O debate nem começou e já tem derrotados Da esquerda para direita: Renan Santos (Arquivo Pessoal); Ronaldo Caiado (Reprodução: Band News); Presidente Lula (Foto: Ricardo Stuckert); Flávio Bolsonaro (Foto: Chales Vieira); Augusto Cury (Foto: Reprodução/Cynthia Myarka Fotografia) Eleições

O debate nem começou e já tem derrotados

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Lula, Flávio Bolsonaro e Zema deixam três púlpitos vazios no primeiro confronto da eleição de 2026 e cada ausência conta uma história diferente

O primeiro debate presidencial de 2026 começa às 20h deste domingo (23), nos estúdios da Band, no Morumbi, em São Paulo, e já entra no ar com três derrotados. Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) não vão comparecer. A emissora, fiel à tradição de abrir a temporada de confrontos na TV desde a redemocratização, decidiu manter no cenário os púlpitos sorteados para os ausentes, três espaços vazios que dirão mais sobre esta eleição do que boa parte do que for dito no palco. Sobraram Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). É o debate mais esvaziado desde 1989, quando Fernando Collor faltou aos seis encontros do primeiro turno e ganhou a eleição fazendo exatamente isso.

A ausência de Lula é a mais bem calculada e a mais reveladora. O presidente não apenas faltou: ele ocupou o horário. A Record exibe às 20h30, no Domingo Espetacular, entrevista exclusiva gravada neste domingo no Palácio da Alvorada com a jornalista Mariana Godoy, meia hora depois do início do debate. É uma manobra clássica de quem lidera: Lula aparece em rede nacional, responde sobre as investigações que envolvem seu filho Fábio Luís, o Lulinha, fala de Trump, segurança e educação, tudo sem um único adversário para contestá-lo em tempo real, e ainda disputando a audiência da Band. A campanha petista justifica a ausência pelo desequilíbrio do palco, em que o presidente seria alvo isolado num campo majoritariamente de direita, e pela inclusão de candidatos que a lei não obrigava a convidar. A justificativa é razoável. A escolha do horário revela que não se tratava só disso.

Flávio Bolsonaro simplesmente sumiu e essa é a estratégia. O senador retirou credenciais para o debate, esperou a definição de Lula e, confirmada a ausência do adversário, condicionou a própria. A avaliação do PL, endossada por Valdemar Costa Neto, é que, sem o petista no palco, Flávio viraria o alvo preferencial dos concorrentes que disputam com ele o mesmo eleitorado de direita. Com 33% no Datafolha de sexta-feira (21), contra 39% de Lula, Flávio se comporta como quem já está no segundo turno e não tem nada a ganhar antecipando o confronto. É a lógica do favorito aplicada por quem ainda não é favorito e que transfere ao eleitor o custo de não conhecer o candidato. “Não daremos palanque para os outros”, disse Valdemar.

Zema é o caso que ninguém entende. O Novo não tem os cinco parlamentares no Congresso que tornariam obrigatório o convite: o ex-governador de Minas estava no palco por escolha da Band, não por direito. Renunciou ao governo mineiro para disputar a Presidência, aparece empacado na faixa dos 5% junto com os demais, e tinha diante de si duas horas de rede nacional gratuita com dois adversários ausentes, exatamente o cenário que um candidato desconhecido do grande público deveria sonhar. Às 12h01 deste domingo, desistiu, alegando que a mudança de data havia perdido o propósito. Adversários leram o gesto como o que ele aparenta ser: uma desistência da candidatura. A campanha nega e diz que, sem Lula e Flávio, o debate “perderia impacto”. A pergunta fica: Zema ainda está na disputa ou já está negociando outra coisa?

Restam três candidatos e uma constatação incômoda. Caiado, que chama os ausentes de “fujões” e avisou pela assessoria que não dá “marcha à ré nem para trem carregado de dinamite”, e Renan Santos, que classificou o esvaziamento como uma vergonha, herdaram sozinhos o palco e com ele a chance de furar a polarização diante de um eleitorado que ainda não os conhece.

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