson Tanure e com o próprio Banco Master. Na Compliance Zero, a PF o descreve como operador financeiro ligado a estruturas de fundos e sociedades usadas no contexto do banco; em mensagens, aparecia salvo como “Valério Fundos”, com posição de coordenação operacional para viabilizar, de forma dissimulada, a compra de um apartamento. Sua defesa nega: afirma que ele foi apenas consultado sobre a possibilidade de fundos da WNT adquirirem imóveis e respondeu negativamente. O que a apuração do MyNews acrescenta, e aqui o material é exclusivo, ainda sem confirmação pública, é a espinha offshore da estrutura. Valério e Daniel Monteiro teriam montado estruturas offshore tanto para Vorcaro como para Lima.

Benjamin Botelho de Almeida é o nó que fecha o circuito. Documentos da investigação o colocam como operador próximo de Vorcaro e da família, residente em Portugal e com empresas em jurisdições como Ilhas Cayman, Delaware e Suíça. Quando ainda era o relator do caso, o ministro Dias Toffoli determinou, em janeiro, que Botelho e a Sefer fossem alvos da segunda fase, por ele controlar a Foco DTVM, atual Sefer Investimentos. A reincidência reforça o nó: ele foi denunciado pelo Ministério Público Federal por gestão fraudulenta no episódio do Banco Máxima, entre 2014 e 2016, e uma offshore nas Bahamas ligada à Sefer foi aberta nove dias depois de o Banco Central liquidar o Master. É também o elo histórico com Dino, que foi seu braço direito na Foco antes de migrar para o Master, em 2018. A Sefer nega irregularidades e afirma seguir a legislação.

A retaguarda jurídica e contábil completa o bloco. Daniel Monteiro, advogado de Vorcaro preso em abril, e o irmão David Lopes Monteiro, descrito pela PF como operador vinculado ao núcleo jurídico-financeiro do Master, dão o suporte legal das operações. Já Maurício Quadrado (à frente da Trustee), Alberto Félix (tesouraria) e Ângelo Silva (contabilidade) aparecem, segundo a apuração do MyNews, como peças da execução diária. Sobre estes três, uma ressalva: não constam, no material público disponível, como réus ou alvos formais da investigação. Eles entram por apuração própria do MyNews e foram procurados para manifestação.

As Pessoas Politicamente Expostas

No andar de cima da teia estão as pessoas politicamente expostas. Aqui, o enquadramento é decisivo: trata-se, na maioria, de investigados que negam as acusações, e a posição de cada um no mapa é a hipótese da investigação, não fato julgado.
Ciro Nogueira (PP-PI), presidente do partido, foi alvo da quinta fase, sob suspeita de receber uma espécie de mesada de Vorcaro, ao menos R$ 6 milhões entre 2024 e 2025, segundo a investigação. O senador nega.
Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado, é o alvo da nona fase, a que mais aproxima a teia da origem baiana. A suspeita é de que ele teria pedido um apartamento a Augusto Lima em troca de atuação favorável ao banco no Senado, com indícios de repasses a uma financeira ligada à sua nora. Em buscas, a PF encontrou US$ 49 mil em espécie e relógios de luxo no hotel onde o senador se hospeda em Brasília. Wagner nega irregularidades, e o PT saiu em sua defesa.
Flávio Bolsonaro (PL) entra por uma porta própria: admitiu ter pedido recursos a Vorcaro para o filme “Dark Horse”, sobre o pai, R$ 61 milhões dentro de um acordo de R$ 134 milhões.
Cláudio Castro (PL), ex-governador do Rio de Janeiro, foi alvo de buscas por causa das aplicações de mais de R$ 3 bilhões do Rioprevidência, o fundo de pensão dos servidores estaduais, no Banco Master.

A teia, porém, projeta esse anel para muito além desses quatro nomes, alcança lideranças dos dois campos políticos, ex-ministros, governadores e parlamentares. Esse é o ponto em que o mapa deixa de ser reportagem e passa a ser hipótese: para a maioria desses nomes não há, hoje, peça pública da investigação que os cite nominalmente. Eles compõem o universo que a teia levanta, não o que ela comprova.

O que a teia revela

O que a teia mostra, no fim, é que o caso Master está longe de se encerrar. Cada fase da Compliance Zero acrescenta um nó, e cada nó conecta um pedaço do sistema financeiro a um pedaço do poder político. Por isso, reduzir a história a um nome, o do banqueiro preso, é perder de vista o desenho maior. O Master não foi um ponto fora da curva: foi o encontro de uma engenharia financeira sofisticada com a porta de entrada do dinheiro público. E é essa combinação, mais do que qualquer personagem isolado, que a reportagem do MyNews tenta tornar visível.

Após o fechamento desta matéria, a Trustee mandou este comunicado:

“A Trustee é uma DTVM e, portanto, não tem ingerência sobre as decisões de investimentos dos fundos que estão sob sua administração. A Trustee executa ordens dos gestores dos fundos.
Além disso, Maurício Quadrado, sócio da Trustee, não tem função executiva na empresa e, dessa forma, não participa de nenhuma operação. Importante ressaltar que nenhum fundo sob administração da Trustee se enquadra no mecanismo relatado em que empresas compravam cotas do fundo, que, por sua vez, comprava ativos do banco Master”.

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